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A maçã voa enquanto permanece parada

Carson nota um verso no qual uma maçã está suspensa na árvore; o verbo para a “suspensão” é epeteto , que vem de petomai , o verbo “voar”. Geralmente é usado “para criaturas com asas ou para emoções que atravessam o coração”, ligado à “emoção erótica”, usado por Safo no fragmento 31 para dizer que eros “dá asas ao meu coração” ou “faz meu coração voar”. No trecho analisado por Carson – do romancista Longo, autor de Dáfnis e Cloé , do século II d.C. –, o verbo está no imperfeito, ou seja, “paralisa a ação do verbo no tempo”, já que o imperfeito expressa continuidade, “para que, como a flecha no paradoxo de Zenão, a maçã voe enquanto permanece parada”.

As últimas maçãs da época

Domingo passado fui à aldeia dos meus pais colher dióspiros. Não eram muitos. Decidi aproveitar também as últimas maçãs da época, que tinham caído e estavam espalhadas pelo chão. São muito bonitas, de um amarelo lento e aveludado, com pontinhos vermelhos. Trouxe as que pude. Só em casa, ao abri-las, percebi que estavam podres. Não me arrependo do tempo e do esforço. A cor das maçãs continua magnífica.

Grand jeté

Em Wittgenstein as metáforas funcionam de modo esquisito; transferem a significação entre dois objectos distantes como é da sua competência mas, ao mesmo tempo, só que agora de outro lado, continuam a sujeitar-se ao rigor das palavras. Quando ele escreve: “Mais tarde, quando estava a copiar uma frase que tinha escrito, cuja segunda metade era má, vi-a de repente como uma metade apodrecida de maçã.” Já nem penso na maçã, vejo o texto apodrecido como um texto apodrecido. A frase tem no seu interior uma energia literal extraordinária, inapropriada, estimulante. Reconheço este mecanismo dos desenhos animados de Tex Avery. Num desenho animado podemos fazer tudo? Sim, na verdade, talvez só aí e dentro da linguagem seja possível mostrar um bailarino que salta ( grand jeté ) sem se mover. Ah, já sei quem é o bailarino.

Maçãs

Acabei de tirar algumas maçãs de um saco de papel onde ficaram muito tempo. Tive de cortar metade de muitas delas e atirá-las fora. Mais tarde, quando estava a copiar uma frase que tinha escrito, cuja segunda metade era má, vi-a de repente como uma metade apodrecida de maçã. E é este o modo como as coisas se passam sempre comigo. Tudo o que comigo se cruza torna-se para mim uma imagem do que estou a pensar na altura. (Haverá algo de feminino nesta maneira de pensar?) Ludwig Wittgenstein, Cultura e Valor, tradução de Jorge Mendes, Edições 70.

Este quadro é um prazer para os olhos

Mãos. Carantonhas (na mesa e cadeira). Taça com abóbora, maçãs, flores e folhas. Gansos. Chapéus extraordinários. Todos estes elementos dão ao quadro um ambiente tão festivo e alegre que, em vez de uma cena religiosa, diria que estamos a ver um musical. Mais uns segundos e começam todos a dançar e a cantar.