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Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2015

Quero ser cavalo

Como eu gostava de ser cavalo...
Bastava que, ao olhar para o espelho, pudesse ver, em vez de pés e mãos, cascos e uma cauda no traseiro e uma cabeça de cavalo autêntica, para ir direito ao departamento de habitação...
«Quero um andar grande e moderno», diria.
«Tem de preencher uma requisição e esperar a sua vez.»
«Ah, ah, ah», havia de rir. «O cavalheiro não vê que não sou nenhum vulgar homem da rua? Sou diferente, sou especial.»
Logo a seguir, dar-me-iam um grande e espaçoso andar com casa de banho.
Faria espectáculos numa revista e ninguém se atreveria a dizer que não tinha talento - mesmo se o texto não prestasse. Pelo contrário, haviam de elogiar-me.
«Não é uma maravilha, para um cavalo?», diriam.
«Que cabeça!», comentariam outros.
Depois viria todo o gozo dos ditados e provérbios: «Senso de cavalo», «A cavalo dado não se olha o dente», «Um reino para um cavalo», «Um cavalo cinzento»...
Havia de despertar o interesse das mulheres. «Você é tão diferente», diriam.
E, quando chegasse o tempo d…

Sábado, 31 de Janeiro, a partir das 17h00, no Gato Vadio

A imagem, magnífica como sempre, é do Luís Nobre, dos Lina&Nando.

Uma mariposa pousada no tecto

Era o último dia da vida de Emiliano Leprini. Todos o sabiam. Emiliano Leprini sabia-o também. Não devemos ser demasiado sensíveis e escrupulosos nos assuntos relacionados com a morte. A existência é assim mesmo: o fim é certo e há um dia para morrermos.
Como disse, o último dia de Emiliano Leprini era exactamente aquele. Descalçou as pantufas, vestiu o seu melhor pijama de lã escocesa e deitou-se tranquilamente à espera. A tarde apagava-se, o sol mergulhava, ainda quente, no mar. A mulher era uma estátua de silêncio à sua cabeceira. Nesse momento, o moribundo observou uma mariposa que estava pousada no tecto. E não só a observou, como a estudou também (voltaremos a este assunto mais tarde, a menos que nunca mais voltemos).
Um lenço subiu à fronte da mulher e procurou pudicamente absorver uma ou duas lágrimas tristes. Emiliano tinha sido de muito boa companhia durante toda a vida e um espírito muito pronto, jovial e afável. Dele ninguém podia dizer que fora uma pessoa de trato difícil…

Antes das larvas terem morrido de tédio

O tio vivia numa ruela estreita junto a um convento. Ocupava um quarto amplo num rés-do-chão. ("Prefiro o rés-do-chão, meu caro senhor", costumava ele dizer, "a todas essas ideias modernistas de andares elevados e quejandos"). O seu quarto estava completamente cheio de livros velhos, grossos volumes ocupando estantes meio carcomidas pelo caruncho antes das larvas terem morrido de tédio.

Slawomir Mrozek, O Elefante. Tradução de Yolanda Artiaga.

As doutrinas de Fourier

E examinaram as doutrinas de Fourier.
Todas as desgraças vêm da coacção. Se a Atracção for livre a Harmonia há-de estabelecer-se.
A nossa alma contém doze paixões principais, cinco egoístas, quatro anímicas, três distributivas. Tendem elas, as primeiras, para o indivíduo, as seguintes para os grupos, as últimas para os grupos de grupos, ou séries, cujo conjunto é a Falange, sociedade de mil e oitocentas pessoas, que habitam num palácio. Há carros que levam os trabalhadores para o campo todas as manhãs e os trazem à tarde. Usam estandartes, dão festas, comem bolos. Toda a mulher, se assim o quiser, possui três homens, o marido, o amante e o genitor. Para os solteiros, é instituído o Bailadeirismo.
- Isto calha-me! - disse Bouvard; e perdeu-se nos sonhos do mundo da harmonia.
Graças à restauração das condições climáticas a terra tornar-se-á mais bela, graças ao cruzamento das raças a vida humana será mais longa. Poderão dirigir-se as nuvens como agora se faz com os raios, choverá de noite s…

Próximo sábado, 10 de Janeiro

No próximo sábado, 10 de Janeiro, vamos estar na Livraria-Cafetaria Snob, em Guimarães, a partir das 18h00, e na Casa Azul, em Barcelos, a partir das 22h30, para apresentar "Notícias em três linhas", de Félix Fénéon, o primeiro volume da Colecção Avesso.

Com a participação de Carolina Lapa (Guimarães) e Eduardo Calheiros Figueiredo (Barcelos).

A Snob fica na Rua D. João I, 210A, R/C, em Guimarães (facebook).
A Casa Azul fica na Rua Barjona de Freitas, em Barcelos (facebook da associação Zoom).

Vendedor de aquecedores

Thomas Bernhard, diz, não tinha particular interesse ou admiração pela academia e por isso deu-lhe um certo gozo quando emprestou livros para uma exposição e participou num ciclo dedicado ao autor alemão, no CCB, e, no meio de um dos debates, teve a oportunidade de frisar que ele, que tanto tinha lido Bernhard, não era um investigador, mas apenas um leitor. “Estavam a tratar-me por ‘professor isto, professor aquilo’”, conta. “E eu disse: ‘Desculpe, há aí uma confusão: eu não sou professor de nada, sou vendedor de aquecedores.”

Aqui.