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Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2017

Sexta-feira, 3 de Fevereiro, às 22h00, na Sede.

Ibsen, autor de comédia

Percebo tanto de teatro como a maioria das pessoas: nada. É justamente por isso que vou ao teatro. Quero tentar perceber. Não sei se é possível explicar o seu mistério. Suponho que não. Por mais que se arrisquem explicações, o mistério permanece. Por que amamos uma peça e não gostamos de outra? Por que um texto, um actor ou um encenador alimentam a nossa imaginação e outros causam-nos repulsa?

A encenação de Tónan Quito de “Um inimigo do povo”, de Henrik Ibsen, levanta uma série de interrogações importantes sobre as múltiplas – devo dizer, infinitas? – leituras que se podem fazer sobre o teatro. A peça é um dos mais famosos dramas de Ibsen: “Um médico, responsável pela garantia da qualidade sanitária de uma estância balnear, que atrai muitos turistas, descobre que as águas estão contaminadas. Decide tornar o facto público, em parte por influência do director do jornal local O Mensageiro do Povo. Acontece que o anúncio de tal calamidade tem consequências que o médico, Dr. Stockmann, nã…

Um permanente desejo de subversão

Há nos personagens de Virgilio Piñera um permanente desejo de subversão. O mundo, ou melhor, a sociedade, estão organizados segundo regras demasiado estreitas e lineares, impossíveis de aceitar (neste ponto, é óbvio que Piñera tem como principal referência o regime castrista de Cuba, de que foi uma das vítimas, mas não só).
Ora, os seus personagens refractários desafiam todas as convenções, mas sofrem igualmente todas as consequências. Tal como o leitor, adivinham desde a primeira linha o seu brutal destino, mas há uma força incontrolável que os impele a seguirem em frente e a não se desviarem um milímetro do seu objectivo. Há qualquer coisa neles de profundamente religioso, sacrificial, como se estivessem predestinados a uma espécie de imolação voluntária. É essa impossibilidade consciente de escaparem ao seu "destino" que faz deles personagens cómicos. De um humor raro e trágico.

Virgilio Piñera vai estar na ªSede, no Porto, no dia 28 de Janeiro, às 17h00.

Nunca pedes a palavra

É o que admiro em ti: falas pouco, és tão distraído, mas tens um efeito tão forte. Por isso também acho natural que as pessoas comentem: que há ano e meio assumiste o lugar na Câmara Alta, mas nunca pedes a palavra. Está perfeitamente de acordo com um senhor como tu! Um senhor assim fala através da sua personalidade! Pois bem, eu observo-te. Daqui a alguns anos também sou assim. Por agora ainda tenho demasiada paixão. Tu nunca vais direito aos assuntos e não tens propriamente uma retórica, isso é que é elegante em ti.

Hugo von Hofmannsthal, O indeciso. Tradução de Ludwig Scheidl.

Natação

Aprendi a nadar em seco. É mais proveitoso do que fazê-lo na água. Não há o medo de afundar, pois já se está no fundo e, pela mesma razão, já se está afogado de antemão. Também se evita que tenham de nos pescar à luz de um farol ou na deslumbrante claridade de um belo dia. Além do mais, a ausência de água evitará que fiquemos inchados.
Não posso negar que nadar em seco tem algo de agónico. À primeira vista pensar-se-ia nos estertores da morte. No entanto, há uma diferença: enquanto se agoniza estamos bem vivos, bem alerta, a escutar a música que entra pela janela e a observar a lagarta que se arrasta pelo chão.
A princípio os meus amigos criticaram esta decisão. Esquivavam-se aos meus olhares e soluçavam pelos cantos. Felizmente, a crise passou. Agora sabem que me sinto bem a nadar em seco. De vez em quando, mergulho as mãos no chão de mármore e ofereço-lhes um peixinho que apanho nas profundezas submarinas.


Virgilio Piñera, O Grande Baro e outras histórias.

Nada

Quando leio certos contos de Virgilio Piñera, a memória convoca também Robert Walser. Há em ambos uma atracção obsessiva pelo nada. As histórias parecem desfazer-se em pó. Os personagens parecem deslizar fatalmente para a desintegração. O que os distingue é uma diferença de grau, conferida talvez pela cor local. Piñera aproxima-se do nada por via do excesso, Walser por defeito. Piñera explode em imagens espantosas e truques formidáveis antes de tudo acabar no mais completo silêncio. Walser não grita, não gesticula, nunca muda de tom ou ritmo. No fim, o silêncio e o vazio são os mesmos: "Sem tempo, sem espaço, sem memória, sem nostalgia" (Piñera, Salão Paraíso).

Virgilio Piñera vai estar na ªSede, no Porto, no dia 28 de Janeiro, às 17h00.

Onde se lê "teatro" pode ler-se "literatura"

O meu teatro (peço desculpa por dizer "o meu teatro") sou eu mesmo, mas teatralizado. Ora, pertenço a uma época da história de Cuba marcada por grandes inseguranças - económica, social, cultural, política. Portanto, não é por acaso que as levo para o palco. O senhor deixou deslizar pela sua pergunta as palavras "absurdo" e "sátira". O ente social inseguro vive a sua insegurança como um absurdo e defende-se dela com a sátira.

Entrevista com Virgilio Piñera, revista Conjunto, 1971.

Tudo é literatura

A frase que diz “E o resto é literatura”, faço-a minha, mas modifico-a, dizendo: “Para mim tudo é literatura...” Não adopto com esta declaração uma postura cómoda, como se dissesse: “Pois bem, tive um problema, mas serve-me para escrever uma história; perdi um amigo, mas ganhei um livro.” Isso seria demasiado fácil, demasiado simples e miserável.

Virgilio Piñera, Teatro completo, p. 23

Sábado, 28 de Janeiro, 17h00

Messias e rinocerontes

Numa peça de 1948, Virgilio Piñera conta a história de um simples barbeiro de bairro, chamado Jesus, que os vizinhos declaram tratar-se do novo Messias. O pobre barbeiro rejeita tal predicado e nega todos os milagres que lhe atribuem. Os discípulos, porém, transformam cada coincidência (os pais chamam-se Maria e José) e cada palavra de Jesus num motivo de encantamento.

Ora, vítima de tão excepcionais e involuntárias circunstâncias, vê-se forçado a enfrentar o fanatismo popular e a proclamar a sua condição de “Não-Jesus”. Desta maneira, nega não apenas a sua condição de Messias, mas também a sua própria identidade, uma vez que efectivamente se chama Jesus. O problema assume proporções inimagináveis: o Vaticano envolve-se no assunto (aconselha-o a não confirmar nem a desmentir a fé do povo na sua suposta natureza divina, Vox populi vox Dei) e as autoridades públicas exigem-lhe que realize façanhas prodigiosas. Por compaixão, ajuda algumas pessoas que lhe pedem milagres e que, por isso, …

Lepisma saccharina

O centro e a periferia

Na literatura, a floresta está por conta dos escritores de língua alemã.
(Esta afirmação não é completamente verdadeira, mas também não é completamente falsa.)

O problema dos escritores de língua alemã, um dos problemas, melhor dizendo, é o excesso de intensidade (continuamos no limbo das opiniões imprudentes): entram na floresta e querem ir logo para o centro, querem sempre qualquer coisa profunda e geométrica.

Holden Caulfield, pelo contrário, não sabe bem o que quer, mas quando decide ir embora, decide ir para o Oeste, fingir que é surdo-mudo e construir uma pequena cabana "mesmo na borda da floresta, mas não na floresta, porque queria ter sempre o máximo de sol".

A floresta sombria nas costas, o sol de frente — ou vice-versa. O plano é inteiramente perfeito e até necessário, mas chegar a esse sítio é mais difícil do que chegar ao coração da floresta. A verdade é que Salinger pirou-se e Holden foi parar a um sanatório.

Cristina Fernandes.

Pergunta e resposta

A pergunta surge logo no início e volta de tempos a tempos: para onde vão os patos do Central Park no inverno? Ninguém dentro do livro sabe responder a Holden. Aliás, ninguém quer saber para onde vão os patos. No entanto, é uma questão importante, a sério. Fiz uma pesquisa e descobri que os patos ficam no mesmo sítio. Se o lago congelasse por completo teriam de ir para o sul, mas geralmente há uma brecha que lhes permite mergulhar e alimentarem-se das plantas subaquáticas — e isso basta.

Sul
Salinger sabia a resposta, antes até de Holden pensar nos patos. Essa é uma das qualidades de "À espera no centeio": Salinger e Holden sabem coisas diferentes, logo a profundidade de campo aumenta. Holden é o narrador; Salinger trabalha nos interstícios, em contramão. Jean Renoir dizia: "Por que raio é que, numa cena de amor em que o actor diz à actriz je t'aime a música também há-de dizer je t'aime? Porque é que a música não diz estou-me nas tintas para ti?" Ora, Saling…

Os nomes

SCHWARZ     Mas quem?
SCHÖN     Mas quem? - A tua mulher.
SCHWARZ     A Eva?
SCHÖN     Mignon foi o nome que lhe dei.
SCHWARZ     Pensei que se chamasse Nelli.
SCHÖN     Esse era o nome que o Dr. Goll lhe dava.
SCHWARZ     Eu chamava-lhe Eva...
SCHÖN     O verdadeiro nome dela, não sei.
SCHWARZ (distraído)     Talvez ela saiba.

Frank Wedekind, Lulu - Espírito da Terra. Tradução de Aires Graça.


O cão tinha um nome
por que o chamávamos
e por que respondia,

mas qual seria
o seu nome
só o cão obscuramente sabia.
(...)
Manuel António Pina, O nome do cão.

Sexta-feira, 13

Está tudo a acontecer

António da Silva Oliveira pertence à última geração de autores-editores-criadores cujo trabalho pode ser relacionado com a vida e o ambiente dos cafés do Porto. Após os anos dourados da segunda metade do século XIX e primeira do século XX, as décadas de 70, 80 e 90 são as últimas em que os cafés funcionam como palco principal onde se montam projectos, cruzam ideias, juntam recursos e combinam edições. É ainda nos cafés que se escreve, trocam manuscritos, vendem fanzines e revistas.
A esta geração coube o difícil papel de fazer a passagem entre os cafés e as redes sociais (incluo aqui os blogues). Os dois mundos conviveram durante pouco tempo. A passagem foi rápida e, para muitos criadores, impossível de acompanhar. A lógica de trabalho da rua, das gráficas e do papel, não é traduzível online. Os próprios códigos e o tipo de linguagem (especialmente literária) não funcionam, em grande medida, na internet. Por isso, o esforço de adaptação daqueles que cresceram nos cafés nem sempre tem…

Sábado, 7 de Janeiro, na Sede

Ainda agora começou e já foi há tanto tempo

Em meados dos anos 80, o Porto era uma cidade cercada. Não pelo exterior, mas a partir de dentro. A sensação era a de que se vivia afastado de tudo o que de importante estava a acontecer no mundo. O que chegava de fora não era suficiente para aplacar a nossa fome. A rádio, a televisão e os jornais, que para os padrões de hoje pareceriam radicalmente alternativos, representavam o tipo de cultura e informação que era necessário rejeitar.
Dentro de muros, a resistência, como sempre, fazia o seu obscuro caminho. Fanzines, plaquetes e boletins, circulavam de mão em mão, nos cafés, nas lojas de discos, nas associações de estudantes e colectividades, numa espécie de samizdat legal. Desenhadas à mão, escritas à máquina, reproduzidas em lojas de fotocópias, em formato A4 ou A5, com mais ou menos páginas, quase sempre a preto-e-branco, as publicações alternativas da época seguiam a estética mais simples do DIY.
Edições sobre música, cinema, literatura, filosofia, política e outros temas impossí…