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Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2016

Um berlinde azul sem defeitos

Quando estava a ler a carta que Buddy Glass escreveu a Zooey, passaram-me tantas coisas pela cabeça e tão depressa que só dificilmente consegui agarrar duas ideias e um título.

1. A ligação das crianças Glass ao Ernesto do filme Les Enfants, de Marguerite Duras. Em termos literários não podiam estar mais afastados: a língua, a entoação das palavras, o ritmo dos corpos (vejo sempre as crianças Glass a fazer acrobacias, e Ernesto e a irmã encostados a uma parede ou a uma janela), os próprios gestos. E, no entanto, passaram pela mesma experiência. Não quero nem posso descrever essa experiência, porque qualquer tentativa seria apenas uma caricatura. Tomo o partido de Tatiana Moukhine quando diz que compreende o filho em silêncio. Imagino-a até, por encadeamento de imagens, naquele filme de Rivette, na roulote, no jardim, a dizer isso. (Ah, se a conhecesse, aposto que Seymour escreveria um haiku triplo martini em russo.)

2. A impossibilidade de dar a palavra directa a Seymour. É por isso…

Uma coisa curiosa

«Agora começo a compreender o elevado número de espectadores que gosta de ir gratuitamente ao teatro, e isto em Moscovo», pensava comigo. «E torna-se uma coisa curiosa: ninguém pede para andar de graça no comboio. Nenhuma dessas pessoas vai à loja e pede que lhe ofereçam, por exemplo, um quilo de sardinhas. Então, porque é que no teatro não se deve também pagar?»

Mikail Bulgakov, Romance teatral. Tradução de Serafim Ferreira.

FLOP

Chegou a editora Flop

A Flop é um projecto de Adriana Oliveira, Carolina Lapa, Tamina Šop, Luis Nobre e meu.

O volume inaugural é uma antologia de contos de Daniil Kharms (ou Harms, depende das versões), intitulado "Três horas esquerdas", com tradução e apresentação de Júlio Henriques, e que serviu de base a uma encenação com o mesmo título da companhia Marionet, realizada em 2001.

Para efectuar a pré-compra de "Três horas esquerdas", de Daniil Kharms, basta fazer uma transferência bancária no valor de 6€ para o NIB 0043 0001 0400 1032 3455 9 (Rui Manuel Portela Amaral) e enviar um e-mail para floplivros@gmail.com com o comprovativo de transferência. Todos os leitores que participarem na campanha de pré-compra serão co-editores da obra e o seu nome (ou o nome que indicarem) constará na lista de co-editores.

Mais informações sobre o nosso primeiro livro e a editora Flop aqui e também aqui:

A publicação de "Três horas esquerdas", de Daniil Kharms, não seri…

Conhecer um bom dióspiro

Decidi reler os livros de Salinger. Ignorei a ordem cronológica e comecei pelo fim (quase fim, para ser exacta): uma edição antiga da Quetzal de "Carpinteiros, Levantai Alto o Pau de Fileira" (1955) e "Seymour (Uma Introdução)" (1959).

Apesar da má tradução de Bertha Mendes, "Carpinteiros, Levantai Alto o Pau de Fileira" continua a ser um divertimento maravilhoso; parece uma peça musical de Satie com guarda-chuva aberto para dia de sol e chuva. A viagem de táxi que Buddy partilha com quatro convidados do casamento malogrado de Seymour tem um acentuado efeito ora excitante, ora calmante, e o tio do pai de Muriel surdo-mudo é uma personagem menor enorme.

Mas a surpresa foi o segundo texto; já não me lembrava da trama (percebe-se porquê) e na altura não me dei conta da estrutura, melhor dizendo, da formidável falha da estrutura.

Buddy Glass tem quarenta anos, é escritor e professor, vive bem no interior do bosque e na parte mais inacessível da montanha long…
Sábado, 17 de Dezembro, a ªSede recebe a Livraria Snob para o Natal dos Intelectuais. Uma venda de livros com desconto, seleccionados por Duarte Pereira, o livreiro mais criterioso da Península Ibérica.

Contamos com todos na Rua de Santa Catarina, 787, no Porto, ou em: Site | Facebook.

Notas sobre "Lançamento": Partilhas e Heranças

Margarida Vale de Gato move-se essencialmente no interior de formas canónicas. Há um tom, uma temperatura, uma música, que remetem para a poesia “clássica”, digamos assim. O desvio, a subversão, a ruptura com o cânone, faz-se por dentro dos poemas, pela costura. Quer dizer, não se ostenta, não se mostra, não há fogo-de-artíficio, nem espectáculo de luz e som, não se agita nenhuma bandeira novíssima para rejeitar a tradição e a herança. De resto, há um enorme prazer no trabalho meticuloso em torno da palavra e da forma, que não me parece muito comum nos poetas da sua geração (o primeiro nome que me ocorre é o de Rui Lage). “Edgardo” é um soneto que convoca imagens de “O Corvo”, de Edgar (Edgardo) Allan Poe, autor que MVG traduziu e estudou. “Estudando a coisa árida penso ora/ por que não um soneto panegírico.” Mas é um soneto que não respeita todas as regras e que recorre, também neste caso, ao humor e à sátira: “E o corvo que grasnava deixa lá/ já nem o vês passou está só ali.” E é o …

Notas sobre "Lançamento": Sufocação

O morto mais célebre de “Lançamento” é Portugal. O país vai desaparecendo em vários poemas, numa longa morte lenta, e em “Jaime e José” é já um “corpo exangue caolho”. No poema, Portugal é um peixe, um bicho escorregadio, que se evadiu do mapa, abandonou a água, “respira com dificuldade” em terra, debaixo de um sol abrasador. “O que havemos de fazer com este peixe?” Em certos momentos, porém, pela força de fenómenos pouco óbvios, “o país é mais que peixe”: “quando se juntam pessoas há sempre alguma coisa acontece”. Será suficiente para conseguirmos recuperar o fôlego e voltarmos a ter pé?


"Lançamento", de Margarida Vale de Gato, será apresentado na Sede, sábado, 10 de Dezembro, pelas 17h00.

Sábado, 10 de Dezembro, na Sede

Sábado, 10 de Dezembro, a partir das 17h00, ªSede recebe Margarida Vale de Gato para o lançamento de "Lançamento", o magnífico e mais recente livro da autora, editado pela Douda Correria.

Ao longo da tarde, haverá ainda a apresentação de "Tâmaras", de João-Paulo Esteves da Silva, e de "Clube dos Haxixins", de Nuno Moura, também do catálogo da Douda Correria.

Contamos com todos na Rua de Santa Catarina, 787, no Porto, ou em: Site | Facebook.

Notas sobre "Lançamento": tristes cenas e duques e bobos

Podia prosseguir a leitura de “Lançamento” dobrado, ainda e outra vez, sobre o tópico da morte. Outro poema: “Mário.” Aqui a morte é de outra substância. É a da passagem do tempo e da impossibilidade de mudar o passado: “Por todas as minhas desintegridades/ me desculpem os Mários (…) peço só/ que me possam perdoar amigos que não defendi.” Os nossos erros, as nossas falhas, as nossas “desintegridades”, acumulam-se na memória como um saco cheio de pregos. Dizia eu que podia prosseguir por este caminho, mas, neste caso, prefiro sublinhar o humor de Margarida Vale de Gato. Um humor fino e elegante, carregado de auto-ironia, que faz sorrir por dentro. “Mário” é mais um poema que, como um espelho, reflecte a imagem do próprio leitor (“somos o livro do livro que lemos”). Num qualquer ponto da vida, fomos talvez um Mário e o autor deste poema:

(...) Mas no final o Mário Viegas tornou a si do carácter
e à boca de cena como Balzac acusou
a atitude da espectadora que à entrada displicente
com um…

Notas sobre "Lançamento": Queda

O primeiro livro de Margarida Vale de Gato intitulava-se “Mulher ao mar”. Este segundo chama-se “Lançamento”. É quase impossível não estabelecer uma relação directa entre os títulos. Ambos remetem para a ideia de salto e queda. E se “Lançamento” foi precipitado “porque alguém que era próximo morreu”, como escreve a autora na “introdução”, “Mulher ao mar” funciona como uma espécie de assombroso prenúncio. Um secreto mise en abyme. Ou não. É fácil ver a morte para onde quer que olhemos.

***
A queda bíblica pertence ao Homem e a Lúcifer. Há um poema em “Satanás Diz”, de Sharon Olds, traduzido por Margarida Vale de Gato e intitulado “Teme-se que se tenha afogado”, que insiste em introduzir-se na minha leitura de “Lançamento”. Eis o poema de Olds:


TEME-SE QUE SE TENHA AFOGADO

De repente ninguém sabe onde estás,
o teu fato negro como algas, o teu rosto
barbudo escorregadio como foca.

Alguém olha pelas crianças.
Avanço até à fímbria da água, agarrando-me à toalha
como um véu de viúva sobre …

Notas sobre "Lançamento": Diana

Em “Diana”, um dos poemas mais bonitos de “Lançamento”, Margarida Vale de Gato cita o que a grande poeta Marianne Moore dizia da poesia: “Eu cá também não gosto, há mais coisas além deste desconchavo.” Alguns versos depois: “Mais importa observar ou designar?” Portanto - isto sou eu agora a dizer -, é mais importante a vida ou a poesia? A realidade ou a imaginação? Os acontecimentos ou a memória que formamos a partir deles? Apetece colocar aspas em todas estas palavras como se fossem asas para levantarem voo. Porque não há apenas “vida” ou apenas “poesia”, as duas coisas são a mesma. A mesma coisa contraditória, inexplicável, bela e monstruosa. Não é possível escolher entre a vida e a poesia, nenhuma das duas é mais ou menos importante. Mais à frente ainda: “Portanto sirvo mal, sou outra, fora/ do baralho, turista aqui em tanto/ do que me dá prazer e algum trabalho.” E a razão de tudo isto, de toda esta impossibilidade, reside na mais prosaica das causas: a morte. Diante da morte, na…