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Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro, 2016
Marlene Dumas, Chlorosis (Love Sick), 1994.

E depois não faria mais nada!

Marie quer levar-me a passear. (...) Vem buscar-me ao fundo da horta, sob a árvore onde instalei uma mesinha, uma cadeira, os meus cadernos. Estou a escrever, a escrever, a escrever. Escrevi toda a minha vida, nunca soube fazer outra coisa. Marie impacienta-se:
- Nunca mais acabarás esse trabalho, essas escritas?
- Não, Marie, não acabarei.
- Se eu fosse a ti, trabalharia um dia inteiro, de manhã à noite... ou mesmo três dias a fio... e depois não faria mais nada!

Eugène Ionesco, Páginas de Diário. Tradução de Carlos Cunha.

Sábado, 5 de Novembro, pelas 17h00, no Gato Vadio.
Mais informações sobre "O Empresário" aqui.

Histórias de abandono e fúrias

Delia, solteira, sem filhos. No dia do seu 45º aniversário, Amalia aparece morta na praia. Delia regressa a Nápoles para o enterro da mãe e para ajustar contas com os fantasmas do passado. Talvez por ser desenhadora, anda de um lado para o outro, a pé, de autocarro, de elevador, como numa tela de Chagall. Ferrante enche as páginas de cores, movimentos acrobáticos, sons, cheiros, lágrimas -- às vezes é difícil aguentar a leitura pois é tudo demasiado sensorial, como se a violência, até aí mantida em segredo, se materializasse em ruídos e borrões.

A história de Olga é a maior e a mais claustrofóbica. Olga tem 38 anos, dois filhos pequenos. Quando o marido a abandona, perde o chão, perde a ligação às pessoas e às coisas, cai numa abstração um bocado idiota. Um dia fica trancada em casa com o filho doente e o cão moribundo; é verão, a cidade e o prédio estão desertos, os telefones não funcionam, as formigas invadem o apartamento, tudo se fecha em seu redor. Consciente da queda e do perig…

As boas práticas da arte

LEAL:
Ah, caro Truão, o bom gosto está em vias de se extinguir...

TRUÃO:
Por favor, deixe o bom gosto em casa, que quase o pôs a mendigar; é uma utopia que enche a cabeça, mas não a bolsa. (...)

LEAL (suspirando)
Infelizmente, já tive essa experiência.

TRUÃO
Já que não a quer repetir, faça como os outros. Exiba uma tabuleta vistosa, com tortas e pastéis pintados, e acrescente-lhes toucinho e choucroute.

LEAL
A isso chama-se defraudar o público!

TRUÃO
Mundus vult decipi, ergo decipiatur.

LEAL
Tudo bem. Mas mesmo que se faça como aprouver ao público, com os actores pia mais fino. Os artistas de categoria...

TRUÃO (interrompendo)
Tem de fazer valer tudo como se fosse excelente, falando de cátedra. Se houver um actor que seja incompreensível e repita sempre as mesmas lamúrias, diga com um ar de sabedoria: é maior pensador do que falador, há muito por trás que merece análise. De um cantor que desafine, diga: representa melhor do que canta; de um dançarino que faça as piruetas do cost…

Claudio Gatti, uma resposta

Como seria de esperar, os artigos de Claudio Gatti sobre Elena Ferrante resultaram. Quer dizer, provocaram o resultado pretendido: uma pequena polémica feita de espuma e brilhos, dois minutos de fogo de artifício. Esperto, Gatti seguiu o rasto infalível do dinheiro. Esperto, mas também muito estúpido pois a investigação policial não serve para nada. O faro leva-o contra um muro. Ele nunca vai saber nada sobre Ferrante porque a sua capacidade de conhecimento é embotada. Não quero pormenores sobre a vida de Elena Ferrante. Ela faz o seu trabalho e não me deve mais nada, nem aos outros leitores. A sua reserva é um consolo num tempo em que toda a gente diz tantos disparates. Gatti, porém, deixou-se levar pelo seu próprio deslumbramento e foi ainda mais longe; um passo infame levou-o a acusar a escritora de inventar um passado napolitano e, desse modo, evitar falar do passado da sua mãe alemã. Essa traição que Gatti atira à cara de Ferrante vira-se contra ele próprio transformada em nojo. …

Chegou o terceiro volume da Colecção Avesso

Chegou o terceiro volume da Colecção Avesso. Trata-se de "O Empresário", libreto de Johann Gottlieb Stephanie der Jüngere para a ópera cómica com o mesmo nome, de W. A. Mozart, estreada em 1786.
Versão de Virgílio Melo, prefácio de Sousa Dias e adaptação da partitura de Pedro Junqueira Maia. Já disponível na sua livraria ou em exclamação.pt.