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Mensagens

A mostrar mensagens de Julho, 2015

Uma situação rara sob todos os aspectos

A primeira vez que aconteceu foi na noite da estreia. O actor Sascha Ziegelböck ficou tão perturbado com o caso que não dormiu até de manhã. Na noite seguinte, tudo se repetiu, exactamente como na anterior: subiu ao palco, fez alguns gestos ensaiados e começou a dizer o texto, na sua lúgubre, gutural e monótona voz de bode.
Um mar de ais e gritinhos varreu então a sala em ondas sucessivas. Uma após outra, as palavras do actor abriam feridas nos corpos dos espectadores. Ninguém escapou ileso. Depois, aplausos. Aplausos e mais aplausos. Os mais insistentes e vigorosos que ouvira em toda a carreira*. Nessa noite, houve quem saísse do teatro meio morto, mas muito satisfeito.
Nos dias que se seguiram, os espectáculos esgotaram. A mesma coisa: Sascha começava a dizer o texto e, acto contínuo, as palavras abatiam-se sobre os corpos com uma fúria descontrolada, abrindo golpes, arrancando carne, partindo ossos e, claro está, provocando desmaios, muitos desmaios. Lamentavelmente, não sou capa…

A pedra

Uma manhã, percorrendo como habitualmente o caminho para o trabalho, Ludwig tropeçou numa pedra e caiu. Na manhã seguinte, tropeçou e caiu outra vez. No dia a seguir, a mesma coisa. Tropeçava sempre na mesma pedra. Ao quarto dia, e estando prevenido, decidiu atinadamente corrigir o percurso e passar ao lado. No entanto, a pedra tinha desaparecido do seu lugar. Ludwig franziu as sobrancelhas. Depois, encolheu os ombros, suspirou e prosseguiu caminho.
Mais à frente, a pedra acertou-lhe em cheio na cabeça.

Um enorme urso pardo

Paavo Vitsut entrou na repartição como um enorme urso pardo. Sentou-se, como de costume, atrás da secretária e começou de imediato a desempenhar as suas tarefas habituais.
Os funcionários do jardim zoológico chegaram pouco depois. Pareciam estar sem paciência para brincadeiras.

Poesia. Eu também a abomino.

Só não gostam de poesia os poetas que sabem fazê-la, como Marianne Moore. O poema a que me refiro e do qual dou uma “intradução” tem duas versões, das quais ela preferiu a mais breve, remetendo a versão estendida para as notas. Na minha “intradução”: “Poesia. Eu também a abomino. Lendo-a todavia com total desprezo a gente descobre afinal um lugar para o genuíno.” Minha relação com a poesia é muito intensa e contraditória, como imagino que seja a de Marianne, que pratica uma antipoesia, extraindo poesia dos contextos menos poetizáveis. Não compartilho do júbilo recreativo com que tantos colegas meus gostam de exibir seus poemas. Creio com Bernardo Soares que “não há obra de artista que não pudesse ter sido mais perfeita. Lido verso por verso, o maior poema poucos versos tem que não pudessem ser melhores, poucos episódios que não pudessem ser mais perfeitos” etc. Prefiro a poesia dos que vejo menos sujeitos à imperfeição. Leio-os, tento aprender com eles, trituro-os, traduzo-os, “intrad…
Rua das Oliveiras, Porto.

Manual de instruções

Pero hay otra manera: considerar un libro como una máquina asignificante cuyo único problema es si funciona y cómo funciona, ¿cómo funciona para ti? Si no funciona, si no tiene ningún efecto, prueba a escoger otro libro. Esta otra lectura lo es en intensidad: algo pasa o no pasa. No hay nada que explicar, nada que interpretar, nada que comprender. Es una especie de conexión eléctrica.

Gilles Deleuze.

Dês, efes, agás e jotas

- Uma vez disse-me que o único livro que tinha para ler na prisão era uma metade de um dicionário em inglês. A outra metade tinha sido usada para limpar o rabo. Bom, com um "deleitoso" deve ter lido até aos "dês".
- Sim. Mas também há alguns "efes". Uma vez empregou uma palavra de que não me lembro, que significa "equilibrista".
- Havia "agás"?
- Acho que havia um.
- Suponho que essa metade do dicionário não chegava aos "jotas".

Graham Greene, O capitão e o inimigo. Tradução de Carlota Pracana.

Thomas

Era um homenzinho cinzento. Herdara o tom directamente do pai. A mãe, pelo contrário, fora sempre de um admirável e resplandecente azul. Mas isso de pouco valeu a Thomas. A natureza tinha seguido o seu caminho. E o resultado foi que nunca o mundo conheceu um homenzinho mais cinzento.
Os velhos escavavam na memória sem encontrarem ninguém parecido. Mudo como uma coluna. Impassível como uma igreja vazia. Um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico, pequeno, apagado e sem qualquer atractivo. Nunca a sorte o surpreendeu, nunca o destino lhe preparou uma emboscada.
Deixava-se ficar sentado nos cafés durante horas a observar as pessoas. Oh, todas elas tão brilhantes! Qualquer uma delas infinitamente mais brilhante do que ele. Depois, regressava a casa, estendia-se na cama, fechava os olhos e, muito simplesmente, adormecia. Nos seus sonhos, o tom continuava cinzento. Por vezes, sonhava que era capaz de assoar furiosamente o nariz e que com isso iluminava a noite. Mas de manhã tudo…