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A mostrar mensagens de Dezembro, 2018

Poetas da própria existência

(...)
8-11-82
(Para substituir o exemplar de há mais de 30 anos — talvez 1.ª ed. — de que agora dei pela falta.)

Dedicatória na primeira página de Três poetas da própria existência, de Stefan Zweig, livro que encontrei, entre bibelôs de porcelana, sapatos de senhora e calças de ganga usadas, hoje mesmo, na Feira da Vandoma. A dedicatória, dirigida a si mesmo pelo antigo proprietário, está escrita numa letra delicada e perfeitamente legível. A única palavra que não consigo perceber é o nome.
Tenho muitos livros comprados em feiras de usados e alfarrabistas, com toda a espécie de dedicatórias, frases sublinhadas e notas, escritas por leitores que nunca conheci e de quem nada sei. Leitores que, na sua maioria, já não fazem parte deste mundo, mas cujas marcas persistem nas minhas leituras e, por isso, na minha vida.
Dir-se-ia uma outra literatura que avança em paralelo com a das páginas impressas. Em que lugares, em que circunstâncias, a que horas do dia e da noite todos estes leitores merg…

Mundo interior

Como funciona o pensamento? Que som tem a nossa «voz interior»? Que cor têm as imagens que passam dentro da nossa cabeça? E passam a que velocidade? O pensamento é o nosso cinema interior. Terno e terrível, belo e assustador, apaixonado e assassino. Em todo o caso, um cinema que não pertence ao mundo, impossível de resistir fora da cabeça. O Livro de Imagem é o colossal combate de Godard contra essa impossibilidade. Durante uma hora e meia, o realizador procura mostrar a mecânica do seu pensamento. A tela transforma-se no espelho de tudo o que ocorre no interior da sua cabeça: palavras e imagens. Apenas isto. E isto, que em literatura não é novidade, é muito mais do que qualquer outra coisa que já tenha sido tentada em cinema.

O mistério da revelação

Buster Keaton carrega a câmara de filmar, de um plano para o outro, entre uma cena e outra, como se percorresse uma estranha via crucis. Mas se os cristãos acreditam na redenção pela cruz, Keaton acredita na salvação pelo cinema.


Corrente de ar

Mas continuar a pertencer à Igreja Anglicana requeria um tipo de paciência que ele deixara de possuir. Estavam demasiados afogados em inanidades. Por exemplo, a ideia que tinham da natureza de Deus era uma incongruência. Tudo o que faziam, no fundo, era andarem às palmadinhas nas costas uns aos outros. Quanto a Deus, tinham-lhe dado o chapéu, dizendo-lhe para esperar. Olhavam-no como uma criação deles; uma mercadoria. Eles dirigiam a empresa, e a ele não lhe restava mais do que fazer os recados. Deus fazia o trabalho chato; eles recolhiam os lucros. Na última reunião em que participara, tinha declarado: Onde está esse vosso Deus? Ponham-no aqui em cima da mesa e vamos lá a examiná-lo. Vamos todos passá-lo a pente fino. Para eles foi como se tivesse explodido uma bomba. No fundo, eram o tipo de pessoas que, se as portas do Paraíso se abrissem diante deles, a única coisa que haviam de sentir era uma corrente de ar.

Harold Pinter, Os anões. Tradução José Lima.

Fractura exposta

Dois actores entram em palco para representarem a sua própria tragédia. Ambos perderam os filhos e, esta noite, a peça é sobre essa perda. As palavras são as suas próprias palavras. Os gestos são os seus, a dor, a angústia, o desespero. O desaparecimento de um filho é uma crueldade irremediável e para a qual não existem guiões. Não há autor nem encenador. A morte é a autora e a única encenadora. O teatro é posto de pernas para o ar. Os dois actores são o público involuntário de um diabólico espectáculo montado pela morte. E este é o grande paradoxo: ver a morte de frente transforma-se no mais impressionante espectáculo sobre a vida.


C'est la vie, de Mohamed El Khatib. Com Fanny Catel e Daniel Kenigsberg.