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Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro, 2014

A Criação

No princípio, Deus criou o céu e a terra, as duas metades do mundo, e barrou cada uma delas com manteiga.

As duas metades do mundo, amplas e abundantes, puras e bem nutridas de manteiga.

Cobertos de manteiga estão o céu e a terra, belos na manteiga, nutridos na manteiga, perfumados na manteiga, soberbos na manteiga.

Deus mastigando vorazmente, ferozmente, voraz e ferozmente. O rosto resplandecente de Deus.

O céu e a terra, ambos cobertos de manteiga, dentro da barriga de Deus, céu e terra, o grande alimento, dentro da barriga de Deus.

Deus arrotando – perdão! – de satisfação, a barriga cheia, a evidência da glória e esplendor de Deus.

(Sucedeu assim. Tal e qual.)

A barriga cheia, céu, terra e manteiga, em infinita digestão.

Deus mais olhos que barriga, tomado de cólicas, retorcendo a boca, preso de louca aflição, lançando impropérios tão cabeludos que mil universos recuam para longe.

Deus a vomitar: nasce o homem, nasce a mulher e mais dois ou três ratos.

Publicado no Porto 24 (Página …

Em breve, nas livrarias

"Notícias em Três Linhas", de Félix Fénéon. Pela primeira vez em português, na nova Colecção Avesso. Com tradução, prefácio e notas de Manuel Resende.
Mais informações sobre a Colecção Avesso aqui.

Algumas "Notícias em Três Linhas", de Félix Fénéon

«Se o meu candidato perder, mato­‑me», declarara
o Sr. Bellavoine, de Fresquienne (Sena­‑Inferior). Matou­‑se
(Desp. part.).

***

O Sr. Scheid, de Dunquerque, disparou três vezes contra
a mulher. Como não conseguia acertar, apontou à sogra:
em cheio (Havas).


***

Apostara beber de enfiada quinze absintos, comendo
um quilo de vaca. Ao nono, Téophile Papin, de Ivry, caiu
redondo.

***

Louis Lamarre não tinha nem emprego, nem casa, mas
alguns tostões. Comprou, num merceeiro de Saint‑Denis,
um litro de petróleo, que bebeu.

***

Em Brest, por imprudência de um fumador, a menina Ledru,
toda de musselina, ficou com as coxas e os seios queimados
(Desp. part.).

***

Nas cercanias de Noisy‑sous‑École, o Sr. Louis Delillieau, de
70 anos, caiu morto: insolação. Rápido, o cão Fiel comeu‑lhe
a cabeça.

***

Radiante: «Podia ter tido mais!», exclamou o assassino
Lebret, condenado, em Rouen, a pena perpétua de trabalhos
forçados (Desp. part.).


Félix Fénéon, "Notícias em três linhas". Tradução de Man…

Rosas

Desejava um poeta pobre - será necessário dizê-lo? - oferecer uma dúzia de rosas à sua inspiradora. Mas as rosas custavam caro. Era Inverno, e no Inverno as rosas têm preços inatingíveis para os poetas. Por mais fantasias contáveis que fizesse, só conseguia pagar onze. Mandou-lhe onze, e aludindo ao rosto da moça, belo e fresco como uma flor, escreveu-lhe: "Você completará a dúzia."

Pitigrilli, A Mulher de Putifar.

A história de amor de René Odillot

Pela primeira vez, René Odillot estava verdadeiramente apaixonado. Desejava pintar o nome do seu amor em todas as paredes e talhá-lo no tronco de cada árvore. Acima de tudo, tinha vontade de o proclamar aos sete ventos. Aos sete ventos ou mais. Mas o dia estava belo e claro, e o ar tão calmo. Oh, não soprava vento, nem sequer a mais leve brisa. Impedido pelos terríveis caprichos da natureza - é quase utópico contrariar o destino dos ventos -, não fez nada daquilo que desejava e assim acabou o único grande amor que teve na vida.

Maçadores

O velho ardil de fazer com que um parente ou criado nos chame quando uma visita se prolonga além da decência é perigoso. Em 1879, encontrava-se Benjamin Disraeli em visita a Bismarck, e o primeiro-ministro britânico perguntava ao Chanceler de Ferro o que fazia para desenvencilhar-se dos visitantes importunos.
- É simples - respondeu Bismarck. - Quando a minha mulher me vê às voltas com um desses, manda um criado dizer-me que o Imperador me chama.
Naquele instante entrou um mordomo, inclinando-se:
- Sua Majestade deseja ver, com urgência, Sua Alteza o Príncipe de Bismarck.

Pitigrilli, A Mulher de Putifar.

Perto do muro

- Biche, biche, biche... - fez ele com uma voz acariciante, dirigindo-se a uma massa peluda que passava perto do muro.
O gatinho deteve-se e olhou para aquele homem tão amável.
- Biche, biche, biche... - fez ele de novo, batendo levemente com as mãos nos joelhos.
O gato aproximou-se confiante, a cauda agitando-se no ar. O homem abriu o saco de plástico e, rápido como um relâmpago, lançou-o sobre o gato.
Segurando bem as pontas e, acelerando o passo, pôs-se então a caminho.

Chá e biscoitos de amêndoa

Conta-se que certa noite o Diabo apareceu a Fausto. O Diabo, criatura espiritualíssima, astuciosa, mestre em assuntos sombrios e chantage, queria por força vender a alma a Fausto. E pelos vistos não a vendia cara. Mas não sou especialista em assuntos de mercado e, por isso, como se costuma dizer, faço questão de manter um certo recato.
Fausto sentou-se na sua cadeira de bruços e durante alguns minutos não fez mais nada senão coçar o nariz. Um relógio distante bateu meia-noite e meia. O candeeiro lampejava no tecto como um olho enorme e misterioso. No telhado, um gato fez brilhar as suas garras.
A Fausto nem sequer lhe passava pela cabeça investir algum do seu precioso cabedal na aquisição de uma alma, mesmo tratando-se da alma do Diabo, coisa rara e inestimável, suponho eu, que não sou especialista, e também supunha Fausto. Houve um momento de silêncio, que se prolongou por várias horas. Estou a encurtar muito, senão nunca mais acabava.
- Hum! – murmurou Fausto, olhando o fumo do seu …

Os três corvos

Três corvos pousavam sobre uma forca. Aqueles sábios pássaros, sem deixar de digerir o jantar que tinham acabado naquele instante, dissertavam sobre o homem.
- O homem é um bom animal - disse um deles. - Gosto do homem. Justamente porque é tão extraordinário e tão volúvel. Já comi bastantes, mas nunca encontrei dois iguais.
- As minhas observações conduzem à mesma conclusão - anuiu o outro, cientificamente. - Mas parece-me que os homens nos enganam. Fazem-se pendurar ou deitam-se na erva, mas a todos lhes falta o coração e o cérebro. Não os têm consigo. Contudo, esses dois bocados são, precisamente, os que mais aprecio. Que lhes farão eles?
- Animal! - disse o terceiro, o mais velho e o mais sábio dos corvos. - Esses bocados são as suas mulheres que lhos comem...

Jenö Heltai, Contos alegres húngaros. Tradução de Armando Ferreira e Andrés Revesz.

Confúcio disse

Em geral, quando a gente encontra um espírito aberto, entra e verifica que está é vazio.

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Chama-se plenipotenciário um ministro que viaja sem a mulher.

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Amigo, jamais procure ler nas entrelinhas. Sobretudo se um trem vem vindo.

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Esta é a verdade: a vida começa quando a gente compreende que ela não dura muito.

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É porque ninguém gosta de trabalhar que o mundo progride.

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Com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado.

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Ser génio não é difícil. Difícil é encontrar quem reconheça isso.

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Estranha é a química do corpo humano: você põe uma coroa na cabeça de um homem e ele fica logo com o rei na barriga.


Millôr Fernandes, Pif-Paf.

Próximo sábado, 4 de Outubro, pelas 17h00, no Gato Vadio.