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A mostrar mensagens com a etiqueta Walter Benjamin

Em círculos

O dilema moral que Jafar Panahi retrata no novo filme Foi só um acidente é o mesmo que, por exemplo, Tiago Rodrigues propõe em Catarina e a beleza de matar fascistas . O mais humano dos dilemas: como combater a violência e a opressão sem ceder à simples lógica da vingança, ao princípio do olho por olho, dente por dente, tão velho como o Antigo Testamento? Voltamos à leitura de Walter Benjamin sobre os contos de fadas de Robert Walser. O perdão é um acto de ingenuidade ou uma forma de libertação? Que lado escolhemos? Não saímos disto. Andamos em círculos, como na Divina Comédia .

A menos que ousemos

Num texto sobre o ano de 2025, publicado no Público de ontem, Bárbara Reis descreve um impressionante episódio ocorrido em Julho, nos Estados Unidos: «A tia de uma aluna da Universidade de Idaho assassinada por um colega diz ao assassino, em tribunal, após a sentença de prisão perpétua, que o perdoou: “Bryan, estou aqui para dizer que te perdoei. Não conseguia continuar a viver com este ódio no meu coração. Para me tornar uma pessoa melhor, perdoei-te.” E acrescenta: “Sempre que quiseres conversar e contar-me o que aconteceu, pede o meu número de telefone. Estou aqui, sem julgamento.”» Esta história é uma ilustração da tese de Walter Benjamin sobre as personagens dos contos de fadas de Robert Walser: «Se quisermos resumir o que a um tempo têm de divertido e de terrível, podemos dizer: estão todos curados. É certo que jamais saberemos qual foi o processo da cura, a menos que ousemos debruçar-nos sobre a sua Branca de Neve .» Ora, debrucemo-nos sobre Branca de Neve . O que é que acontec...

Influenciadores do século XX (letra B)

In den finsteren Zeiten / Wird da auch gesungen werden? / Da wird auch gesungen werden. / Von den finsteren Zeiten. Bertolt Brecht e Walter Benjamin a jogar xadrez em Svendborg (1934).

Organizar o pessimismo

Na própria época - de 1933 a 1940 - em que Walter Benjamin evocava essa possibilidade de «organizar o pessimismo» mediante o recurso a certas imagens ou configurações de pensamento alternativas, a vida quotidiana certamente não o poupava a preocupações. Será que conseguimos imaginar o que era a vida desse judeu alemão «sem recursos», em fuga permanente ante o cerco que se fechava à sua volta? A impressão de Agamben sobre a destruição da experiência da nossa vida quotiana, alegadamente mais «insuportável» do que «em momento algum do passado», deverá, pois, ser ponderada a partir deste contraste. Um contraste ainda mais evidente na medida em que Benjamin soube «organizar o seu pessimismo» com a graça dos pirilampos, procurando, por exemplo, entre o teatro épico de Bertolt Brecht e a deriva urbana dos poetas surrealistas, entre a Biblioteca Nacional e a Passagem dos Panoramas, esse «espaço de imagens» capaz de contradizer a polícia - as terríveis coações - da sua vida....

O teatro natural de Oklahoma

Este hipódromo é ao mesmo tempo um teatro e isto constitui um enigma. Mas o lugar enigmático e a figura clara e transparente de Karl Rossman encontram-se estreitamente ligados. Transparente, puro, talvez frouxo de carácter, é-o com efeito Karl Rossman, e é-o no sentido em que Franz Rosenzweig, no seu livro Stern der Erlosung , diz que na China o homem interior se acha «privado de carácter, o conceito de sábio, tal como desde Confúcio tem sido classicamente encarnado, apaga todas as possíveis particularidades de carácter. O que distingue o homem chinês é algo diferente do carácter: uma pureza de sentimentos elementar». Por mais que isso possa explicar-se teoricamente — a pureza de sentimentos talvez seja um equilíbrio excepcionalmente refinado do comportamento mímico —, a verdade é que o teatro natural de Oklahoma nos encaminha para o teatro chinês, que é um teatro de mímica. Uma das funções mais importantes deste teatro natural consiste em transformar o acontecer em gesto. É possível ...

Cântico (remix)

O dia a dia transformou-se na catástrofe única. O anjo já não precisa de olhar para o passado; basta o tempo presente, feito de ruínas instantâneas, para lhe dar aquele ar atónito de olhos esbugalhados, boca escancarada e asas abertas — a nossa figura. Depois do cântico, a extinção.

Depois do fim dos contos de fadas

(...) Tendo em conta que vários escritores e personagens literárias tiveram profissões semelhantes, vamos chamar-lhe R. W.  (...) será que R. W. só conseguia escrever disfarçando que estava a escrever, enganando-se a si mesmo e à linguagem, a ponto de nem a linguagem nem ele já acreditarem que escrevia? (...) Com esta solução, talvez também R. W. estivesse a empurrar o sentido para longe, em vez de o tornar explícito. Talvez temesse ou desprezasse o sentido. Sentir-se-ia mais próximo das coisas sem sentido ou condenado a elas? Só sabemos que já não queria copiar nem passar coisas a limpo. R. W. não servia para o que os outros queriam — e «aquilo que os outros querem» é uma boa definição de «sentido».  (...) Walter Benjamin — chamemos-lhe W. B. — comparou as personagens de R. W. com as figuras dos contos de fadas, porém depois do fim dos contos de fadas: já passaram por todas as metamorfoses e todos os sofrimentos e percursos que tiveram de cumprir dentro da lógica dos contos d...

Gente palradora

Conta-se esta história a propósito de Arnold Böcklin, seu filho Carlo e Gottfried Keller: um dia estavam na taberna, como habitualmente. As suas libações eram conhecidas desde longa data pelo carácter fechado e taciturno dos convivas: uma vez mais encontravam-se calados. Após um longo momento, o jovem Böcklin observou: «Está calor», e um quarto de hora depois, o velho: «Há falta de ar.» Keller, pelo seu lado, esperou um momento; a seguir levantou-se, proferindo as seguintes palavras: «Não quero beber com gente tão palradora.» Walter Benjamin, a propósito de Robert Walser.

O cronista

O Kaiser vai ser julgado. A sala para o efeito dispõe apenas de um estrado e uma cadeira, e justamente diante dela vão interrogando as testemunhas. A testemunhar agora estava uma mulher com a sua filha pequena, que ia explicando o quanto o Kaiser a tinha arruinado com a sua guerra. Para o comprovar mostrou dois objectos que eram tudo o que tinha. O primeiro era uma vassoura com um cabo comprido; com ela a mulher limpava a casa. O segundo era uma caveira. "O Kaiser deixou-me tão pobre - disse ela - que não tenho outro recipiente com que possa dar de beber à minha filha." Walter Benjamin, Sonhos . Tradução José Aigner.
“ Nada vincula tanto o ser humano à linguagem quanto seu nome. ” Podemos abrir um bocado as palavras de Walter Benjamin, aplicar o princípio não só aos seres humanos. Faz todo o sentido, por exemplo, que a Holanda seja tratada por Países Baixos. — O bon Dieu! Les langues des hommes sont pleines de révélations.

Película aderente

— O Walter Benjamin está quase todo em saldo na Flâneur . — Não deve vender muito… — Talvez. Mas é estranho, não achas? — Estranho? — Sim, estranho. Afinal, é um dos pensadores do século XX mais citados do mundo. — Do mundo ocidental é, com certeza. Não há ensaio, artigo, nota de rodapé, que não inclua uma citação de Walter Benjamin. — O mais citado, sim, mas será o mais lido? — E os que o leram, tê-lo-ão compreendido? — Li tudo o que está traduzido e há muitas ideias que não compreendi. A maioria, devo confessar. — Sim, há qualquer coisa difícil de definir e que nos impede de chegar ao verdadeiro sentido das suas palavras. Uma espécie de falsa transparência. — Como se os textos estivessem envolvidos em película aderente. Consegues ver o que está por baixo, mas não lhe tocas verdadeiramente.