Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta notas de tradução

Acto de primavera

Ao fim de muitas revisões (a maior das práticas dialécticas?), começo a ficar satisfeita com a tradução do ensaio de Cioran sobre o pensamento reaccionário dedicado a Joseph de Maistre. O texto já parece um corpo vivo: familiar e estranho ao mesmo tempo. «Entre os pensadores que, como Nietzsche ou São Paulo, tiveram o gosto e o génio da provocação, cabe a Joseph de Maistre um lugar nada negligenciável. Ao elevar o mais pequeno problema ao nível do paradoxo e à dignidade do escândalo, ao manejar o anátema com uma crueldade misturada de fervor, ele estava destinado a criar uma obra rica em enormidades, um sistema que não deixa de nos seduzir e exasperar. A amplitude e a eloquência das suas cóleras, a paixão que dedicou a causas indefensáveis, a obstinação em legitimar umas quantas injustiças, a predilecção pela fórmula letal, fazem dele esse espírito exagerado que, não se dignando a persuadir o adversário, o esmaga de chofre com um adjectivo. As suas convicções têm aparência de grande fi...

Haverá algum dia uma última carta?

Acabei de rever a tradução de Sem Soleil , de Chris Marker; agora só me falta rever outra vez.

Que havemos de traduzir

Ocorrem-me imensos disparates enquanto revejo o texto que Cioran escreveu sobre Joseph de Maistre. Há pouco, por exemplo, percebi que os livros pornográficos ou extremistas (de acordo com o ladrar dos cães) ficam de fora das traduções geradas por inteligência artificial, pois os mecanismos de linguagem são púdicos. Sem querer, as empresas tecnológicas criaram um campo de lírios para tradutores empedernidos.

As alegrias em cadeia da tradução

Voltei a Cioran. Estou a traduzir mais alguns dos empolgantes Exercícios de Admiração (o outro lado do filósofo sinistro). Quando encontrei a citação de The Crack-Up , fui buscar a versão de Aníbal Fernandes ( A Ferida Aberta , Hiena, Janeiro de 1986) e, ao folhear o livro, descobri a expressão estar na fossa na página 65. Apesar de me ocorrer muitas vezes, nunca tive coragem de a usar nos textos de Cioran, porque é demasiado moderna. Encontrá-la no livrinho maldito de F. Scott Fitzgerald pareceu-me um sinal inequívoco de pensamento circular. 

Entre parêntesis

Tive de ver várias vezes a cena final de The Horse Soldiers para conseguir traduzir dois parágrafos onde Paulino Viota descreve com minúcia os planos e os movimentos dos actores, principalmente o modo emocionado e contido como Hannah move o braço esquerdo ( a alma nasce da forma do corpo ). Ao fim de algum tempo, apercebi-me que Ford filmou a breve despedida de Marlowe e Hannah entre parêntesis. Uma comoção tremenda que nos afecta ainda mais por ser tão velada.

«Pensei muitas vezes nessa mulher»

Devia ter vinte e tal anos quando vi O Camião pela primeira vez numa sessão no antigo Instituto Francês, na Praça da República. Era um objecto estranho e atraente como um redemoinho. Depois vi tantos filmes que o fui esquecendo. Nos últimos anos voltou a surgir, mas agora as imagens, palavras e música vinham de dentro de mim, um reflexo, um filão de memórias que se impunham. Comecei a fazer o caminho do reencontro. Os travellings que imito aos domingos de manhã pelas estradas nacionais dos subúrbios. A aproximação àquela mulher louca e politicamente tão lúcida. O exercício de tradução. A tradução é o passo mais arriscado — até tremo.

& outras manhas

Foi uma luta para me obrigar a traduzir decentemente este aforismo (V ariations Goldberg . / … Après ça, il faut tirer l’échelle). Na verdade, gosto mais da versão censurada ( Variações de Goldberg . / … Depois disto, deitar fora a escada). Tenho uma predilecção por escadas.
Antes de imprimir uma cópia de trabalho, passo os olhos outra vez pela tradução dos  Cadernos . Substituo algumas palavras, corrijo advérbios, corto pronomes, inverto a ordem, verifico se as notas batem certo... Podia andar anos nisto. Um tabuleiro de Mahjong infinito. (Outro tipo de terapia.)
A última frase da nota que antecede Os homens e os outros , de Elio Vittorini: «Os tradutores [Elena Ricci Pinto e J. Wilson Pinto] apagaram-se intencionalmente».

Cinema «experimental»

«Ford foi temerário e na velhice atreveu-se a ir mais longe do que nunca. Embora em termos de cinema «experimental», como diria Straub, se possa pensar em The Long Gray Line , que Straub menciona, ou em Two Rode Together ou Donovan’s Reef , julgo que o contraste tremendamente «monstruoso» de Cheyenne Autumn é a coisa mais radical que Ford fez. Aquilo que é mais sério, mais profundo, no filme é o grotesco. Depois da barbárie do texano a matar um índio pelo puro prazer de o fazer, pela curiosidade de saber o que se sente, a indiferença, a estupidez, dos habitantes de Dodge City (cidadãos de pleno direito, civis; Ford não teria sido tão cruel se fossem militares) é o comentário mais sombrio sobre as relações dos americanos com os índios que já vi no cinema. E o facto da cena ser uma palhaçada ainda torna os brancos mais idiotas e faz com que a sua monstruosidade seja muito mais dolorosa.»  Simetrias — os 5 actos nos filmes de John Ford, de Paulino Viota (página 29). (É a primeira ve...

Think back, Pilgrim!

Vou finalmente acabar de o texto sobre O Homem que Matou Liberty Valance . Já tinha definido a linha condutora, mas estava parado há quase um ano. Sabia que era um texto composto por apenas três segmentos — mas não sabia bem porquê. Ou como? Só hoje de manhã, ao sair do metro e caminhar à chuva e molhar-me toda é que compreendi a minha ideia. É sombria.

Variações sobre um tema ou — Babylone, à nous deux !

«Os bons tradutores não interpretam só as palavras.»  Alda Rodrigues, Simpatia inacabada #5, 15 de março de 2023. À primeira vista, traduzir não tem nada a ver com representação teatral. A tradutora está metida no seu quarto, sozinha, horas a fio, enquanto a actriz se move em cima de um palco iluminado a falar para o público.  Mas depois de contornarmos essas pequenas evidências, podemos muito bem afastarmo-nos a correr, movidas por ideias caprichosas, e então começamos a perceber que traduzir e representar podem ser — são mesmo — movimentos afins.  Afinal, a tradutora não está fechada num quarto, já saiu pela janela e vai para todo o lado atrás das ideias e das palavras impressas. Interpreta o texto e o autor; ensaia os seus gestos até o movimento sair automaticamente, sem pensamentos analíticos — até as palavras e as frases encontrarem um ritmo instintivo: uma coisa nova . E agora é como se estivesse em cima de um palco iluminado com uma luz escura a representar para um...

Barrela

Ganhei o hábito de limpar ao máximo os textos que escrevo ou traduzo de palavras desnecessárias. Levo isso a um extremo tal que já me parece um vício e desconfio que um dia ainda vou acabar com as páginas todas em branco, imaculadas.

O mundo que vá para o inferno

Lutei dias e dias com a frase mais forte d’ O Camião . « Que le monde aille à sa perte » só surge quatro vezes (uma delas com todas as palavras encadeadas por hífens, outra com «o mundo» substituído pelo pronome), mas arrasa tudo. Escrevi uma série de frases possíveis, mudando o verbo ou o complemento oblíquo; cocei o queixo, inclinei a cabeça; fui ver se estava a chover. Nada. Conseguia segurar a força, mas faltava o ritmo — um golpe seco de espada. Depois lembrei-me que a Marguerite Duras gostava muito de Capri, c’est fini (a mais bela canção de amor, dizia ela). E partir daí foi mais fácil, uma canção leva a outra.
Rever a tradução dos Cadernos de Cioran é das actividades mais obsessivas que já experimentei. Mesmo que em parte a culpa seja do ritmo repetitivo do texto, deixar-me levar por essas variações crescentes já é problema, ou defeito, meu. Trabalho como um carpinteiro maluco que não se cansa de aplainar a madeira porque quer que ela fique simultaneamente muito suave e muito rude.

A escada

24 juin   Variations Goldberg … Après ça, il faut tirer l’échelle.  Emil Cioran, Cadernos 1957-1972  A expressão francesa significa que se atingiu o máximo, não se consegue fazer melhor. Podemos meter o dicionário no bolso e ir por aí com segurança: «… Depois disto, não se fará melhor». Ou então, realçar uma certa renúncia que está implícita (e é bem cara a Cioran) e contrapor, com alguma malícia, uma expressão do tipo: «… Depois disto, mais vale arrumar as botas».  Mas, na verdade, continuo a pensar na escada e também (e acima de tudo) no gesto de a deitar fora  ( com extrema secura ): «... Depois disto, deitar fora a escada».
Cheguei ao fim de 1971, só falta um ano para o fim, trinta e tal páginas.  31 dez. 1971 Esta noite, pesadelo grandioso, desproporcional, vertiginoso.  Acordei a chamar pela minha mãe...  Quanto a dizer em que consistiu esse pesadelo, sinto-me incapaz.  1º Janeiro de 1972  Tristeza constante que me parece inútil analisar. Emil Cioran, Cadernos 1957-1972 

Um recadinho amoroso

Conheci escritores obtusos e até mesmo estúpidos; todos os tradutores que conheci eram, sem excepção, inteligentes e muitas vezes mais interessantes do que os autores que traduziam. (Há mais reflexão na tradução do que na «criação».) Emil Cioran, Cadernos 1957-1972 (outubro de 1971)

Saltarinheiro

14 de outubro (1970) A. A. envia-me o Diário de Vlasiu onde se fala muito de mim tal como era em 1938-39.  Esse eu de que Vlasiu fala, por mais que tente, não o consigo reconhecer: escapa-me, tem a consistência de um espectro. É verdade que não se percebe lá muito bem como é que nos podemos reconhecer quando somos evocados por um saltarinheiro, por um escroque ao mesmo tempo bilioso e cheio de encanto, um labrego manhoso e cabotino como não há outro.  Emil Cioran, Cadernos 1957-1972   Traduzir os Cadernos  obriga-me, constantemente, a procurar uma data de insultos em português. Não são uns insultos quaisquer, têm de ser potentes e encantores ao mesmo tempo (mais ou menos:  pulverizar, mas com dedicação ).  Para além da alegria que me dá no momento, fico preparada para eventuais reclamações, guerrilhas e discussões. E também deve dar pontos no curriculum vitae .

Afinidades

Junto aos moralistas franceses do século XVIII — era aí que, em parte, Cioran sentia pertencer.  Por duas vezes, regista nos Cadernos que os espíritos de que se sente mais próximo são Job e Chamfort. Numa das formulações escreve mesmo:  sou um aluno de Job e Chamfort . Pela forma como estrutura o pensamento, pela delizadeza do seu francês, e principalmente por mais qualquer coisa que não se deixa definir, é uma afirmação verdadeira.  No entanto, se tivesse que descrever as suas afinidades com as minhas próprias palavras, correndo o risco de parecer que estava a apresentar um namorado recente, diria que Cioran está entre Bach e Francis Bacon (o pintor).