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A mostrar mensagens com a etiqueta exercícios de tradução

Um dia perfeito para traduzir «Urgência do deserto»

29 de Outubro  Acabo de escrever um pequeno texto sobre – ou melhor, contra – a imagem para uma obra colectiva que podia ser assinado pelo mais ortodoxo dos crentes. E, no entanto, nunca estive tão longe de uma conversão ao que quer que seja. Trata-se de um «acesso» místico, de um estado febril que de vez em quando toma conta de mim. Emil Cioran, Cadernos 1957-1972 *** Urgência do deserto  O espírito que se volta para a nudez sente repugnância pelos fingimentos que lhe recordam este mundo do qual se quer separar. Não conhece senão exaspero diante do que existe ou parece existir. Quanto mais se desviar das aparências, menos necessitará dos sinais que as realçam ou dos simulacros que as denunciam, ambos nefastos à procura do que importa, do que se esquiva, desse fundo último que exige, para ser apreendido, a ruína de toda a imagem, mesmo espiritual. Privilégio maldito do homem exterior, a imagem, por mais pura que seja, conserva um resquício de materialidade, um tudo-nada de ...

Optimistas com a morte na alma

(...) A autoridade tem de assentar em algum mistério ou fundamento irracional para se manter? A «direita» diz que sim, a «esquerda» diz que não. Diferença puramente ideológica; na verdade, qualquer ordem que quer durar só o consegue através de uma certa obscuridade envolvente, do véu que lança sobre as suas motivações e actos, de um tudo-nada de «sagrado» que a torna impenetrável às massas. Trata-se de uma evidência que os governos «democráticos» não podem reivindicar, mas que, em contrapartida, é proclamada pelos reaccionários: indiferentes à opinião e ao consentimento das multidões, eles proferem sem pejo truísmos impopulares, banalidades inoportunas. Os «democratas» escandalizam-se, embora saibam que muitas vezes a «reacção» traduz os seus pensamentos mais recônditos, dá voz a alguns dos seus desenganos íntimos e a muitas certezas amargas que não podem declarar publicamente. Encurralados no seu programa «generoso», não lhes é permitido demonstrar o menor desprezo pelo «povo», nem se...

Reflexão

Atribuir uma significação ao processo histórico, ainda que a fizessem surgir de uma lógica imanente ao devir, é subscrever, mais ou menos explicitamente, uma forma de providência. Pelo próprio facto de conferirem um sentido aos acontecimentos, Bossuet, Hegel e Marx pertencem à mesma família ou, pelo menos, não diferem uns dos outros no essencial, pois o importante não é definir ou determinar esse sentido, mas recorrer a ele, postulá-lo – e é isso que eles fazem. Passar de uma concepção teológica ou metafísica para o materialismo histórico é simplesmente mudar de providencialismo. Se nos habituássemos a olhar para além do conteúdo específico das ideologias e das doutrinas, veríamos que reivindicar uma em vez de outra não implica, de modo algum, qualquer esforço de sagacidade. Os que aderem a um partido acreditam que se distinguem dos que seguem outro quando, na realidade, desde o momento em que escolhem, todos convergem na essência, participam da mesma natureza e diferem apenas em aparê...

A frutificação instantânea de uma árvore no mês de janeiro

Para Maistre, essa força ganha um sentido, torna-se verdadeiramente a Providência, a partir de um milagre, a Revolução: «se no coração do inverno e diante de mil testemunhas um homem ordenar a uma árvore que se cubra repentinamente de folhas e frutos e a árvore obedecer, todos clamarão milagre e inclinar-se-ão diante do taumaturgo. Mas a Revolução Francesa e tudo o que se passa neste momento é, no seu género, tão maravilhoso como a frutificação instantânea de uma árvore no mês de janeiro…».   Exercícios de Admiração – Ensaios e Retratos, de Emil Cioran, Gallimard, 1986.

Weininger

Carta para Jacques Le Rider  Paris, 16 de Dezembro de 1982  Ao ler o seu livro sobre o meu antigo e distante ídolo, não pude deixar de pensar no acontecimento que foi para mim a leitura de Geschlecht und Charakter . Estávamos em 1928, eu tinha dezassete anos e, ávido de todas as formas de excesso e heresia, gostava de explorar uma ideia até às últimas consequências, levar o rigor até à aberração, até à provocação, conferir ao furor a dignidade de um sistema. Por outras palavras, apaixonava-me por tudo, excepto pelas nuances. O que me fascinava em Weininger era o exagero vertiginoso, o infinito na negação, a recusa de bom senso, a intransigência mortal, a busca de uma posição absoluta, a mania de levar um raciocínio até ao ponto onde ele se destrói a si mesmo e arruína o edifício de que faz parte. Acrescente-se a isso a obsessão pelo criminoso e pelo epiléptico (especialmente em Über die letzten Dinge ), o culto da fórmula genial e da excomunhão arbitrária, a assimilação da mul...

Agora tenho a impressão de que se passa tudo ao contrário

Noutro dia voltei a ver, passados muitos anos, La Vallée fantôme , de Alain Tanner. Para mim, trata-se de um cineasta excepcional, pois é dos poucos que se manteve obstinadamente fiel ao legado de André Bazín, à valorização do plano como unidade espácio-temporal com valor próprio, como um «pedaço de vida», um momento que será inserido no decorrer do filme, mas que existe por si mesmo e não deve ser sacrificado a essa integração. Eu diria que se trata de uma noção de «plano» oposta à de Bresson, que afirmava que um plano não tem de significar nada por si mesmo, porque só assim estará em condições de encaixar no conjunto.  O protagonista de La Vallée fantôme (Jean-Louis Trintignant) é um cineasta que se desfez de um argumento em que estava a trabalhar há quatro meses. Quando a mulher aborda o assunto, ele responde que não era mau, era «uma história com princípio, meio ( milieu ) e fim», mas estava morto, era uma das milhares de histórias que há por aí. «Para que servem?». Ela respon...

Imobilidade em movimento

O sentimento de que corre tudo mal existiu em todas as épocas, e com razão, já que o maior prazer dos homens é inventar maneiras de tornar a vida uns dos outros miserável. A afirmação dos conservadores de que a sociedade actual é má, mas a seguinte será ainda pior, é irritante e até mesmo insuportável. E, no entanto, a história confirma este diagnóstico à risca. Que fazer? Tornar-se budista ou aceitar o Progresso de olhos fechados? Esta superstição vem do tempo do Marquês de Condorcet, e a sua influência tem sido enorme. A ideia de Progresso é uma forma atenuada de utopismo, um delírio aparentemente razoável sem o qual as ideologias do século passado, assim como as do nosso, teriam sido impossíveis. A originalidade do ponto de viragem histórico que estamos a testemunhar reside no facto de este delírio estar a ser contestado, submetido a uma lucidez fatal — um despertar ao mesmo tempo libertador e terrível. As velhas categorias de «direita» e de «esquerda» parecem ultrapassadas. Eviden...

Admiradores

Joyce e Musil moravam muito perto um do outro em Zurique durante a última guerra; no entanto, não fizeram nenhuma tentativa de se conhecerem, de se encontrarem. Os criadores não comunicam entre si. Precisam de admiradores, não de semelhantes . Emil Cioran, Cadernos 1957-1972

Livros fortificantes

O que não devo aos livros destrutivos, do contra, «ácidos»? Sem eles, já não estaria vivo. É por reacção ao seu veneno, por resistência à sua força nociva, que me fortaleci e me apeguei ao ser. Livros fortificantes , pois despertaram em mim tudo o que os devia negar. Li quase tudo o que é preciso para soçobrar, mas foi precisamente por isso que consegui evitar o naufrágio. Quanto mais «tóxico» é um livro, mais age em mim como um tónico. Só me afirmo pelo que me exclui. Emil Cioran, Cadernos 1957-1972
O nacionalismo é um pecado do espírito. Pertencer a um povo não tem um significado profundo (excepto, talvez, para os Judeus). A única comunidade verdadeira é aquela que se funda na «família espiritual», nem nacional nem ideológica. Só me sinto solidário com quem me compreende e que eu compreendo, com quem acredita em certos valores inacessíveis às multidões. Tudo o resto é mentira. Um povo é uma realidade, sem dúvida; uma realidade histórica e não essencial. Quando penso na efervescência da minha juventude por causa da minha tribo! Que loucura, meu Deus! Temos de nos libertar das nossas origens, ou pelo menos esquecê-las. Tenho tendência a voltar a elas, sem dúvida por masoquismo, por gosto da servidão, das «grilhetas», da humilhação. Emil Cioran, Cadernos 1957-1972

China my China

21 de Junho  Ontem disse à Doreen que o governo devia pôr à disposição da população uma sala ou um edifício onde as pessoas se pudessem encontrar, conversar, fazer discursos, desabafar. Ela respondeu-me que as mulheres na China antiga, quando estavam com raiva ou tinham alguma aflição, subiam a pequenos estrados, montados especialmente para elas na rua, e ali davam rédea solta à sua fúria ou à sua tristeza. Essa «prática» parece-me muito mais eficaz do que o método psicanalítico ou o confessionário. Emil Cioran, Cadernos 1957-1972

Ir ao mercado

Ouvido no mercado. Duas mulheres velhas e gordas prestes a terminar a conversa. Uma diz à outra: «Para se viver tranquilo, não devemos sair do rame-rame da vida.» Uma manhã destas, fui ao mercado (como todos os dias). Depois de dar três voltas, saí incapaz de me decidir por o que quer que fosse. Nada me tentava, não tinha vontade de nada. Em tudo, a escolha tem sido a minha perdição ao longo da vida. Noutro dia, no mercado, olhei por um instante para uma cabeça de boi cuja pele tinha sido arrancada. Os olhos, ou o que deles restava, deram-me um calafrio terrível. No mercado, uma mulher horrível, com cabeça de águia, começou a gritar comigo porque eu tinha acabado de passar entre ela e a banca. «Você não é educado. Um cavalheiro não deve passar à frente de uma mulher, etc.» Ela insiste. Fraqueza incrível da minha parte, tento justificar-me e enervo-me tanto como a mulherzinha. Nisso, como sempre, sensação de mal-estar físico. Decididamente, só morto alcançarei a indiferença. ...
Um Papa que perdia a fé e abandonava o Vaticano depois de uma declaração pública de ateísmo... Emil Cioran, Cadernos 1957-1972 
Como todos os grandes acontecimentos cá em baixo, o «fim do mundo» chegará com um «primário», com um louco... medíocre. Emil Cioran, Cadernos 1957-1972 

& outras manhas

Foi uma luta para me obrigar a traduzir decentemente este aforismo (V ariations Goldberg . / … Après ça, il faut tirer l’échelle). Na verdade, gosto mais da versão censurada ( Variações de Goldberg . / … Depois disto, deitar fora a escada). Tenho uma predilecção por escadas.

Campanha eleitoral

É incrível a que ponto o espírito é tão pouco capaz de prever, de admitir, de assimilar as catástrofes. À minha volta só vejo pessoas que não querem acreditar nas catástrofes. Isso vem de uma reacção de defesa completamente natural, mas também de uma falta de cultura histórica. Ora o que é a História senão a disciplina do pior? Quem a cultiva, habitua-se e até lhe ganha o gosto...  Eles não ousariam (foi o que os checos disseram a si mesmos recentemente... até que viram). Os romanos também não acreditavam que Alarico ousaria. Um homem político que rejeita a ideia de catástrofe é um ingénuo e prepara a ruína do seu país. Emil Cioran, Cadernos 1957-1972 

Best-seller

Graças ao Daniel e à Diana, o Caderno de Talamanca é o livro mais bonito de Cioran que já vi. Entretanto comecei a fazer pequenas emendas à tradução, o que sustenta o meu carácter duvidoso. Não há contradição entre os axiomas.