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Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro, 2018

Todos cerram a boca

ANTÍGONA 
(...) Ouviria toda a gente louvar a minha acção, se o medo lhes não cerrasse a boca. A tirania tem, entre outras vantagens, a de poder dizer e decidir quanto lhe apeteça.

CREONTE
De entre todos os cadmeus, só tu tens esse modo de ver.

ANTÍGONA 
Isso é o que te parece, porque todos cerram a boca diante de ti.

Sófocles. Antígona. Versão de António Manuel Couto Viana.

Os fantasmas divertem-se

Carpe Diem, de Daniel Blaufuks, 2010.

Uma casa vazia nunca está vazia. Uma casa que não é habitada há longos anos é um ninho vivo de memórias, isto é, fantasmas. Cada parede, cada fenda na parede, cada porta, cada janela, cada tábua, cada escada, cada degrau de escada, cada prego, cada grão de poeira, cada sombra, cada raio de luz, é uma voz. Pode-se imaginar quantas vozes há numa casa há muito tempo desabitada. O barulho pode ser ensurdecedor.

Quanto tempo o corpo leva a esquecer?

César deve morrer, de Paolo e Vittorio Taviani, 2012.

Não será o actor para sempre um prisioneiro? Preso às tábuas, aos gestos, às palavras, a um pensamento. Preso numa espécie de limbo, nem dentro nem fora do mundo, nem agora nem antes ou depois. Morto e ressuscitado quantas vezes for preciso e à vista de todos. Quando é que um actor é livre? Quando é que o palco e o fora do palco deixam de ser a mesma coisa? Quando é que finalmente o corpo do actor se desprende do personagem? Mesmo depois das tábuas e dos muros, quanto tempo o corpo leva a esquecer?


Opening Night, de John Cassavetes, 1977.

A mão e a luva

LADY MACBETH
What, will these hands ne'er be clean? — No more o'
that, my lord, no more o' that: you mar all with
this starting.
(...)
Here's the smell of the blood still: all the
perfumes of Arabia will not sweeten this little
hand. Oh, oh, oh!
(Macbeth, acto 5, cena 1.)

Shakespeare antes de ser Shakespeare fazia luvas. Era luveiro, como o pai. Que secretos fios ligam o luveiro e o dramaturgo? Quantos dos seus personagens não têm as mãos manchadas de uma qualquer espécie de sangue, real ou simbólico, que é preciso revelar ou encobrir? Quantas não calçam ou descalçam luvas para ocultar ou mostrar amor, ódio, afecto, raiva, angústia, amizade, desespero, culpa ou inocência? Quantas não calçam ou descalçam as mãos para dar ou tirar a vida? Quantas das suas palavras não são luvas que mostram ou escondem um imenso e inesgotável mapa do tesouro?

À escolha

Através dos tempos, a Verdade não tem sido a grande Rameira do espírito, a grande Galdéria da alma? Só Deus sabe se não deu em deboche com os primeiros homens que apareceram na terra depois do Génesis! Artistas, papas, labregos, reis, todos chegaram a possuí-la e a ter a certeza de que ela era só deles, à menor dúvida forneciam argumentos que não tinham réplica, que eram irrefutáveis, que eram decisivas provas.
Para uns sobrenatural, para outros terrestre, semeou indiferentemente a convicção na Mesopotâmia das almas superiores e da parvónia espiritual dos idiotas. A todos fez festas de acordo com o seu temperamento, de acordo com as suas ilusões, as suas manias, a sua idade, ofereceu-se à concupiscência de certezas que em todos existia, e fê-lo sem regatear a posição e dos dois lados, à escolha.

J. K. Huysmans, O castelo do homem ancorado (En rade, no original). Tradução de Aníbal Fernandes. 

Contemporâneo

Contemporâneo é aquele que mantém o olhar fixo no seu tempo, de maneira a perceber não a sua luz, mas a sua sombra. Todos os tempos, para quem vive a experiência da sua contemporaneidade, são sombrios. Contemporâneo é quem sabe ver essa sombra e que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente.

Giorgio Agamben, O que é o contemporâneo?