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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2015

Esfregar a barriga sem tirar as mãos dos bolsos

- Tu dizes que a arte não deve excitar o desejo - repôs Lynch - Já te contei que um dia escrevi o meu nome, a lápis, no traseiro da Vénus de Praxíteles, no Museu. Não seria isso desejo?
- Estou a falar de naturezas normais - explicou Stephen. - Também me contaste que quando eras criança, na tua inefável escola carmelita, comias pedaços secos de bosta de vaca.
Lynch não pôde conter-se e soltou de novo as suas risadas vagas, esfregando outra vez a barriga, mas sem tirar as mãos dos bolsos.
- Mas comi! Mas comi! - exclamava ele. (...) - E não te esqueças, peço-te, que, muito embora tenha comido outrora um bolo de bosta de vaca, admiro unicamente a beleza.

James Joyce, Retrato do artista quando jovem. Tradução de Alfredo Margarido.

Tú leíste Palomita Blanca? Cuéntamela

Es fascinante lo que hizo Raúl Ruiz cuando adaptó Palomita blanca. Era una novela que estaba muy de moda en Chile; la había escrito Lafourcade, por quien Raúl no tenía ningún tipo de respeto. Entonces aceptó el desafío pero dijo que no iba a leer la novela. Cómo hacer la adaptación de una novela que no vas a leer. Hizo algo fascinante: convocó desde las revistas para adolescentes al cásting para buscar a Palomita Blanca, se armó una fila larguísima y él las filmó a todas. Entonces les preguntaba “¿Tú leíste Palomita Blanca? Cuéntamela”. Las que la habían leído le contaban lo que se acordaban, y las que no la habían leído inventaban. Con la mezcla de lo que se acordaban más lo que inventaban él hizo la película. En el fondo es una manera fantástica de quedarte con el espíritu de la novela.

Gonzalo Maza.

Plano para acabar com o mundo

Wilbert Frederick tinha um plano para acabar com o mundo. Um plano diabólico e terrivelmente eficaz. Dizer que ele fervia de entusiasmo com a ideia, como se estivesse possuído por mil demónios enegrecidos, é pouco. Pela primeira vez na vida, sentia-se feliz. Uma felicidade que se adivinhava pelas gargalhadinhas maldosas e frases ameaçadoras, debitadas de enfiada sem pontos nem vírgulas.
Ora, antes de pôr a coisa em marcha, e como é usual em tais ocasiões, Wilbert Frederick guardou o plano num cofre. Um cofre secreto e inviolável, cuidadosamente fechado com uma chave também ela inviolável e secreta. Depois, esfregando as mãos como um actor de teatro, saiu de casa para beber uma cerveja.
Pois bem, por alguma manobra do destino difícil de explicar, perdeu a chave no caminho. E apesar de todos os esforços para a recuperar, esta nunca mais apareceu e o cofre não mais foi aberto. Wilbert mergulhou então no mais horrível desespero, enredando-se num discurso alucinado, em que infância e erv…
Van Gogh, 1886.

Títulos

Um drama, mesmo quando nos pinta paixões ou vícios que têm nome, incorpora-os de tal maneira na personagem que os seus nomes são esquecidos, os seus caracteres gerais se apagam, enquanto nós deixamos por completo de pensar neles para pensarmos na pessoa que os absorve; é por isso que o título de um drama dificilmente deixará de ser um nome próprio. Em contrapartida, numerosas comédias têm um nome comum: O Avarento, O Jogador, etc. Se nos pedirem uma peça que possa chamar-se, por exemplo, O Ciumento, ocorrer-nos-á ao espírito Sganarelle ou George Dandin, mas não Otelo; um título como O Ciumento só pode ser um título de comédia.

Henri Bergson, O Riso. Tradução de Miguel Serras Pereira.

O máximo de sabor possível

Ao falar sobre a nova etapa de sua trajetória, a “idade de outra experiência, a de desaprender”, [Roland] Barthes escreveu: “Essa experiência tem, creio eu, um nome ilustre e fora de moda, que ousarei tomar aqui sem complexo, na própria encruzilhada de sua etimologia: Sapientia: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível”.

Texto completo aqui.

Trinta chaves para escrever contos e romances

Como atrair a atenção do leitor?
Com números de contorcionismo, acrobacias em cavalos ou bicicletas, pirâmides humanas, voos no trapézio, demonstrações de pirofagia, palhaçadas, lançamento de facas e travessias na corda bamba.

Quando há uma história?
Quando há uma história.

O que nos faz continuar a ler?
Livro, sol, uma mesa de esplanada, café, óculos.

Que tipo de leitor procuramos?
Um leitor.

Como construir uma personagem?
Construindo uma personagem.

Como conceber e planificar uma narrativa?
Com papel e esferográfica. Ou lápis.

Descrever de mais ou de menos?
Descrever mais ou menos.

Para que servem os diálogos?
Para matar o tempo.

Como trabalhar com o quotidiano?
Levantar de manhã, tomar o pequeno-almoço, apanhar o autocarro para o trabalho, trabalhar, almoçar, trabalhar, apanhar o autocarro para casa, fazer o jantar, jantar, deitar, dormir.

Como evitar os clichés?
Saber quem são, onde costumam estar e não frequentar os mesmos locais.