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Que bela noite!

Gosto tanto quando a Chantal não se preocupa em contar uma história e arrisca fazer um filme fragmentado – é quando ela é mais livre e efervescente . Toda uma Noite mostra-nos os apelos amorosos de uma noite quente de verão em Bruxelas. A cidade transforma-se num enorme estúdio de cinema, mas as personagens fogem aos guiões habituais e andam de um lado para o outro: encontram-se em cafés ou na rua, esperam, bebem, fumam, correm, regressam, separam-se, sussurram, agarram-se, dançam ao som das canções românticas das jukeboxes (já se nota a influência de Pina Bausch) , apanham um táxi, vão para casa, vão para um hotel. Os pares fazem-se e desfazem-se sem razão e quase sem palavras. Natalia Akerman aparece a fumar um cigarro à porta de casa – elegantíssima como é habitual e como todas as mulheres do filme –, uma voz chama «mamã», ela guarda o isqueiro dentro do maço e vai para dentro. Há umas crianças que saem sorrateiramente de casa, sabe-se lá para onde. A câmara não tem medo da noite...
As sessões das 17h15 são para desocupados. Somos, talvez, o público mais disponível para os filmes de Chantal Akerman. Hoje éramos quatorze, mas só um esteve à altura de Hotel Monterey e deixou-se passar pelas brasas.

Das Passagen-Werk

Coisas para arreliar a autora

Foi editada dois anos depois da Chantal (ajuste de contas com 1975). O Camião está encostado a O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, de Karl Mark ( Ela diz: sabe, Karl Marx, acabou-se ). A fotografia na contracapa é do Saviem azul de trinta e duas toneladas (tão assustador como o carro assassino de Carpenter). A Ana Jotta partiu o livro de cima abaixo. E eu, com a ajuda valente do João, tomei muitas liberdades. No fundo, adoramos O Camião .

Exame de admissão

A idade das possibilidades de Chantal Akerman em Super 8 . Ah, o prazer de pegar numa câmara e começar a filmar.

c'est ça c'est ça

Depois da lista da Sight & Sound, o Joker (episódio 111, 25 janeiro de 2024, rtp 1).

Sobre Chantal Akerman

Imaginei tantas vezes a estreia de  No Home Movie.  Mas nunca assim...  Quero falar-vos de Chantal. Falar-vos de tudo o que me deu, tudo o que me ensinou, tudo o que partilhamos. Contar-vos como era radiante, inteligente, surpreendente e também divertida... Diz-se muitas vezes de Chantal que tinha princípios estéticos. Bom, eu acho que os princípios nos protegem, e Chantal não se protegia. Confiava no que estava para vir, sabia acolher o acaso.  Lembro-me de uma história que lança alguma luz sobre a sua forma de trabalhar. Durante a preparação de La Folie Almayer , ela precisava de um porto. A assistente perguntou-lhe se queria um porto grande ou um porto pequeno. Ela respondeu «um porto grande». Mais tarde, perguntamos-lhe se tinha a certeza que era isso que queria, porque talvez um porto pequeno fosse mais acolhedor. Recordo-me que íamos pela rua e Chantal estava ao telefone. Parou, bateu com o pé e disse «quero um porto grande, foi o que disse, não me peçam para e...
Chantal Akerman: (...) Quando estava a filmar D’Est na Ucrânia, ficamos sem gasolina. Uns agricultores sugaram gasolina dos seus carros para nos dar, depois não queriam que fôssemos embora, prepararam-nos um banquete. Por mais pobres que fossem, conseguiram juntar o suficiente para nos oferecer uma refeição de rei. Não conheciam Prokofiev ou Shostakovich, mas sabiam que quando alguém está com fome é preciso dar-lhe de comer. Estaline «esqueceu-se» de planear as sementeiras e provocou uma fome na Ucrânia que fez 7 milhões de mortos. E, no entanto, ele era de lá, da Ucrânia. Nada é simples. Estes mesmos camponeses poderiam ter massacrado judeus durante a guerra. Estes mesmos ou outros.
D’Est , de Chantal Akerman, não teve estreia comercial em Portugal, apesar da RTP estar envolvida na produção. O filme, de 1993, passou pela primeira vez no nosso país no dia 15 de Janeiro de 2002, na Cinemateca Portuguesa (inserido no ciclo «Cinema e Pintura» / Módulo III, apresentado por Dominique Païni). Alguns sites classificam-no como muet .

Enquanto ainda é tempo

Gostava de fazer uma grande viagem através da Europa de Leste, enquanto ainda é tempo. Rússia, Polónia, Hungria, Checoslováquia, ex-Alemanha de Leste, até à Bélgica. Gostava de filmar por lá à minha maneira documental a roçar a ficção. Tudo o que me toca. Rostos, ruas, carros que passam e autocarros, estações de comboios e planícies, ribeiras ou mares, rios e riachos, árvores e florestas. Campos e fábricas e mais rostos, comida, interiores, portas, janelas, preparação de refeições. Mulheres e homens, jovens e velhos que passam ou que param, sentados ou de pé, às vezes até deitados. Dias e noites, chuva e vento, neve e a Primavera. Tudo isso que se transforma docemente, ao longo da viagem, os rostos e as paisagens. Todos esses países, em plena mutação, que passaram por uma história comum depois da guerra, ainda muito marcados por essa história nas próprias sinuosidades da terra, mas cujos caminhos agora divergem. Gostava de gravar os sons dessa terra, fazer sentir a passage...

Uma certa alegria enterrada

Uma das piores coisas que podem fazer aos filmes de Huillet e Straub é cortar-lhes o diálogo, apresentá-los como obras cinematográficas desgarradas ou, pior ainda, como  objectos artísticos . Esse isolamento não é mais do que um caminho de redução, esquecimento e morte. Pela minha parte, faço tudo o que posso para os aproximar do ar livre, dos outros, dos meus pequenos gestos diários (ajudam-me tanto a ver a ouvir e a descobrir no fundo de tudo uma certa  alegria   enterrada ). No sábado levei Karl Rossmann ao Nimas para falar de O sangue .  Amanhã, levo o método de Trop tôt, trop tard para encostar a D’est,  de Chantal Akerman .

Pratos do dia

Fotografias da Linha de Sombra

Três filmes

Por razões práticas, fui rever Da Vida das Marionetas , de Bergman (1980). O que une este filme a Warum läuft Herr R. Amok? , de Fassbinder (1970), e Jeanne Dielman , de Akerman (1975), é muito mais do que um ténue fio agitado pelo ar daqueles tempos. (Escrevo «ar daqueles tempos» para facilitar.) O que os une é uma corda de aço.

Apenas a matéria vida era tão fina

Noutros tempos teria ido à Cinemateca ver Retrato de uma rapariga do fim dos anos 60 em Bruxelas , mas agora já não me apetece viajar mais que 20 quilómetros e acabei por ver o filme no pequeno ecrã do iPad . A experiência até nem é má, quer dizer, esta versão reduzida e um bocado estragada combina com a história de evasão de Michèle, partilham o mesmo carácter improvisado e precário — quase que podemos dizer que são feitos da mesma matéria. Logo no início, e depois de uns planos hitchcockianos, Michèle senta-se num café, acende um cigarro e começa a rabiscar uma justificação para faltar às aulas. Escreve em nome do pai (aquele homem que a levou até à paragem de autocarro e de quem ela fala muito ao longo do filme). Começa por explicar que a filha está gripada. Corrige: teve que ir a um funeral, a avó morreu. Afinal quem morreu foi o tio. Não, foi a tia que morreu a seguir à morte do tio. Segue-se a morte do pai e por fim a morte da própria Michèle: Veuillez excuser ma fille Michèle, ...

Retrato de uma rapariga do fim dos anos 60 em Bruxelas

— Não sentes que está para acontecer alguma coisa?

Uma mulher em Veneza

Gosto tanto da fotografia escolhida para a contracapa d' Uma família em Bruxelas . Foi tirada em 1982, no Festival de Cinema de Veneza (baralhei-me com outra de Cannes, de outra pessoa), por Raymond Depardon.  Parece uma imagem convencional a preto e branco, com linhas certas e pose estudada. E ao princípio é isso, mas depois não sei explicar porquê, esqueço-me da praia e das barracas e já só vejo aquele corpo tenso, uma mão no bolso, a outra com o cigarro, os olhos desconfiados. Desconfiança de quê? Da praia? Do Festival? Do cinema? Da vida? E essa desconfiança não pára de aumentar, e já passou para mim, como se houvesse um diálogo ou uma ligação qualquer e quase que dá para sentir o mistério daquela mulher, e — deve ser esse o milagre das imagens — por um breve momento, oh, muito breve, Chantal está toda aqui .

Tu sabes, tu és uma mulher.

Jeanne Dielman, 23, quai du Commerce, 1080 Bruxelles é um objecto de muitas perplexidades: endógenas, históricas, cinematográficas, e outras ainda mais variáveis pois prendem-se com as características de quem assiste à projecção, como se o filme nos convocasse para qualquer coisa. Ainda antes da primeira imagem, o título identifica e regista Jeanne numa morada: cais do comércio, 23 . Mais do que nomear, é apresentada uma sinopse plena de significados. Mas as perplexidades continuam: como é que uma miúda de vinte e cinco anos consegue ter uma visão tão precisa e profunda do quotidiano de uma mulher de meia idade? Como é que ela sabe a este ponto? Como é que consegue detalhar cada movimento do corpo de Delphine Seyrig e ao mesmo tempo deixar na sombra tudo o que se passa na cabeça. Quando a actriz pede explicações 1 , Chantal diz que ignora o que essa mulher pensa, apenas conhece os seus gestos. Talvez seja este avançar teimoso no não saber, esta decisão de afrontar um enigma, que t...