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A mostrar mensagens com a etiqueta Marta Mateus
O Fogo do Vento é um magnífico exercício de liberdade. Em vez de seguir uma história sequencial, o filme de Marta Mateus avança segundo regras mais antigas, que sacodem o tempo como o vento. Durante a projecção, os quadros desdobram-se em mil caminhos diferentes: somos convocados a participar nessa montagem afectiva. Ninguém vê o mesmo, mas todos reencontramos algo de fundamental e eterno.  O que mais me impressiona é a forma como as pessoas se deitam nas árvores. É certo que sobem para lá para escapar ao touro (magnífico signo de todas as coisas que oprimem, até do próprio cinema), mas depois aconchegam-se aos troncos e ramos, e o medo transforma-se em conquista. Cantam, dormitam, contam histórias passadas e pensam. (O rosto de alguém a pensar é das imagens mais belas que há, e o cinema tem o dever de o guardar.) Naquelas árvores alentejanas, nasce uma comunidade aérea ancorada em memórias longínquas e futuras – um território novo cheio de visões. Só o touro está sozinho e derro...
Tudo arde, é o fogo do vento que anuncia a canícula.

A vida no campo e na cidade no século XXI

Numa loja do minipreço do Porto, o ar condicionado está avariado há dez dias. Esta semana, com a onda de calor que temos vivido, as temperaturas chegaram aos 42º dentro do minimercado. Com apenas uma porta que dá para o exterior, falta ventilação e trabalha-se numa estufa insuportável. Aparentemente, não será caso único na mesma cadeia. Mas dá que pensar: pode alguém ser obrigado a continuar a trabalhar nestas condições?

É dia

(Três semanas depois) As fotografias que acompanham o texto da Joana Gorjão Henriques no ípsilon foram muito bem escolhidas. Richard Dumas apanhou Pedro Costa a uma certa distância, de corpo inteiro, quase de perfil, entre uma porta e uma janela. Parece uma fotografia de trabalho — não, é mais do que isso, é um documento como os retratos de August Sander (um novo sentido para Die letzten Menschen ). Para além da fotografia antiga que aparece no filme (dezassete anos, vestida de noiva, sozinha porque casou por procuração, com os olhos quase cerrados), Vitalina surge duas vezes. A primeira fotografia foi tirada por Pedro Costa e ocupa cinco colunas. Há mais luz, mas a forma de enquadrar é semelhante à do filme. Vitalina encosta a cabeça a uma portada; o olhar dela é muito ambíguo, continua preso não se sabe a quê (é sobre isto que não sabemos que Pedro Costa constrói os filmes) — a imagem tem qualquer coisa de naufrágio. Na página sete, na fotografia a preto e branco de Marta M...