Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2015

S/ data, s/ título

Rua Miguel Bombarda, Porto.

Um tremendo segredo

Vai para a cama e ressona, pois não tardarão a entrar no teu quarto aqueles que dormem na rua. Claro que irás fingir não dar pela sua presença. Claro que na manhã seguinte dirás rindo à tua mulher:
- Tive um estranho pesadelo.
Mas no ar permanece o seu hálito e nos teus ouvidos os seus queixumes, e o frémito dos seus corpos no teu corpo. Sabes isso muito bem; todos sabem isso e calam-no. É um tremendo segredo.

Francisco Tario, Equinócio

Próximo sábado, 27 de Junho, 17h00, no Gato Vadio.

Próximo sábado, 27 de Junho, pelas 17h00

Última sessão da 4.ª Temporada das Leituras do Gato Vadio. Dedicada ao livro "Equinócio", a obra-prima do autor mexicano Francisco Tario. No próximo sábado, 27 de Junho, pelas 17h00, no Gato Vadio (rua do Rosário, 281, Porto). O convidado é o actor Daniel Macedo Pinto. O cartaz é da autoria de Luís Nobre, da dupla Lina&Nando.

Palco

O macaco-de-nariz-pontiagudo sai de cena e entra o filósofo. O filósofo faz trinta minutos de abdominais, flexões e polichinelos. Abandona o palco, muito satisfeito com a sua condição física, e entra o padre. Um homem maravilhoso, maravilhoso. Desaparece e entra o comediante. Este coça duas ou três vezes a orelha direita com o indicador, acende um cigarro e deita-se no chão durante alguns minutos. O comediante, com licença do leitor, está um pouco bêbado.
- Eu dou licença – diz o leitor.
Pouco depois o comediante sai, um tanto a custo, e entra o economista, que traja limpa e admiravelmente. O economista vai-se embora quando entram as batatas. As batatas dizem coisas deste teor: “Desculpem, minhas senhoras e meus senhores, mas não passamos de pobres batatas. A natureza não foi pródiga no génio e nas capacidades que nos deu. Em todo o caso, e sem querer perturbar o frágil equilíbrio do cosmos, e também com a devida licença do leitor, gostávamos de dizer umas quantas verdades.”
- Eu d…

Gago apaixonado

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago

Tem tem pe-pena deste mo-moribundo
Que que já virou va-va-va-va-ga-gabundo
Só só só só por ter so-so-sofri-frido
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu tens um co-coração fi-fi-fingido

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago

Teu teu co-coração me entregaste
De-de-pois-pois de mim tu to-toma-maste
Tu-tua falsi-si-sidade é pro-profunda
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu vais fi-fi-ficar corcunda!

Noel Rosa.

Juan Rodolfo Wilcock

Wilcock escribía dos columnas en “Il mondo”, una con su nombre y otra con el seudónimo Mario Campanari. Polemizaban entre ellos con una furia absoluta, durante varios números. Las cosas más sardónicas sobre Wilcock siempre las dijo él mismo.
(…)
Juan Rodolfo Wilcock murió cuatro años después: sufrió un infarto mientras leía, recostado en un sillón, L’infarto cardiaco, de Alberto Saponaro.

Aqui.

Arreda!

Neste comenos, visitou-os [a Morgada de Romariz e o marido] um meu conhecido de Famalicão. Ao erguer do pano, saiu de lá, e entrou no meu camarote. Foi ele quem me disse o nome das duas pessoas, acrescentado:
- Ali, onde a vê, tem romance; dá matéria para dois tomos...
- Picarescos? Não me servem... Eu quero filosofia: os meus leitores querem filosofia, percebe o senhor?
- É o que ela tem mais que dar.
- Ora essa!... O senhor sabe que ela tem isso? Queira apresentar-me..
- Deus me defenda... Eu disse à morgada que você era romancista...
- E ela que disse?
- Riu-se.
- Riu-se?! É boa! E o marido...
- O marido disse: Arreda!

Camilo Castelo Branco, A Morgada de Romariz.
Elijah Hinsdale Burritt, The geography of the heavens, 1847.

O riso

Plantado no meio do palco, o actor não conseguia dizer uma só palavra sem que fosse assaltado por uma onda incontrolável de riso. O actor tentava dizer a palavra “angústia” e não conseguia parar de rir. Tentava dizer a palavra “morte” e ria, ria, ria, acometido de um riso tremendo, monstruoso, desmedido. Quando por fim conseguiu articular a palavra “flor”, o actor morreu no meio das mais atrozes convulsões, sufocado pelo riso.

Os píncaros da glória

O público acorre em massa para ver o mágico. A sala esgota, não cabe uma mosca. Mal se respira. O mágico entra em palco no meio de uma torrente avassaladora de aplausos e inicia o espectáculo com um número simples: o velho truque de fazer desaparecer pessoas. Começa por fazer desaparecer os espectadores da primeira fila, um após outro. Depois, os da segunda fila, desta vez três ou quatro em simultâneo. Em seguida faz desaparecer todos os espectadores da terceira fila, da quarta, da quinta e assim sucessivamente, até não restar ninguém. É um truque simples, sem nada de assombroso, mas eficaz e funciona sempre muito bem. Só então, com a sala totalmente vazia, o mágico apresenta os truques mais complexos. Aqueles que o tornaram famoso e alçaram aos píncaros da glória.