Atribuir uma significação ao processo histórico, ainda que a fizessem surgir de uma lógica imanente ao devir, é subscrever, mais ou menos explicitamente, uma forma de providência. Pelo próprio facto de conferirem um sentido aos acontecimentos, Bossuet, Hegel e Marx pertencem à mesma família ou, pelo menos, não diferem uns dos outros no essencial, pois o importante não é definir ou determinar esse sentido, mas recorrer a ele, postulá-lo – e é isso que eles fazem. Passar de uma concepção teológica ou metafísica para o materialismo histórico é simplesmente mudar de providencialismo. Se nos habituássemos a olhar para além do conteúdo específico das ideologias e das doutrinas, veríamos que reivindicar uma em vez de outra não implica, de modo algum, qualquer esforço de sagacidade. Os que aderem a um partido acreditam que se distinguem dos que seguem outro quando, na realidade, desde o momento em que escolhem, todos convergem na essência, participam da mesma natureza e diferem apenas em aparê...
de Cristina Fernandes e Rui Manuel Amaral