Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Porto

Pensar e passar o tempo

Hora de almoço. Despacho, em duas penadas, o que trouxe de casa no tupperware . Ponho as minhas coisas num saco e corro para a esplanada mais próxima do trabalho. Um lugar formidável: cabeça à sombra, corpo ao sol. O café custa 1 euro. Percebo que, na pressa, trouxe o caderno, mas esqueci o livro que ando a ler. O que fazer sem o livro? Decido escrever isto para passar o tempo. Claro que isto não tem qualquer serventia. Mas escrever serve para mais alguma coisa, senão para pensar e passar o tempo?

Praça e Batalha

Tarde de sábado, 21 de Março. No Salão Nobre do Teatro São João, conversa-se sobre a obra de Manuel António Pina , o autor que passou a vida inteira, obsessivamente, às voltas com a palavra «casa», o lugar mítico a que todos regressamos ou desejamos regressar: «Teremos então, enfim, uma casa onde morar/ e uma cama onde dormir/ e um sono onde coincidiremos/ com a nossa vida.» Fora do teatro, na Praça da Batalha, à mesma hora, o movimento «Casas para Viver» promove mais uma manifestação contra a especulação imobiliária e pelo direito à habitação: «Mães sozinhas com crianças são despejadas, famílias vivem amontoadas, outras regressam a barracas sem água nem luz, e há quem volte do trabalho para dormir numa tenda.» Conversa e manifestação, na mesma praça e ao mesmo tempo, são uma espécie de «acaso objectivo». O país que Manuel António Pina descreveu nos seus textos é uma velha tartaruga: não pula e pouco avança.

Andar de carro

A televisão do Piolho mostra imagens da destruição no Irão: depósitos de petróleo em chamas, colunas descomunais de fumo negro, prédios e casas em ruínas. Um oráculo dá conta do infame número de vítimas civis do ataque israelo-americano. Na mesa do lado, um tipo comenta as imagens, queixando-se do preço da gasolina: «Qualquer dia, não se pode andar de carro.»

Molas da roupa

Nos últimos dias, as gaivotas têm-nos roubado, uma após outra, as molas da roupa. Arrancam-nas do estendal e levam-nas. Para onde? Para quê? Bibelots para decorar o ninho? Totens do deus das gaivotas? Às vezes, com o impulso, as hastes separam-se e fica apenas o arame da mola pendurado no fio, como a espinha de um peixe que foi prontamente devorado.

Truca-truca e tuque-tuque

Um daqueles «estudos internacionais» que revelam coisas verdadeiramente importantes, «revelou» que o «Porto é a terceira cidade do mundo onde se faz mais sexo». Ah, que cidade de maravilha, surpresa e deleite! É pena que a avalanche turística tenha arruinado, para sempre, as velhas casas de prostituição. Que grande oportunidade de negócio se apresentaria agora aos nossos empreendedores: a rota típica dos velhos prostíbulos em tuque-tuque, com o apoio de guias especializados, vestidos de lingerie ou tanga, e oferta de um bilhete para a livraria Lello.  Enfim, resta-lhes produzir réplicas em plástico, como tudo o resto. Os turistas não percebem a diferença.

Sete em ponto

Nas tempestades de Fevereiro, o vento arrancou o número 7 do relógio da Câmara do Porto. Em lugar do número, ficou um buraco. Durante alguns dias, faltaram duas horas no tempo da cidade. Tudo o que aconteceu nas horas incertas das 7 da manhã e das 7 da tarde, não aconteceu. Ou aconteceu no Porto que existe noutro lugar.

Babel

A lavandaria do bairro está cheia de gente. Velhos e novos vizinhos vindos de longe, com sacos de supermercado atulhados de roupa, esperam a vez. Peças de todos os tamanhos, feitios e cores, às voltas dentro das máquinas. Espantosa babel das línguas, cuecas e meias.

Andamentos perdidos

Da janela do escritório, ouço os calceteiros a empedrar a Rua de São Bento da Vitória, que está em obras. Dão três pancadas seguidas em cada pedra: a primeira mais forte, a segunda menos e a terceira é uma espécie de eco menor das anteriores. Perto deles, há um rádio sintonizado num canal de êxitos pop dos anos 80. Misturada com os diferentes sons do ferro a bater no granito, a música transforma-se noutra coisa. Andamentos perdidos de um Wagner enlouquecido.