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A mostrar mensagens de Março, 2019
— E aquela história do Fernando Namora, O Caso do Sonâmbulo Chupista

Eu apenas fiz a divulgação da vigarice do Namora… Eu estou em Agosto na cervejaria Trindade com o Serafim Ferreira e com o Herberto Helder, que se está a queixar que aquela gaja, a Maria Estela Guedes, tinha feito um livro com textos que tinha roubado, e de repente o Serafim diz: “opá, isso plágios é o que para aí há mais, eu tenho lá em casa a edição especial da Aparição que me deu o Vergílio Ferreira com coisas anotadas que o Namora lhe roubou...” E eu estou a ouvir aquilo e estou calado. No dia seguinte telefono para a Amadora, onde mora o Serafim, e pergunto: “ouve lá, aquela tua conversa de ontem, aquilo era blague de café ou era a sério?” “Não, tenho cá o exemplar da Aparição. Combinámos então o terrível crime nas escadinhas do duque, em que ao cimo das escadinhas eu digo: “ouve lá, tu vais fazer um panfleto e eu edito-te e vamos ganhar um bocado de massa os dois, estamos em Agosto, agora não se vende nada ma…

Luiz Pacheco — variante pedagogo e editor

Para desanuviar de tantos romances e falsos poemas atabalhoados, deitei a mão ao Crocodilo que Voa. Nem sabia se teria coragem para ler as doze entrevistas de seguida; achei que ia despachar a introdução, passar os olhos pelo resto e devolver. Mas não, vai tudo de enfiada, com elevada concentração e prazer.

O texto do João Pedro George é certeiro, apresenta uma perspectiva sobre a obra e a vida de Luiz Pacheco lúcida e sem maneirismos (fiquei com vontade de ler Extravagante, excéntrico, raro, de Carlos Castillo del Pino, aliás todo o livro La extravagancia). Conhecia João Pedro George do blogue esplanar e, mais recentemente, dos primeiros parágrafos das crónicas na revista Sábado; sempre lhe apreciei a frase firme e o pensamento solto, agora tenho de estar atenta à chegada da biografia à biblioteca (“Puta que os pariu!”, também da Tinta da China).

Em relação às entrevistas, Luiz Pacheco explica muito bem o que se passa: “... eu tenho um balanço, um pé muito bem calçado de entrevistas.…

Leituras em lugares públicos (de acesso restrito)

A/C Alexandre:

Na reportagem sobre o Estabelecimento Prisional de Tires, transmitida pela RTP1 na quinta-feira à noite, vi Rosa Grilo empunhar “O Processo” (nº 91 da Colecção Mil Folhas, do jornal Público) frente à câmara da televisão.

Pensei que ela procurava na literatura respostas para o seu problema, pensei que a seguir ir atacar “O Crime e Castigo” (nº 55 da mesma colecção). Pensei no último plano do carteirista. Mas pensei tudo errado.

Rosa Grilo explicou que o livro de Franz Kafka foi uma sugestão de um inspector que a interrogou. Neste caso, o louvor e admiração vão direitinhos para a Polícia Judiciária.

Quando estamos a ver o filme já nos apercebemos disso, não passa ainda de uma coisa fraca, como se os nossos olhos fossem os de Agnès Varda captando imagens desfocadas e com significados indefinidos. Na verdade, a alegria que Varda e JR levam aos "lugares" por onde passam e aos rostos das pessoas está ligado a uma tristeza que é própria da fotografia e da morte (a palavra mais adequada é "nostalgia" trazendo consigo o rasto de viagem e dor, a falta de algo), uma tristeza que se vai prolongar mais no tempo, fora da sala de cinema. "Olhares lugares" é ao mesmo tempo essa viagem literalmente a bordo de uma carrinha mascarada de máquina fotográfica e a tentativa de encontrar qualquer coisa que falta num lugar e vencer essa falha: os mineiros que já morreram, as mulheres dos estivadores de corpo inteiro nos contendores empilhados, uma cabra com cornos porque é da natureza das cabras terem cornos, a rapariga com a sombrinha, os peixes numa cisterna, os pés de …

Deixem-nos lá

Os do Orfeu são apenas simuladores. É evidente que quem quizer ser estravagante tem de se assemelhar aos loucos. O terreno comum onde se encontram é o disparate. Em França, com os romanticos, sucedeu um pouco o mesmo. Para escandalizarem a susceptibilidade burgueza, passaram a andar vestidos de côres berrantes, de maneira diferente de todos. Baudelaire um dia (...) teve a excentricidade de pintar os cabelos de verde. Os amigos, que já estavam prevenidos, não fizeram caso. Baudelaire, que queria causar impressão, ficou fulo por não lhe ligarem importancia. E tratou logo de rapar o cabelo á escovinha (...). É evidente que estas creaturas não são absolutamente equilibradas. Mas também não é justo chamar-lhes doidos. Deixem-nos lá.

Júlio de Matos, jornal A Lucta, 11 de Abril de 1915. Citado por Jerónimo Pizarro em Fernando Pessoa: entre génio e loucura, p. 209.

A influência de Jacques Tati nos tempos de espera

Esperei 10 minutos pela abertura da loja Andante, calhou-me a senha 26. Fui fumar um cigarro junto à passagem para 5 outubro com vistas para as traseiras da antiga estação de comboios: um descampado cheio de ervas e plumas (para onde terão ido os ciganos despejados?) — isto também é a Boavista.

A influência de Philip Larkin nos tempos de espera

Depois da observação geográfica desci as escadas e, enquanto esperava pela minha vez (mais 40 minutos) reparei num homem de meia-idade, nem magro nem gordo, um pouco mais baixo do que eu, vestido de escuro (calças cinzentas, corte recto; camisa cinzenta fechada até cima; casaco azul acinzentado com cotoveleiras de camurça e dois botões claros abotoados), com óculos de massa rectangulares e um saco de papel nas mãos. Um homem de ofício burocrático ou então um poeta muito parecido com Larkin. Decidi que era as duas coisas. A partir daí pareceu-me mais interessante e misterioso — até o saco de papel ganhou outra importância. O que guardava lá dentro? Um livro com capa indecente? Uma máquina fotográfica? Um coelho branco? Um pão com marmelada?

O gato de Josef Nadj

Se passarem pela Rua do Almada, a caminho dos Aliados, e olharem para uma certa janela de um prédio em reconstrução, já depois do cruzamento com Ricardo Jorge, darão de caras com o gato de Josef Nadj. Terá o dono perdido o gato ou terá sido o gato que abandonou o dono?

Coisas espirituosas

Agradeço as ligações que fizeram aos textos sobre a Cristina Bartleby, o efeito foi tremendo (segundo as estatísticas da blogger, o facebook é mesmo a China das redes sociais). Para além da questão ética, chateia-me muito: o modo como a CB ajavarda tudo em que toca, a lata de chamar àquilo poesia (já basta a luta contra a linguagem poética, florzinhas, pôr do sol e outras fancarias), a cegueira de quem publica à toa. Feita a denúncia pública, agora é deixar o fenómeno definhar naturalmente.

O que falhou nesta operação? Se tivéssemos colocado uns anúncios da google neste Bicho Ruim, podíamos estar (eu e o Rui) numa esplanada, de óculos escuros, a esbanjar o dinheiro arrecadado (não em ponchas mas, sem dúvida) em coisas espirituosas enquanto esperamos o raio verde.

Gosto deste ambiente de lojas de colchões, garagens.

“Há um momento em que Manuel Graça Dias é imbatível, no sentido em que ele comunica, fala, escreve e desenha de um modo que é diferente”, afirma Jorge Figueira, tese que defende no seu livro A Periferia Perfeita, pós-Modernidade na Arquitectura Portuguesa (1960-1980). Nesse momento, na passagem dos anos 80 para os anos 90, “quando está a fazer as primeiras obras, quando escreve em O Independente, quando faz o Pavilhão de Sevilha, ele é o arquitecto mais alegre, mais radioso, mais interveniente, mais arguto”. 

Mostra a uma geração de jovens estudantes e de arquitectos recém-formados que há uma forma diferente de ser arquitecto e de fazer arquitectura portuguesa. “Coloca o quotidiano na arquitectura, o pequeno episódio, as incongruências, aquilo que não é necessariamente bonito e aceite pelo bom gosto. Ele coloca tudo isso como matéria da arquitectura, passível de ser lido e abraçado pelos arquitectos”, continua Jorge Figueira.

Texto de Isabel Salema, fotografia de Nuno Ferreira Santo…

O caso fraudulento da Cristina Bartleby (parte 2)

No seu currículo decalcado, CB refere a edição de um livro anterior — de autor, diz ela. Chama-se "Pequenos Naufrágios", pode ser visto na íntegra aqui e, assinale-se a lata, tem direitos de autor reservados ©.

Seria muito fastidioso apontar a origem de todos os textos (há versos de Teixeira de Pascoaes, Primo Levi, Ruy Cinatti, Carl Sandburg, Cesariny, Vasco Graça Moura, Leonard Cohen, José Afonso, inúmeros poemas traduzidos por Luís Filipe Parrado no blogue Do trapézio, sem rede, outros publicados por Rui Almeida no Poesia distribuída na rua) por isso apresento apenas cinco exemplos já com os links para a origem, linha a linha. Escolhi estes mas poderia ser qualquer um dos 14 textos, todos seguem este método:

1.
As falsas promessas, os amigos fingidos
e o gerente oferece-lhe um jogo de frigideiras
pelo seu aniversário

Era um desses dias em que tudo corre bem

Não serás a última, 
velha rameira da noite

No entanto
também a morte poderia também ser assim
(ao tentar esconder a origem d…

O caso fraudulento da Cristina Bartleby (parte 1)

Apercebi-me do caso da Cristina Bartleby (na verdade chama-se Cristina Freitas Branco, embora também já tenha assinado com o nome intermédio Luísa Freitas ou até com as iniciais clrfb) em 2014. Na altura investiguei um pouco e verifiquei que os textos que ela publicava  — por todo o lado e em grande quantidade — era corta e cola quase automático, sem itálicos, sem referências, sem links, sem nada. A Cristina Bartleby não trabalha sobre citações, não se dá à canseira de estabelecer variações ou montagens (nem tem estaleca para tal), apropria-se de modo atabalhoado e indevido de frases. Como um glutão, engole o que os outros escrevem, mistura e depois regurgita fiapos disto e daquilo sem qualquer coesão interna nem deriva total — é mesmo só um vómito.

Como copia principalmente da internet, não é difícil encontrar a fonte, basta pegar numa frase curta, colocá-la entre aspas no google e a maior parte das vezes vai dar a arquivos de blogues. Para despistar, ela muda uma ou outra palavra, “…

Mais polícias do que manifestantes

Fernando Pessoa transformou-se num monstro tocado pelo gigantismo. Há dezenas, centenas, milhares, de académicos a estudá-lo, de trás para a frente e de frente para trás, de baixo para cima e de cima para baixo, com lentes atómicas, pinças, bisturis, raios x. Cada papel, cada linha, cada palavra, cada risco. Pergunto-me se a «academia» não terá raptado Pessoa e mergulhado o monstro em formol. Existirão simples leitores de Pessoa? Existirão leitores capazes de se emocionar com os textos sem pensar nas costuras? Por vezes, a obra de Pessoa faz lembrar uma daquelas manifestações em que há mais polícias do que manifestantes.

Faltou-nos jogo interior

A ideia já andava na cabeça há algum tempo, mas foi preciso ler a frase “faltou-nos jogo interior” no rodapé da televisão sem som para conseguir agarrá-la: Fernando Santos é um treinador completamente bressoniano. Quer converter os jogadores profissionais em modelos; sonha transformar o futebol em puro movimentointerior. Os jogos da seleção deviam ser filmados em longos planos geométricos (vertente Pascal) e transmitidos a preto e branco — uma celebração.

Celeste Ng x Rachel Kushner

Portei-me bem e não abandonei o livro. No fim, continuo a achar que “Pequenos fogos em todo o lado” podia ser a consequência satisfatória de um curso de escrita criativa e nada mais do que isso. Nota-se demasiado o esforço de composição, quer da trama quer das personagens e, apesar do título promissor, os fogos são tão pequenos que se apagam com um sopro, não é preciso chamar os bombeiros, nem fazem tábua rasa de nada. A aflição do livro é meramente ilustrativa, como se costuma dizer na publicidade. Cheia de ligeireza, apetece-me classificar Celeste Ng como uma promissora pré-argumentista — e é um pau.

Claro que a minha opinião é mais severa porque li há uns meses “Os lança-chamas”, de Rachel Kushner, acabei por estabelecer um paralelo entre os dois livros e Kushner ganhou o round. Durante a leitura d’ “Os lança-chamas” fui aderindo a tudo: às personagens, à montagem, à variedade de histórias sobrepostas, ao fulgor, ao ritmo polifónico, à mistura entre documentário e ficção.

Carregan…

Mobilidade social

Percebemos o esvaziamento da palavra educação de manhã ao passar à porta do Colégio do Rosário (escola privada sempre com bons resultados nas listas do ministério). Nos dias de aulas, o passeio está ocupado por carros de grande cilindrada que deixam apenas uma nesga para continuarmos o nosso caminho. Neste caso, dizem os compêndios, era útil transformar-me em cavalo e fazer tremer o rei, todos os reis.

Algoritmo

“O algoritmo tenta sempre procurar algo um pouco mais controverso em relação ao que você pesquisou, de maneira que as sugestões que ele te mostra são invariavelmente mais radicalizadas com a intenção de te prender na plataforma”, explica Marco Bastos, professor associado do departamento de Sociologia da City, Universidade de Londres. De uma busca inicial por um discurso de Donald Trump, por exemplo, em poucos cliques é possível cair em um vídeo de conteúdo neonazi.
Revista Cult.

Três variações ainda mais radicais do algoritmo

a) De uma busca inicial por um livro de José Rodrigues dos Santos, por exemplo, em poucos cliques é possível cair num vídeo sobre Dostoiévski.

b) De uma busca inicial por uma novela da TVI, por exemplo, em poucos cliques é possível cair num vídeo sobre Béla Tarr.

c) De uma busca inicial pelo último disco dos Xutos, por exemplo, em poucos cliques é possível cair num vídeo sobre Karlheinz Stockhausen.

A natureza humana

Já afixaram os cartazes de mais uma edição do BioBlitz. Descobrir a natureza do parque é uma ideia gira, mas este ano Serralves podia ter feito isto de forma mais arrojada: mantinha a vertente científica e empurrava a observação para o campo da antropologia.

— Por exemplo, convidava aquela personagem do Herman José com chapéu de explorador que se escondia atrás das palmeiras e, em vez da fauna e flora do parque, oferecia aos participantes uma perspectiva do conselho de administração de Serralves. Parece que tem espécies raros, delicados e ainda muito desconhecidos.

Orelha

À terceira, percebo que a orelha cortada de Van Gogh é a mesma que aparece no Amarcord, caída do céu, ninguém sabe como nem porquê.

Desenrolar uma linha

A maior parte das vezes não respeito as intenções. Ontem saí de casa a pensar n’ O sino de Iris Murdoch mas, ao passar pelas novidades da biblioteca, não resisti ao Henry James e a um livro que se chama “Pequenos fogos em todo o lado” de Celeste Ng.

A capa reproduz uma fotografia aérea de uma zona de casas, árvores, ruas secundárias, grandes avenidas, urbanizada com esquadro e muitas regras e isso agradou-me, assim como os textos comerciais de abertura sobre Shaker Heights (era uma cidade construída para carros e para pessoas que tinham carros) e o apelido Ng da autora (lê-se “ing”).

Deixei a Maisie em lugar visível para me provocar e avancei para os pequenos fogos. Logo desde o início, pareceu-me tudo muito previsível e regrado, isto é, apesar de Mia ou até por causa de Mia (a personagem que traz os desastres) o romance sofre um bocado do mal que pretende examinar. Agora estou a meio e percebo que o problema maior é que o livro, mesmo antes de ser adaptado à televisão, já utiliza a l…

Os vícios dos ricos

Manoel de Oliveira dizia muitas vezes que também os ricos têm alma. Lembro-me disso, não porque duvide do fundamento da existência, mas para equilibrar um pensamento menos polido de que me apercebo sempre que ando na linha 202: os ricos precisam de alguém que lhes limpe o cu.

A menos que fosse para insultar

Nunca fundei, lancei ou segui um movimento.
Fui surrealista, é um facto,
mas acho que devia sê-lo de facto,
e era-o de facto mas não quando lançava ou assinava manifestos a menos que fosse para insultar
um papa,
um dalai-lama, um buda,
um médico, um erudito, um padre,
um chui,
um poeta,
um escritor,
um homem,
um pedagogo,
um revolucionário,
um anarquista,
um cenobita,
um eremita,
um reitor,
um iogui,
um ocultista.

Antonin Artaud, Para acabar de vez com o juízo de Deus e outros textos finais (1946-1948). Tradução de Pedro Eiras.

Lugar do Facho, Largo dos Pescadores.

Avançamos por ruas estreitas de paralelo no meio de campos — de um lado um monte de pneus, do outro florzinhas amarelas. Vamos de Lavra para Vila Chã em segunda, às vezes o carro quase não passa. Não há nada de bonito em redor: moradias antigas de tinta escura e gasta, uma casa desenhada por arquitecto perdida, o mar muito perto, o cheiro a bosta. Tudo em desarmonia. Drogaria do Casal, café Paulinha, pichelaria Ismael. Ultrapassamos um tractor. Paramos junto à lota para fumar um cigarro. Há por ali uns homens que se vão embora passado um bocado. Ficamos sozinhos com dois gatos e a santa de manto azul e flores frescas dentro de uma caixa de vidro. Não percebo porque é que gosto cada vez mais deste tipo de paisagens. Deve ser o envelhecimento.

120 dias que nunca acabam

Não sei bem o que escrever sobre a versão de Os 120 dias de Sodoma, de Milo Rau, mas preciso de o fazer. Preciso de parar o mundo por um instante para conseguir pensar melhor. Que coisa foi aquela que vi no teatro? O que aconteceu naquele palco? Que verdade terrível aqueles actores lançaram-me à cara com uma violência difícil de suportar? Como é que mexeram com os dedos pela minha parte de dentro? Como torceram a minha carne? A versão de Pasolini, tal como se diz a certa altura, é composta por figuras de luz. É cinema. No teatro, porém, os actores estão vivos, têm cheiro, transpiram e movem-se à nossa frente. A ficção veste pele humana.

Jules Janin escreveu, em 1834, na Revue de Paris: «Não se iludam, o Marquês de Sade está por toda a parte, vive em todas as bibliotecas, numa prateleira misteriosa e tão oculta que sempre se descobre.» Se tivesse de resumir tudo numa frase, talvez escolhesse esta de Jules Janin. Quanto mais escondemos Sade nas prateleiras do fundo, mais ele se torna vi…

Às vezes, por mero acaso,

estabelecemos relações entre duas coisas que não têm nada ou apenas pouco a ver uma com a outra. A fotografia de Martin Parr misturou-se com a leitura de “A doce pomba morreu” sem eu dar conta e, mesmo não acreditando no diálogo entre os dois, comecei a ver as antiguidades de Humphrey, o chiffon e outros tecidos vaporosos de Leonora, os casacos de tweed de James, as paredes forradas a papel, com as cores saturadas de Parr.

(A palavra javardice aplica-se aqui na perfeição, mas claro que é preferível dizer “contaminação”.)

De qualquer das formas, para aliviar a intensidade das cores, hoje de manhã resolvi comprar frésias e camélias e dispô-las numa jarra antiga. Sigo para o “Quarteto no outono”. Por este andar vou acabar a fazer bolos às camadas.

Ah look at all the ordinary people

Escolhi esta imagem inspirada numa leitura apressada do texto do António Guerreiro. Achei que (para além dos chapéus de Martin Parr ficarem bem perto aos sapatos vermelhos de Mark Power), de alguma forma, a fotografia de Parr representava a transformação dos pobres em classe média e também para mais tarde me lembrar de seguir um raciocínio que começa aqui e sabe-se lá onde vai parar. Mas já percebi que me meti numa alhada.
Martin Parr. Kentucky Derby. USA. 2015. © Martin Parr | Magnum Photos

Ver é o mais difícil

É uma questão de cozinha. O bom acompanhamento aprofunda e realça o sabor do detalhe. E o mau acompanhamento abafa-o: não nos permite apreciar a materialidade de uma situação, a particularidade deste ou daquele detalhe da realidade. Não nos permite saborear o mundo desde uma perspectiva singular, a perspectiva de alguém. O esquema teórico substitui o detalhe em vez de o intensificar. E então todos os detalhes sabem igual. Reconhecemos assim um mau autor.
Amador Fernández-Savater.

Isto é como o Ticiano, que depois de pintar ia lá e esborratava com os dedos. Eu preciso de estragar um bocadinho para depois ver.
Rita Azevedo Gomes.

Disrup·ti·vo 

É o ataque mais constante do nosso tempo mas, porque a perda que provoca é uma perda de possibilidades e não de objectos, deixa a maior das pessoas indiferente. O ataque à linguagem não é uma acção concertada, nem sequer é uno, são diversos assaltos e têm objectivos diferentes; quando se juntam, resultam numa força destruidora colossal.

Já estamos para lá dos eufemismos, essa suavidade falsa que tomou conta da linguagem cortando as arestas dos nossos pensamentos e gestos. Os trabalhadores transformados em colaboradores e de uma forma geral a economia embrulhada em gaze para melhor nos escapar. Para além dessas palavras tão difundidas, tão gastas que já não dizem nada, é só um bocejo. "Zona de conforto" para aqui, "zona de conforto" para acolá, mas que raio é que isso quer dizer? Porque é que repetem esta ladainha? Lembram-se do incêndio do Funchal e dos que se seguiram no continente? Foram todos “dantescos” — toda gente o disse e repetiu até à exaustão. Até que &qu…

Se o Marquês de Sade fosse jardineiro

Mas as flores que perfumam o ar de forma mais deliciosa, não como as outras quando passamos junto delas mas quando as calcamos e esmagamos, são três: a pimpinela, o tomilho-serpão e a hortelã. Devemos, pois, cultivar grandes canteiros destas flores, para as gozardes enquanto passeamos ou as calcamos.

Francis Bacon, Dos jardins, 1625. Tradução de João Almeida e Maria Ramos.

Caprichos e galopes

Apesar de separadas apenas por um espelho, dificilmente consigo aproximar l’affaire francesa — tão cosmopolita e misteriosa, quase sempre singular — dos afazeres rotineiros que vão enchendo a nossa vidinha.

Nível avançado

Everly estava no chão, a ler e a ver televisão ao mesmo tempo, uma habilidade que andava a desenvolver. Willy dizia que era possível fazer as duas coisas em simultâneo desde que decidíssemos qual delas era o ritmo e qual a melodia. O nosso espírito decidiria como organizar e absorver duas actividades diferentes, desde que a uma delas chamássemos maior e à outra menor. Ele ouvia música e lia a PopularMechanics, e dizia que conseguia cantar e escrever uma carta ao mesmo tempo, fazer somas e subtrações enquanto fazia pão de milho. Dizia que, se Everly praticasse, poderia chegar a um ponto em que o espírito dela conseguia absorver duas melodias ou dois ritmos — coisas de igual valor — sem perder nada de nenhuma delas. Mas que esse era um nível avançado.

Telex de Cuba, de Rachel Kushner, tradução de Jorge Pereirinha Pires, Relógio d’ Água, páginas 302 e 303

Mal-estar

Eugène Ionesco queixa-se várias vezes, em A Busca Intermitente, da sua obstipação crónica e das constantes crises hemorroidárias, que quase o impedem de escrever.

Vassili Grossman, por seu lado, dedica várias páginas, em Bem Hajam!, aos terríveis desarranjos intestinais que experimentou em diferentes ocasiões sociais, na Arménia, e que o conduziram ao limiar do desespero. Durante um desses episódios, chega a considerar a hipótese, logo afastada, de estourar os miolos para escapar à vergonhosa catástrofe: «Se tivesse comigo um revólver… Mas não, por certo que não me daria um tiro na cabeça. Teria sofrido uma vergonha pungente, inédita, tornar-me-ia uma lenda obscena, um herói do folclore grosseiro, mas não me mataria a tiro.»

A natureza está sempre a pregar partidas muitíssimo misteriosas à literatura. Que estranhas e secretas ligações há entre a escrita e os intestinos? Pudesse a literatura livrar-se das desordens e angústias do corpo, e o que restaria dela?