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Mensagens

A mostrar mensagens de Julho, 2014

Desmayo

Praestantia Prestantia

Há um pequeníssimo ponto, do tamanho de uma cabeça de alfinete, situado na parte posterior do lóbulo da orelha, no verso – se assim se pode dizer – do antítrago, a que os médicos e anatomistas nunca dedicaram especial atenção. Portanto, como ninguém identificou ainda esta zona, se me for permitido atribuir nomes às coisas descobertas por mim, que seja chamada “ponto de sua excelência” ou “ponto de monsenhor”. Praestantia Prestantia, na nomenclatura anatómica.

Dois passageiros numa carruagem de comboio

Numa carruagem de comboio, viajam dois passageiros. Um deles não tem um braço. É maneta, portanto. Quer dizer, é aleijado. Defeituoso, tolhido. Privado da harmoniosa proporção, obra enganadora da natureza, erro de formação. Imagino como lhe será difícil andar de bicicleta. Não é impossível, mas é difícil.
Como terá ele perdido o braço? Presumo que por uma série de desafortunadas circunstâncias. Vitima de uma tragédia terrível numa noite escura. Salvo talvez da morte por um milagre. Podia entregar-me agora a mil reflexões penosas sobre as mil maneiras de perder um membro, mas não quero alongar-me neste ponto. A respeito de tais assuntos, o mais seguro é sempre não dizer nada.
Há outro tópico importante que talvez mereça mais atenção. O tópico é este: onde estará o braço neste momento? O que andará a tramar? Um braço sozinho, sem ninguém a vigiar. Um descalabro. Só de pensar nisso sinto-me doente. Imaginem-no, a pavonear-se nas ruas, nos cafés, nas esplanadas, a saltar daqui para acolá,…
- Estou a aprender a escrever, agora que a idade já me pesa - disse o pai, quase com uma sensação de vergonha -, de resto, os caracteres no estilo Fujiwara não são de todo inúteis para desenhar os tecidos, não te parece? - … - O pior que tudo é que a minha mão já treme. - E se os escrever maiores? - Bem, talvez…
Yasunari Kawabata, Kyoto. Tradução de Virgílio Martinho.

A sexta de Mahler

A sexta sinfonia de Mahler exige uma orquestra de dezasseis primeiros violinos, dezasseis segundos violinos, doze violas, doze violoncelos, doze contrabaixos, quatro flautas, quatro oboés, um clarinete em mi bemol, três clarinetes em si bemol, um clarinete baixo em si bemol, três fagotes, um contrafagote, oito trompas, quatro trompetes, três trombones, uma tuba, duas harpas, uma celesta, timbales, pratos, tamborim, um pedaço de matéria acabrunhada e murcha, uma bicicleta de rodas de raio desigual, uma bengala, um elevador, um dirigível e um pêssego (caroço e polpa).

De modo algum!

Deus-nosso-senhor criou uma língua universal, e é por isso que ninguém o leva a sério. Uma língua é uma utopia. Deus pode dar-se ao luxo de não ser bem sucedido: Dada também. É por isso que os críticos dizem: Dada é um luxo ou Dada está com o cio. Deus é um luxo ou Deus está com o cio. Quem tem razão: Deus, Dada ou o crítico?
- "Você desvia-se", diz-me um simpático leitor.
- Olhe que não, de modo algum! Só queria chegar à conclusão: subscrevam Dada, o único empréstimo que não dá lucro nenhum.

Tristan Tzara, Manifesto sobre o amor débil e o amor amargo.

Cerveja, salsichas e sanduíches

A 1 de Fevereiro de 1916, Hugo Ball fundou o Cabaré Voltaire. Ball tinha feito um acordo com o Sr. Ephraim, proprietário do boteco Meierei, que ficava no Niederdorf, um bairro mal-afamado na bem-afamada cidade de Zurique. Ball prometeu ao Sr. Ephraim que, através de um cabaré literário, as vendas de cerveja, salsichas e sanduíches iriam melhorar.

Hans Richter, Dadá: Arte e Antiarte.

Programa para hoje

Mastigar vidro,
perfurar a língua com alfinetes,  pregadeiras, agulhas  de fazer malha,  engolir pregos,  lâminas de barbear  e lâmpadas (incluindo o  filamento de volfrâmio),  deitar sobre camas eriçadas,  carvões ao rubro,  serpentes venenosas  e crocodilos,  como um faquir.

Não é anedota ou lenda, é uma certeza fundamentada em documentos

Shakespeare ergueu a mão em amplo e raro gesto lírico, respirou fundo e rebentou numa risota, gargalhando com estardalhaço. Nos olhos, apareceram-lhe clarões deslumbrantes, provocados pelo riso incontrolável. Eram tais as gargalhadas, que por um triz não lhe caíram os queixos. E então, agarrado à barriga de tanto rir, Shakespeare morreu.