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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2018

Terminar é começar

Uma linha pode ter um princípio e um fim. Um círculo não tem uma coisa nem outra. O círculo é um movimento perpétuo. Como a Terra que gira em torno de si mesma e em torno do Sol. Como a lua que gira em torno da Terra e todas as luas que giram em torno dos planetas. Como todos os planetas que giram em torno de si mesmos e em torno do Sol. Toda a vida é circular. Eis a lei inescapável. Nascemos, vivemos, morremos e da nossa matéria surgirá outra vida, e desta outra ainda.

Ou digamos que o fim precede o princípio,
E que o fim e o princípio estiveram sempre ali
Antes do princípio e depois do fim.
E tudo é sempre agora.
(T. S. Eliot, Quatro Quartetos.)

O mundo gira sobre si mesmo, o mundo novo e o mundo velho, o mundo velho e o mundo novo, e todos repetimos o mesmo movimento. Giramos sobre nós mesmos, numa espécie de instinto de defesa, que inevitavelmente nos afasta do mundo. O mesmo acontece com as sociedades, as regiões, os continentes, a política. O círculo define uma fronteira entre o que…

341 - O peso mais pesado

E se, um dia ou uma noite, um demónio se viesse introduzir na tua suprema solidão e te dissesse: «Esta existência, tal como a levas e a levaste até aqui, vai-te ser necessário recomeçá-la sem cessar; sem nada de novo; muito pelo contrário! A menor dor, o menor prazer, o menor pensamento, o menor suspiro, tudo o que pertence à vida voltará ainda a repetir-se, tudo o que nela há de indizivelmente grande e de indizivelmente pequeno, tudo voltará a acontecer, e voltará a verificar-se na mesma ordem, segundo a mesma impiedosa sucessão... esta aranha também voltará a aparecer, este lugar entre as árvores, e este instante, e eu também! A eterna ampulheta da vida será invertida sem descanso, e tu com ela, ínfima poeira das poeiras!...» Não te lançarias por terra, rangendo os dentes e amaldiçoando esse demónio? A menos que já tenhas vivido um instante prodigioso em que lhe responderias: «Tu és um deus: nunca ouvi palavras tão divinas!»
Se este pensamento te dominasse, talvez te transformasse e …

Obras ricas em fosfato

Fechou as pastas e, desorientado, voltou a ceder à depressão. A fim de mudar a direcção das suas ideias, experimentou ler alguma coisa que o acalmasse e, na esperança de arejar o cérebro, recorreu a narcóticos literários, aquele tipo de livros que mais cai nas boas graças dos convalescentes e dos inválidos que não podem cansar-se com obras mais tetânicas e mais ricas em fosfato: os romances de Dickens.
Mas estes volumes produziram um efeito contrário ao que ele esperava: as suas amantes castas, as suas heroínas protestantes vestidas até ao pescoço, andavam nas estrelas e não iam para além de um baixar de olhos, de um corar, de um chorar de alegria e de um apertar de mãos. Esta pureza exagerada logo o precipitou num excesso oposto.

Joris-Karl Huysmans, Ao arrepio. Tradução de Daniel Jonas.

Of course he shot a fucking elephant

George Orwell’s biographer Bernard Crick lunched with the author’s widow, Sonia, at Bertorelli’s in London. They were talking about “Shooting an Elephant,” or, more accurately, about whether Orwell really did shoot an elephant in Burma. “‘Of course he shot a fucking elephant,’ Sonia shouted. ‘He said he did. Why do you always doubt his fucking word?’” Because, Crick replied, “he was a writer, not a bloody cub reporter.”
Geoff Dyer, Nothing But - The untruths of memory.

Explicação do mundo

Na arqueologia mexicana cada estátua, cada objecto, cada baixo-relevo, significam alguma coisa que significa alguma coisa que por sua vez significa alguma coisa. Um animal significa um deus que significa uma estrela que significa um elemento ou uma qualidade humana e assim sucessivamente. Estamos no mundo da escrita pictográfica, os antigos Mexicanos, para escreverem, desenhavam figuras e, mesmo quando desenhavam, era como se escrevessem: cada figura apresenta-se como um enigma a decifrar.

Italo Calvino, Palomar. Tradução de João Reis.

Ouro, jóias e festas

Existe um princípio elementar no marketing que afirma o seguinte: um produto deve «prometer» mais do que aquilo para o qual foi feito, deve proporcionar uma «experiência». Quer dizer, se um consumidor acreditar que ao comprar um gel de duche está a comprar, sobretudo, uma maneira nova e mais excitante de tomar banho, o marketing e a publicidade foram eficazes. Ao assistir a muito do teatro que se faz hoje entre nós, fico com a sensação de que uma boa parte dos criadores acompanha este princípio de proporcionar uma «experiência» ao público. Claro que o teatro é, por definição, uma «experiência». Mas que «experiência»? Parece-me que vivemos um momento em que se recorre a todos os truques - bons e maus - para transformar qualquer peça de teatro numa «experiência espectacular». Por vezes, parece que a relevância de uma peça se mede pela intensidade das gargalhadas e dos aplausos do público, como num programa de televisão emitido em prime time, mesmo que a peça seja o mais ibseniano dos dr…

Em defesa das coisas inúteis

Perante tais considerações é possível objectar que, enquanto a investigação tem sempre em mira uma utilidade concreta, o mesmo não pode ser dito do estudo, que, enquanto representa uma condição permanente e quase uma forma de vida, dificilmente pode reivindicar uma utilidade imediata. Aqui é preciso inverter o lugar comum segundo o qual todas as actividades humanas são definidas pela sua utilidade. Por força desse princípio, as coisas evidentemente mais supérfluas estão hoje inscritas num paradigma utilitário, recodificando como necessidades actividades humanas que sempre foram feitas apenas por puro prazer. Deveria ser claro, de facto, que numa sociedade dominada pela utilidade são justamente as coisas inúteis que se tornam um bem a salvaguardar. A essa categoria pertence o estudo. Aliás, a condição estudantil é para muitos a única ocasião para fazer a experiência, hoje cada vez mais rara, de uma vida que se subtrai a fins utilitários.
Por isso, a transformação das faculdades de human…

Da natureza dos coelhos

Quando o Manuel Resende regressou a Portugal, depois de longos anos emigrado em Bruxelas, instalou-se numa casa nos arredores de Santarém. Em volta da casa havia um terreno de lavoura e a ideia do Manuel era dedicar-se à agricultura. Ainda em Bruxelas, tinha estudado métodos de cultivo modernos, sustentáveis e amigos do ambiente, que dispensavam os químicos. Os progressos agrícolas do novel campino foram lentos, mas encorajadores. Nessa altura, as nossas conversas incluíam beringelas, tomates, pepinos e alfaces.
Tudo correu pelo melhor até ao dia em que apareceram os coelhos. Dezenas e dezenas de coelhos. Famílias inteiras de orelhudos arrasaram a delicada e biológica agricultura, e devoraram tudo até ao último pé de alface. O Manuel Resende nada fez para os impedir: roer beringelas sem químicos faz parte da natureza dos coelhos.
Hoje, é lançada em Lisboa a Poesia Reunida, do Manuel Resende. Hoje, é o dia em que os coelhos reaparecem para lhe devorar a horta. Nenhum poema, nenhum ver…