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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2018

Selfie de um sujeito reles, hidropata, zutista, hirsuto, inventor, mistificador, boémio e galhofeiro.

Mais sobre o sujeito aqui.

Possessão

Estava em casa e esperava que a chuva viesse, na versão da companhia Público Reservado, é o longo e lento bailado de cinco actrizes a dançar com um texto. É um daqueles raros momentos em que sentimos todo o poder das palavras, a prova cabal de todo o seu potencial eléctrico. Cinco corpos animados apenas por sílabas, como numa espécie de possessão. Cada gesto, cada movimento, cada inflexão ou pausa, é determinado pelas palavras. É por isso que não existe praticamente cenário, porque em lugar de objectos há vocábulos. É por isso que não existe música, porque o som que interessa é o das vozes. E é também por isso que os corpos se deslocam e dispõem no espaço de maneira rigorosamente matemática, porque a sintaxe tem uma ordem, um ritmo próprio, com acelerações e desacelerações, prolongamentos, repetições, ecos. Estava em casa e esperava que a chuva viesse não vale tanto pela construção literária — o texto de Jean-Luc Lagarce está entre A Casa de Bernarda Alba, de Lorca, e Danças a um Deus…

Agência de detectives

Este que é o último poema de Raymond Roussel foi publicado em 1932 embora, ao que parece, Roussel tenha parado de trabalhar nele em 1928. Obra de grande fôlego, Roussel refere a existência de várias versões inacabadas, redigidas durante a Primeira Guerra Mundial. (...) Provavelmente, só depois de ter terminado a respectiva redacção é que Roussel encomendou 59 ilustrações ao pintor académico Henri-Achille Zo, que conhecia pelo menos enquanto autor das ilustrações de Ramuntcho, de Pierre Loti. Contudo, não querendo entrar em contacto directo com ele, faz-lhe chegar através de uma agência de detectives instruções descritivas precisas, sem lhe dar a conhecer o texto. 

François Piron, Locus Solus. Impressões de Raymond Roussel.

Casque d'Or

Noite alta. Marie chega a um “hotel manhoso” (a expressão é de Truffaut) e é recebida pela “patroa”. Tudo acontece no silêncio, quase sem palavras, como num sonho. A “patroa” acompanha Marie ao longo de uma interminável e sombria escada em caracol. A ascensão arrasta-se numa demorada e lenta sequência, degrau após degrau, um andar após outro. Dir-se-ia que Jacques Becker exige que subamos a escadaria com Marie, que sintamos o mesmo esforço, a mesma angústia, a mesma secreta via crucis. A subida termina num quarto escuro, iluminado por uma simples vela e uma janela. A janela abre para uma praça onde está instalada uma guilhotina.
À primeira luz da manhã, o carpinteiro Manda, condenado à morte pelo crime de amar demasiado Marie, é conduzido ao patíbulo. Os guardas amarram o corpo a uma prancha de madeira, que ele mesmo podia ter feito com as próprias mãos, e colocam-no em posição. A lâmina desce, como um relâmpago, sobre o pescoço do condenado. O movimento veloz da lâmina é inversament…

Botânica

Georges Franju é um apaixonado pela botânica. Ou melhor, por um qualquer ramo secreto da botânica para o qual não existe nome. Olhos sem rosto começa e termina com árvores. Não existe praticamente um plano exterior onde não se aviste uma ou mais árvores. Altas, sombrias, vigilantes. E nas loucas tentativas do cirurgião Génessier em reconstituir o rosto da filha Christiane, desfigurado num acidente de carro, há a mesma obsessão botânica: o processo é idêntico ao de um enxerto. Génessier arranca a pele do rosto de outras raparigas e enxerta-o no rosto da filha. Ora, um enxerto é sempre uma forma de violência exercida sobre a natureza. E uma operação bem sucedida, tanto em botânica como na medicina, é sempre um triunfo do Homem sobre a ordem natural das coisas. No filme de Franju, porém, como em Frankenstein, de Mary Shelley, é a natureza que triunfa sobre a nossa vontade e os nossos sonhos de poder. No final, resta o corpo incompleto de Christiane, avançando como um fantasma por entre a…

Que seria de mim sem as minhas horas de escritório?

Tese 1

Porque o que dá valor à viagem é o medo. Ele destrói em nós uma espécie de cenário interior. Deixa de ser possível fazer batota - mascararmo-nos por detrás das horas de escritório e de fábrica (aquelas horas contra as quais protestamos tão fortemente e que nos defendem com tanta segurança do sofrimento de estarmos sós). Assim é que sempre tenho tido vontade de escrever romances em que os meus heróis dissessem: «Que seria de mim sem as minhas horas de escritório?», ou ainda: «A minha mulher morreu mas, por sorte, tenho um grande monte de expediente a redigir para amanhã.» Viajar tira-nos este refúgio. Longe dos nossos, da nossa língua, desligados de todos os nossos apoios, privados das nossas máscaras (não se conhecem as tarifas dos eléctricos e é tudo assim), ficamos inteiramente com a nossa aparência.

Albert Camus, Amor à vida. Tradução de Sousa Victorino.


Tese 2

Vilém Flusser costumava dizer que não tinha pátria, porque muitas pátrias se acumulavam nele. Sua «filosofia da migraçã…