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Fado da tristeza

Assim como já pensei traduzir mauvais demiurge por um adjectivo diferente a cada investida, aumentando com este subterfúgio o alcance negativo do demiurgo, também arranjei um truque semelhante para contornar a frustração de não encontrar uma palavra portuguesa que faça justiça ao  cafard francês. Basta juntar à nossa tristeza rasteira uma qualificação que a projecte mais para baixo — como se estivesse continuamente a cair num poço. A lista é infindável: negra, abismal, medonha, funesta, canalha, desgraçada, sinistra, fatal, cruel, lutuosa, sombria, soturna, malfadada, lúgubre, desditosa, inconstante, etc.  As melhores duplas são as que podemos imaginar na letra de um fado antigo. Demiurgo ( 1 , 2 e 3 ) | Cafard ( 1 , 2 e 3 )

Material circulante

Acho que arranjei uma solução para traduzir Mauvais Demiurge . Na verdade não é bem uma solução no sentido de desfecho, mas uma equação dinâmica: traduzir sempre de modo diferente. Transformar o adjectivo mauvais  numa palavra camaleão; a cada ocorrência (e são tantas), convertê-lo em variadas palavras que não se conseguem agarrar — tão esquivas como o  " trabalhador para o povo " .

Má rês

Já estava na cama quando traduzi de improviso le mauvais demiurge por demiurgo má rês (mais um para a lista ) . Utilizei (de forma oblíqua, sempre de forma oblíqua) a técnica açoreana de aportuguesar palavas inglesas . Para estabelecer equivalência fonética é preciso fechar as vogais, ensombrear a expressão, carregar um bocado no sotaque. Dito com o desequilíbrio necessário, até parece francês de imigrante.  Foi uma noite bem dormida.

Le mauvais démiurge — variações

(…) Decidi começar pelo início, que é um princípio tão bom como outro qualquer, e elegi como vítima da primeira tradução da minha vida Précis de décomposition , o livro com que Cioran iniciou a sua carreira de escritor em França. Os títulos de Cioran sempre me deram dores de cabeça e nesse caso resolvi traduzi-lo como Breviario de podredumbre  (Breviário de Podridão): assim evitava o som excessivamente intestinal de descomposición  em castelhano e, em troca, aproveitava a blasfémia insolentemente eclesiástica de breviario ...  Depois, encorajado pelo surpreendente eco público dessa primeira tradução (que culminou quando um empregado do bar da faculdade de filosofia me perguntou se pensava traduzir outro livro de Cioran, anedota que encantou o autor), dediquei-me ao que tinha sido o meu primeiro contacto com a sua obra: Le mauvais demiurgue . Mauvais ? Após dar muitas voltas, optei por convertê-lo em aciago  (aziago). Cioran, que lê e compreende muito bem espanhol, não ficou lá muit