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A mostrar mensagens de Julho, 2019

Anyone for cricket?

Às vezes a crítica literária marimba-se para análises e julgamentos; atira-se à matéria com tal vontade que dá origem a objectos excêntricos. A tradução do conto Bliss, de Katherine Mansfield, por Ana Cristina Cesar ou, descobri agora, os sete volumes de À Procura do tempo Perdido transformados em argumento por Harold Pinter (com a vantagem de nunca ter sido filmado).

Dr. Percepied: Well, I must be going. I have to look in to see Monsieur Vinteuil. Not in the best of health, poor man.

Father: Mmmnn.

Dr. Percepied: His daughter’s friend is staying with them again, apparently.

Father (grimly): Is she?


Bom, talvez já não se possa chamar a estes exercícios, crítica — mas então chama-se crítica a quê?

Influenciadores do século XX

Feliz Aniversário

Em Feliz Aniversário, de Harold Pinter, há um tipo que faz anos e cuja festa de aniversário se transforma numa espécie de paráfrase do Processo, de Kafka. Stanley, assim se chama o aniversariante, acaba preso por dois personagens (Goldberg e McCann) após um estranho interrogatório, que lembra a investigação policial a Josef K. Não é claro o «crime» de que é acusado. Também não é evidente que tipo de «autoridade» o acusa. No limite, Stanley é culpado de existir e, portanto, de fazer anos. O seu aniversário é o crime supremo.

STANLEY - Lamento muito, mas esta noite não estou com disposição para festas.
MCCANN - Não? Que maçada!...
STANLEY - Vou sair e festejar a data tranquilamente.
MCCANN - Não faça isso… (Pausa).
STANLEY - Se não se importasse de me deixar passar...
MCCANN - Mas já está tudo pronto. Os convidados estão a chegar.
STANLEY - Convidados? Quais convidados?
MCCANN - Eu, por exemplo. Tive a honra de receber um convite. (MCCANN começa a assobiar «The Mountains Morne»).
STANLEY - (Afas…

Ordesa

Que raio de ideia, substituir um título tão bom como “Ordesa” — que, mais do que uma palavra, mais do que um nome, parece uma pedra na boca — por uma frase vaga e até um bocado pretensiosa.
1. ”Andar com alguém" devia ser isso mesmo: andar lado a lado como nos filmes de Naruse.

2 . O dicionário diz que, neste caso, o verbo é transitivo e intransitivo. — Aprecio a contradição. Se continuarmos a ler, verificamos ainda que não se trata de um verbo copulativo. — Humor involuntário, também gosto.

3. Acho que nunca estudei os verbos copulativos. A gramática é uma coisa cada vez mais abstracta, complexa, inatingível. Imagino que o pessoal que trata do assunto trabalha num sítio parecido com a agência ultra-secreta dos Homens de Preto.

Ladrão que rouba a ladrão

Quando não há nada para escrever, nenhum motivo, nenhuma ideia, o que fazer? A resposta clássica é: escrever sobre o facto de não existir nada, nenhum motivo, nenhuma ideia, para escrever. Roberto Arlt, como qualquer escritor que viva de escrever crónicas para os jornais (espécie em extinção), era um especialista nessa nobílissima arte de «encher chouriços»:

Às vezes, quando estou aborrecido e me lembro de que num café que conheço se reúnem alguns senhores que trabalham como ladrões, encaminho-me até lá para escutar histórias interessantes.

E a partir daqui já nada o fará parar.

Falar de cor

Há vários dias que leio em diferentes textosdo Público a expressão «de cor» para designar as congressistas norte-americanas que Trump insultou com a ideia estúpida de «send her back». A que raio de «cor» é que os jornalistas se referem? Branca, preta, amarela, vermelha, às bolinhas azuis? Há pessoas «de cor» e pessoas sem cor? E as pessoas que não são «de cor» são como espectros? São transparentes? Ou têm cores estranhas como os mortos-vivos do George Romero?

Influenciadores do século XX

Obrigada, senhor Cohen.

“Bela do Senhor” começa nas últimas páginas do “Trincapregos” aliás, “Trincapregos” já vinha de “Solal” assim como “Bela do Senhor” se prolonga em “Os Valorosos”. É uma tetralogia que partilha sítios, personagens, ideias e frases; ler os quatro de seguida é como apanhar uma grande bebedeira.

A questão principal do livro talvez seja, de facto, a relação amorosa entre Ariane Cassandra Corisande d’ Auble, por casamento Daume, e Solal dos Solal. Mas reduzir “Bela do Senhor” a uma história de paixão é preguiça e muito errado. Trata-se de uma obra compósita, dinâmica e oh, maravilha! extremamente literária onde as palavras galopam e sucumbem (agradecimentos também aos tradutores que aguentam a agitação constante e, de novo, ao editor corajoso).

De forma impressionante, Albert Cohen retrata o crescimento do nazismo numa Europa complacente, ataca a burocracia e as rotinas sem sentido e sem responsabilidade da Sociedade das Nações, critica os homens lambe-botas e ambiciosos como Adrien Daume …

O lápis de barba azul

ora o livro
ora o lápis
ora a libação

a orelha dorme
debaixo das almofadas
feitas para asfixiar
os gritos do futuro

ora o livro
ora a oração

cada passo significa
um traço rasurado
noutro mapa mais ingénuo

mas o risco da correcção
reside precisamente
na chamada da atenção

para o que já esteve escrito
para a escrita do que lá estava.

Regina Guimarães, Caderno dos atalhos e dos becos, p. 73.

Tocar na mortalha de Cristo

O epicentro é mais ou menos aqui na zona do liceu Garcia de Orta, depois espalha-se até aos subúrbios. Meninas ricas, raparigas que cravam as mães, mulheres que fazem contas à vida ou não querem saber. O fenómeno dá-lhes o nome soberbo dos galgos: Bimbas y Lolas.

Há vários níveis, como nos jogos das consolas: as mais afortunadas compram malas originais; seguem-se os acessórios mais pequenos em saldo (porta-moedas ou porta-chaves, desde que evidenciem o logótipo); imitações a 15 euros em lojas de ocasião; no fim da linha, as senhoras da limpeza contentam-se com um vulgar saco de papel branco com o nome da marca impresso a preto, conquistado às patroas.

Todas sabem o que vale um símbolo, é como tocar na mortalha de Cristo.
Na última crónica, Álvaro Domingues escreveu sobre a solidão das torres. A imagem impressiona porque não a conseguimos compreender. A torre tão só, com a pequena estrada de terra batida a rodeá-la como o rabo dos gatos. Parece que vem de outra civilização, parece o monólito de Arthur C. Clarke — uma versão mais rasca do monólito, digamos assim.

Menos luz

É noite, estou deitada às escuras com os olhos fechados. Sinto uma luz, abro os olhos, mas não vejo nada. É uma luz interior. Não revela nada: nem objectos como é da natureza da luz, nem sentimentos como é da natureza das coisas interiores. Não significa nada.

Mais pessoas desconhecidas em álbuns de família

Três gaivotas

Gosto de me sentar no degrau da varanda a observar as crias de gaivota que nasceram e vivem no telhado em frente à minha casa. Não se parece nada com os documentários da televisão. Um plano de conjunto, fixo, ligeiramente inclinado, com muitos tempos mortos. Não há trama nem música nem comentários sentimentais. É quase cinema.

Observações avulsas sobre a boavista #6

— Ah, Rui Rio anda a ler Confúcio; mas em que língua?

By getting right the proper names of things 
Confucius said that order would commence,

Profound semicolon

Influenciadores do século XX

Vida e destino

O que Vassili Grossman não viu ou não conseguiu descrever por palavras em Bem Hajam! talvez se perceba com mais clareza nas Quatro Estações, de Artavazd Peleshian. E o que Peleshian não mostrou ou não conseguiu filmar, talvez se consiga ver no livro de Grossman. Ambos, Peleshian e Grossman, são Sísifos, condenados a intermináveis trabalhos em tempos difíceis. Longos e árduos caminhos, com subidas e descidas, numa luta permanente com as leis dos homens, dos deuses e dos elementos. Mas a palavra correcta será “luta”? Os pastores arménios que deslizam montanha abaixo, abrindo sulcos por entre a neve ou as rochas, protegendo com o próprio corpo as ovelhas, não retirarão algum prazer daquele trabalho? É que, no fim de contas, há ovelhas, livros e filmes, vivos. Ovelhas, livros e filmes carregados de vida.


“Quem anda de cabeça para baixo, minhas Senhoras e meus Senhores, quem anda de cabeça para baixo tem o céu como abismo por baixo de si.” 

O parágrafo de Rogério Casanova (do post anterior) é bom para percebermos como Robert Walser, ao passar por essa situação de lugar comum, coisa que acontece com muita frequência, toma um atalho que o leva directamente para o centro da floresta.

Walser não se entretém a desfazer o discurso, não dá passos para a frente e para trás, não se arma em irónico ou nostálgico, livra-se de todos esses artifícios com um “sim”: aceita a banalidade, utiliza a frase digna de uma personagem de Barbara Cartland conforme ela é num mundo de novo inocente — porque, ao contrário de Lenz, Walser consegue a proeza de andar sobre a cabeça quando quer — e tremendamente inquietante (como o branco assustador das aventuras de Arthur Gordon Pym). 

“Amo-a loucamente” pode dizer uma personagem de Walser. E é tudo verdade. Como nunca antes.

Desbravando corajosamente

o denso emaranhado semântico que envolve o "pós-modernismo" (um termo cuja definição começou por variar de disciplina para disciplina, e que acabou a variar de pessoa para pessoa), Umberto Eco reduziu-o a uma "atitude", que descreveu do seguinte modo: "Um homem que ama uma mulher culta sabe que não lhe pode dizer "Amo-te loucamente", pois sabe que ela sabe (e sabe que ela sabe que ele sabe) que a expressão já foi usada em livros de Barbara Cartland. A solução é dizer-lhe "Como diria uma personagem de Barbara Cartland, eu amo-te loucamente". Tendo evitado a falsa inocência, e admitido que essas declarações já não são possíveis, conseguiu todavia dizer o que queria dizer à mulher: que a ama loucamente, num mundo que deixou de ser inocente. (...)

Rogério Casanova, Conta-me como costumavam contar o que já foi contado, DN.

Um laburno

No pequeno jardim do Café Vitória, há um laburno. Uma árvore comum na Europa Central e nos Balcãs, mas relativamente rara em Portugal. É a árvore mais bonita da cidade. Está, neste momento, em plena floração. O jardim está coberto de milhares de flores amarelas, pequenas e delicadas. Se lhes pegamos, desfazem-se entre os dedos. Leio no dicionário que a madeira é utilizada na confecção de instrumentos musicais em lugar do ébano. E que aquelas flores, pequenas e delicadas, contêm citisina e que, por isso, são extraordinariamente venenosas.

no fim de contas, e no mais profundo,

“Reflexões sobre Bach ou sobre Kafka são sinais indicadores dessa pertença. De onde as conversas elevadas dos começos de um amor. Ele disse que gostava de Kafka. Então, a idiota fica extasiada. Ela crê que é por ele ser intelectualmente bem. Na realidade, é porque ele está socialmente bem. Falar de Kafka, de Proust, de Bach, é a mesma coisa que as boas maneiras à mesa, que partir o pão com a mão e não com a faca, que comer com a boca fechada. Honestidade, lealdade, generosidade, amor da natureza são também sinais de pertença social. Os privilegiados têm massa: porque não seriam eles honestos ou generosos? São protegidos desde o berço até à morte, a sociedade é suave com eles: porque haveriam de ser dissimulados ou mentirosos? Quanto ao amor pela natureza, ele não abunda nos bairros da lata. Para isso é preciso ter rendimentos. E a distinção, o que é senão as maneiras e o vocabulário em uso na classe dos poderosos? Se eu digo fulano e a sua dama, sou vulgar. Esta expressão, distinta há…

Pessoas desconhecidas em álbuns de família

Uma fotografia nunca conta apenas uma história, mas várias. Basta não olhar em frente, mas para o lado. Basta não fixar o olhar apenas no motivo principal, mas desviá-lo para as margens, como se o observador sofresse de uma espécie de estrabismo artístico. O que está na sombra, no segundo plano, desfocado, como em Blow Up, é quase sempre tão ou mais interessante do que o motivo principal da fotografia.

Na longa série de imagens Pessoas desconhecidas em álbuns de família, da dupla Lina&Nando, este jogo do gato e do rato ganha uma nova dimensão: que personagens se escondem, em segundo plano, nas triviais fotografias de família? Quem são estas pessoas que, por mero acaso, ficam presas para sempre em imagens que não lhes pertencem? Pessoas que se escondem, como espectros, atrás das personagens principais? Ou fantasmas irrequietos que se divertem a assombrar as fotografias? Pessoas que permanecem “desconhecidas” e invisíveis? Ou criaturas que exigem um lugar próprio na história de cada…

Ok. Show me.

Uma mulher a despir-se é um cliché característico da nossa civilização. Museus, calendários, revistas, anúncios, livros ou filmes estão cheios de imagens desse tipo. A melhor cena que conheço é do Vertigo: Alfred Hitchcock inverte completamente a situação, em vez de se despir, Kim Novak veste-se, mas com as roupas de uma mulher morta — no contracampo, vemos John Scottie em êxtase. A segunda melhor cena, revi-a há bocado. É do filme Christine de John Carpenter. O Plymouth Fury 1958 foi completamente destruído, Arnie Cunningham está destroçado e não sabe o que fazer até que o rádio começa a tocar Harlem Nocturne (The Viscounts) e Christine reconstrói-se por si mesma.

Influenciadores do século XX

Do lunfardo