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Manguito

A imagem mostra uma menina sorridente a posar junto à carcaça praticamente intacta de um míssil. O «fotógrafo» é um adulto, talvez o pai, que também sorri, enquanto escolhe o melhor ângulo para fotografar a criança. O local é Salfit, na Cisjordânia , e a bomba é o que resta de um míssil iraniano interceptado pela defesa antiaérea israelita. À primeira vista, parece uma prova grotesca daquilo que, imagino, a guerra faz aos humanos: seres fechados na insensibilidade e na indiferença para não caírem no desespero e na loucura. Mas talvez não seja isso que a imagem mostra. Talvez a menina e o homem sorriam simplesmente porque estão vivos. Escaparam à «morte e destruição vindas do céu», como o secretário da Defesa de Trump classificou com orgulho a chamada «Operação Fúria Épica», que os Estados Unidos e Israel movem, neste momento, contra o Irão. A imagem é a prova de que a vida, mais uma vez, fez um manguito aos senhores da morte.

Reconversão

Notícia no jornal: «A Volkswagen estará a discutir um plano para reconverter a sua fábrica de Osnabrück, na Baixa Saxónia, passando da produção de carros para a produção de componentes para sistemas de defesa aéreos – especificamente, o sistema Cúpula de Ferro, da empresa Rafael Advanced Defense System, grupo detido pelo Governo de Israel.» A história não se repete. Não se repete?

Como resistir?

Antes de sair para o trabalho, ouço o noticiário da rádio e já não consigo pensar senão no óbvio: as palavras não são imortais. As palavras sofrem em certas bocas. São aprisionadas, envenenadas, torturadas, despedaçadas. Mergulhadas em aço líquido, ódio, peste. Enlouquecem de dor. E o que podemos nós fazer? Se não conseguimos salvar as palavras, não conseguimos salvar-nos a nós mesmos. A nossa sensação de impotência é o triunfo da tirania. Como resistir? Como salvar as palavras para nos salvarmos a nós?

A coisa de que falais

Hamlet começa de noite. O fantasma do rei aparece, exigindo vingança. A aparição repete-se, uma e outra vez. «A coisa de que falais apareceu outra vez esta noite?» Sim, nas rádios, nos jornais, nas televisões, em toda a parte. Todas as noites, a toda a hora, onde quer que exista um ecrã, a «coisa» aparece, impelindo-nos à vingança e à guerra «pelo céu e pela terra» . A História é teimosa, não dá tréguas.

É só um intervalo entre guerras

«O resto é silêncio», diz Hamlet antes de morrer. São as suas últimas palavras. Mas o que resta não é silêncio, mas o barulho mudo da próxima guerra a aproximar-se. «Como muitas vezes antes da tempestade vemos/ Um silêncio nos céus, e a terra em baixo/ Tão muda como a morte./ Logo o trovão terrível rasga a região.»

Círculos

Uma amiga diz-me que as imagens que a televisão mostra de Gaza lhe lembram Alemanha, Ano Zero . Andamos às voltas e regressamos sempre ao ponto de partida. Como o gato de que Meyrink fala no Golem : «Tinha uma ferida no cérebro e andava em círculos, titubeando.»

Horror

Guerra, assassínio, ódio, genocídio, extrema-direita. Parece tudo tão óbvio, tão ostensivo, como um murro no estômago. A repetição de um filme de horror já visto. E, no entanto, não consigo evitar a permanente sensação de que os jornais usam uma língua que não conheço, uma escrita feita de hieróglifos impossíveis de decifrar. A terrível sensação de que falta sempre uma peça ao conjunto. Qualquer coisa que só irei compreender no último momento, quando o tempo se tiver esgotado. Aquilo que Karl Kraus viu desde o princípio e que eu não consigo ver. Ou que — e este é o drama — prefiro não ver.

Oráculo

O tempo arrefeceu e fui desenterrar do armário um casaco mais quente. Do fundo dos bolsos, saltaram duas máscaras dos anos da pandemia. Como os velhos adereços do oráculo numa tragédia.  A peste não vai acabar. E a guerra, como papagueiam os comentadores mais excitados, é «eterna».

Violência, tortura, morte e efeitos especiais

Faz hoje um ano que os militares russos invadiram a Ucrânia. Para assinalar a data, a Antena 1 (estação pública de rádio) criou um separador com uma espécie de «música épica», meio pop, meio Wagner de fancaria, acompanhada por uma voz grave a debitar umas banalidades excitantes sobre a guerra. Uma coisa tão séria e informativa como o trailer de um filme de super-heróis de Hollywood.

Barba e cabelo

Leio no jornal que o novo comandante militar russo na Ucrânia, Valeri Guerasimov, elegeu como uma das prioridades a higiene e a apresentação física dos soldados que combatem no terreno, incluindo o tamanho da barba e do cabelo. A sensação é a de que estamos a assistir a uma representação dos Últimos Dias da Humanidade , de Karl Kraus. Uma nova «leitura» ou «actualização», como se diz no teatro. E não é preciso «actualizar» demasiado.

Deplorável atentado do estado russo contra a iniciativa privada

Leio no jornal que a tomada da cidade ucraniana de Soledar foi reivindicada pelo administrador do grupo de segurança privada Wagner. A declaração surgiu depois de um comunicado em que o Ministério da Defesa russo anunciava a tomada da cidade pelo exército regular. Em resposta, «o líder do Wagner, Ievgeni Prigojin, denunciou as tentativas de “roubar a vitória” à sua empresa por parte do aparelho militar russo» .

Urnas com cinzas são mais fáceis de transportar

Mas, em toda a Grécia, os que partiram com os Átridas deixaram em suas casas um luto que oprime a alma e mil preocupações que assolam o coração. Sabe-se quais os que partiram; agora, em vez de homens, são urnas e cinzas que regressam a cada casa. Ares, o que transforma os vivos em mortos e é fiel da balança nas batalhas, envia de Ilion aos parentes o pó das fogueiras, o que lhes arranca lágrimas amargas, fazendo deles, em vez de homens, cinzas que enchem as urnas fáceis de transportar. (...) Terríveis são os propósitos do povo animado pelo ressentimento, e sempre a maldição popular pagou a quem lhe deve. Sinto-me angustiado pelo medo de assistir a alguma trama tenebrosa, pois aqueles que fazem correr sangue nunca escapam aos olhares dos deuses. Um dia virá, no curso das vicissitudes que consomem a nossa vida, em que as negras Erínias destruirão o homem feliz que menosprezou a justiça, e não há qualquer apelo para aquele que elas fazem desaparecer. Ésquilo, Agamémnon . Tradução de Virg...

Sarajevo VI

Últimos momentos em Sarajevo. Apanhamos um táxi para a central de autocarros. Num semáforo, o taxista aponta para um edifício moderno e feioso com uma cruz no telhado. É uma igreja católica erigida depois da guerra e que permaneceu inacabada durante anos por falta de dinheiro. A obra só foi concluída, diz o taxista, graças à ajuda de um muçulmano rico da cidade. Faz uma pausa e acrescenta: «Isto é a Bósnia.» Não sei se o taxista inventou a história. E se inventou, não sei se o fez por nós ou por ele. É uma bela história. Agradeço que a tenha contado. Tal como se inventam histórias para justificar a guerra, também se criam outras para construir a paz.

Sarajevo

O hotel fica numa rua relativamente estreita, que conduz directamente à avenida principal da cidade, a avenida do Marechal Tito. De um lado e do outro, prédios de quatro ou cinco andares, construídos entre os anos 60 e 70. Edifícios banais de habitação, como quaisquer outros de qualquer outra cidade da Europa Central. Fachadas manchadas pelo fumo dos carros, varandas com mesas e cadeiras de praia, janelas com venezianas. Mas se olharmos com mais atenção, as fachadas destes prédios são tudo menos banais. Há marcas de bala e de estilhaços de morteiro um pouco por todo o lado. No edifício em frente ao quarto do hotel conto mais de vinte destas marcas. Não se vêem de imediato, é preciso afastar um pouco a cortina.

Fadiga da Ucrânia

Os analistas e comentadores encontraram um termo novo para embrulhar os tópicos relacionados com a guerra: a «Fadiga da Ucrânia». O termo não se refere ao cansaço dos ucranianos após meses de guerra, morte e destruição, mas ao nosso cansaço no chamado «Ocidente». Segundo os analistas e comentadores, «o cansaço já é visível». E é visível onde e em quê? Um artigo de hoje no Público explica: «As interacções nas redes sociais (likes, comentários, partilhas) caíram 22 vezes entre a primeira semana da guerra e a última semana de Maio: de 109 milhões para 4,8 milhões. (...) Durante um período de seis semanas, entre Abril e Maio, houve seis vezes mais interesse em notícias sobre o caso Johnny Depp-Amber Heard do que sobre a guerra na Ucrânia.»

Ninguém sabe

O comentador, vestido de cinzento, repete várias vezes num tom grave, sábio e definitivo: «Ninguém sabe quando e como esta guerra vai terminar.» Oh, e alguém sabe como é que os delicados ombros do comentador vestido de cinzento suportam o peso de tão laborioso pensamento?

Punhal

No conto de Borges, há um punhal fechado na gaveta de uma secretária que sonha com uma mão. Um punhal que não é usado é um objecto inútil, sem préstimo. Mais cedo ou mais tarde, a lâmina reclamará a sua libra de carne. Punhais, balas, tanques. Mísseis adormecidos em gavetas de aço e betão. Que sonhos terríveis povoam o seu sono agitado?