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Quando se está num lugar que não é lugar nenhum...

Não tive tempo para ler o título nem o nome do realizador, quando entrei na sala o ecrã estava negro, ouviam-se apenas sons de estrada — era o primeiro plano de um filme anónimo. Depois, pouco a pouco, a paisagem e as vozes dos dois velhos japoneses — o segundo plano que se estende até ao fim, sem corpos de actores, sem qualquer movimento da câmara; pelo contrário, é o nevoeiro que avança e recua fazendo-nos ver coisas e sombras onde existem árvores, pedras e sombras. O lugar é belo e desolado. O primeiro homem assusta-se com o segundo homem, toma-o por um fantasma, como numa história de Junichirô Tanizaki. Mas têm a boa vontade de quem passa muito tempo sozinho e começam a conversar. Falam com uma tristeza mais ou menos alegre do passado, das histórias que os amedrontavam quando eram crianças. Histórias de raposas que se transformam, como para nós os lobos (o eterno medo da metamorfose, de não estarmos nunca seguros de quem é o outro — e também nós somos sempre o outro de alguém)...

Cada bicho com seu gosto

Já não lia Junichirō Tanizaki há bastante tempo, não sei se foi por isso que me entusiasmei tanto com Alguns preferem Urtigas . Mesmo assim ainda consigo apontar três causas mais ou menos racionais: é o livro de ficção de Tanizaki mais perto do ensaio Elogio da Sombra com tudo o que isso implica de atracção imediata; apesar da dimensão o arrumar nas novelas (ou até, por distracção, nos romances), usa a estrutura dos contos — poucas personagens, pouco enredo, um final magnificamente sincopado; faz lembrar um filme de Antonioni, um filme que Antonioni tivesse feito no Japão, um filme perdido.

Japoneses desconhecidos

Ontem fui ver Cada Um Na Sua Cova , de Tomu Uchida. À minha direita estava uma mulher japonesa de idade indefinida, vestida quase como eu. — Deve ser a minha dupla japonesa . No fim do filme senti-me tentada a segui-la, mas desisti. Pode ser que a encontre de novo hoje.

Ah, o Japão!

Este japonês que diz que é preciso compreender o « ah !» das coisas. Cocktail em casa de uma jovem japonesa. Temos de aprender o sorriso nipónico . O resto é acessório.  Emil Cioran, Cadernos 1957-1972.

Querido Ozu,

o Japão está a ganhar a guerra.