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Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2019

Querido, onde é que estão os verbos?

Ainda sobre regras para escrever bem ou seguir um método que nos parece adequado (ambas as resoluções são becos sem saída), há uma história muito gira e bastante radical que o George Saunders conta na nota final de “Guerracivilândia em mau declínio”. Depois da fase Hemingway/Babel/Carver, Saunders tentou uma escrita ao jeito de Joyce/Lowry/Lawrence e escreveu um romance com o título “La boda de Eduardo” inicialmente com 700 páginas, reduzidas para 250 mas mesmo assim intragáveis, quase sem verbos e cheias de substantivos compostos. Pediu à mulher uma opinião sobre o manuscrito, ela desistiu ao fim de alguns minutos e, com extrema concisão e justeza, disse-lhe o seguinte:

— Todas aquelas horas, para isto? Querido, onde é que estão os verbos? Puseste-os num documento à parte, ou quê? E o que é aquilo com as palavras compostas e os joguinhos de palavras e toda aquela desesclarecedora embrulhada?

Últimas aquisições

No n.º 35 da «Imagem - revista de divulgação cinematográfica», datado de Novembro de 1960, Eurico da Costa e Manuel Villaverde Cabral, no «quadro da crítica», despacham «Intriga Internacional», de Alfred «Hitchkock» (sic) com duas rotundas bolas pretas, quer dizer, com a classificação de “sem interesse”. Alberto Seixas Santos, mais generoso, dá ao filme duas estrelas em quatro possíveis, que correspondem à classificação de “Bom”.
Mais à frente, no artigo de crítica ao filme, Seixas Santos afirma: «Não sou dos que tomam o nosso autor por um génio da metafísica, mas não quero também cair no pecado contrário e julgá-lo um imbecil.»


O n.º 273 do «Jornal de Letras & Artes», de Janeiro de 1970, abre com um anúncio de página inteira do Banco Pinto & Sotto Mayor intitulado «Esclarecimento sobre o Cartão Sottomayor», onde se explica o funcionamento do cartão de crédito bancário, «processo novo em Portugal, mas utilizado já em larga escala num grande número de países.»
«Consiste este s…

Escrever bem

Não li a entrevista de Miguel Esteves Cardoso, mas também não pretendo analisá-la, apenas perder algum tempo com o título porque é bastante interessante. Durante a conversa, Miguel Esteves Cardoso afirmou “sou extremamente inteligente, tenho um grande sentido de humor e escrevo muito bem” e a jornalista destacou a frase para as letras gordas.

É um enunciado muito categórico — parece uma seta lançada com intensidade para as alturas desconhecidas, cada um dos atributos impulsionando o seguinte.

Mas na verdade, extrema ironia, a flecha cai ao chão logo a seguir ao sentido de humor; “escrever muito bem” é um desgosto na vida de Miguel Esteves Cardoso. Para quem sabe o que a literatura é (e Miguel Esteves Cardoso sabe tremendamente) “escrever bem” é uma merda. Ser austero nos adjectivos e advérbios é uma regra boa para redigir relatórios.

Influenciadores do século XX

Revolução

A ideia é revolucionária. O automóvel é revolucionário. O detergente para a roupa é revolucionário. Os produtos para o cuidado da pele são revolucionários. Os champôs para a queda do cabelo também. Os produtos financeiros são revolucionários. Os bancos são revolucionários. As conferências, palestras, seminários e workshops são revolucionários. O último disco de Lady Gaga também é revolucionário. Aquele canal de TV é revolucionário. Qualquer discurso de Marcelo Rebelo de Sousa é revolucionário. O Papa Francisco é absolutamente revolucionário. A revolução é revolucionária. A revolução é tão revolucionária como o mais revolucionário dos produtos de marca branca do Pingo Doce.



Pantone 1375 C

Trouxe laranjas para o trabalho. Tenciono comer uma a meio da manhã. Demoradamente.
Deve ser a isto que os especialistas chamam soft power.

Com a agilidade de um verdadeiro caçador diante de sua presa

Já desisti de Serralves há alguns anos. Basta-me trabalhar em Nevogilde para exceder a quota de tias e sobrinhos que consigo suportar. Prefiro a parte oriental da cidade com as suas misturas e pobreza, prefiro as ruas com algum lixo ao museu imaculado.

A inauguração da Casa do Cinema Manoel de Oliveira é igual à Sociedade das Nações Unidas descrita por Albert Cohen, tudo gente muito bem e adequada à função.

O único tipo que se salva na mole é o Luís Miguel Cintra. Agradeço a Adriano Miranda esta fotografia magnífica (guardar). Com ar de conspirador ou caçador, Luís Miguel Cintra parece compadre dos Valorosos. Gostava que fizesse um discurso verdadeiro, verdadeiro mesmo, daqueles que fazem tremer os ossos, deitam pedras abaixo e afugentam os espíritos delicados.

Ele está-se nas tintas. Também está bem assim.


Trincapregos é parecido com o António Silva das comédias dos anos 30 e 40.
Primo, na compleição física. Secundo, na fome avassaladora. Tertio, nos gestos e palavras pomposas.

Adagas, fitas, rosas e espadas.

Tringapregos dá nome ao livro e compreende-se porquê — é uma personagem de alto gabarito. Grandioso. Tem tudo em demasia e tudo em falta. Porém, apesar do paleio imponente, das alcunhas cómicas e dos trajes ridículos (ah, a maravilha de imaginá-los), Trincapregos é apenas um dos “Valorosos” — um grupo de judeus da ilha grega de Cefalónia, os cinco primos Solal, homens desenfreados, sentimentalões, farsolas, pícaros, chanfrados e muito mais (...) judeus do sol e do bom humor eloquente e cavalheiresco, nós judeus do Mar e das maneiras elegantes, descendentes dos judeus de Espanha a cavalo, que andaram vestidos de seda e usaram adagas, fitas, rosas e espadas (...).

O livro cresce em redor das peripécias destas personagens extravagantes. Através de aventuras calhadas para o torto, Albert Cohen capta o lado mais solar da existência — uma vida cheia de cores, de cheiros, de comida, de corpo, efervescente, zombeteira, imperfeita, desgraçada, de excesso, mais dionisíaca que o próprio Dionísio…

Uma assustadora retenção

— Tens razão, reconheceu Trincapregos fazendo estalar as mãos imensa. Se eu não mentisse, que me restaria? Mas os romancistas mentem mais fundo do que eu. Todos eles fazem maus livros, que fazem crer às donzelas que o amor é um viveiro do paraíso e às mulheres que o casamento é um esgoto! Mentirosos, verdadeiros mentirosos e envenenadores, todos esses distintos escritores que mostram as suas poéticas heroínas bebendo e comendo de uma maneira encantadora e trincando com um ar obstinado algumas grainhas de uva. Muito bem, meus senhores, permitam-me que me espante de que nunca nos falem das consequências dessas trincadelas obstinadas. Sim, meus senhores, desde Homero até Tolstoi, os jovens heróis e heroínas sofrem, sobretudo quando são belos, de uma assustadora retenção. Não podem mais. Por exemplo, há mais de trinta anos que uma tal menina Natacha Rostova anda a beber sem que o autor a autorize a retirar-se nem por um instante! Todos os amantes e todas as amantes de Shakespeare, de Raci…

Sopro

Se de repente um actor decidisse, tal como o Helmer de Robert Walser, mudar o texto ou a cena de uma peça, isso seria o fim do teatro. No teatro, há um plano, um guião, um cenário há muito desenhado. O teatro é o contrário da vida. Não há nada de rotineiro na vida, nada de previsível no rame-rame do quotidiano. Num segundo, tudo pode mudar. A morte espreita a cada passo. No teatro, pelo contrário, sabemos quem morre e quem vive. «A Ifigénia tem de morrer todas as noites.» Um actor não tem o direito de mudar o que está escrito. Na peça de Tiago Rodrigues, o momento em que o ponto tenta mudar o curso de uma história, soprando ao actor palavras que não estão no texto, é exactamente o momento em que o teatro se confunde com a vida. É o momento mais belo e mais perigoso da peça. O momento em que o teatro abandona o palco e irrompe, como uma rajada de vento, pela nossa rotina dentro. Já não é teatro, mas outra coisa mais forte. Um acontecimento sobrenatural e contrário às leis da Natureza. …

Debaixo do fogão

(...) A seguir Saltiel falou da perspicácia de um tal professor Freud.
— Há alguém que roubou e que nega. Bem, levam-no a este médico professor, que olha para ele e diz: “A carteira está debaixo do fogão!”

Trincapregos, de Albert Cohen, tradução de Pedro Tamen, Contexto, outubro de 1999, páginas 108 e 109.

Uma pessoa instruída

E logo a seguir disse aos seus correligionários que aquela pequena nuvem, lá em cima, lhe recordava o ilustre dramaturgo inglês Shakespeare. Depois apontou para uma poça de água e afirmou com desembaraço aos velhos pasmados que ela “continha o ambiente de certos romances de Georges Sand”.
— Instruído, baliu o centenário, sacudindo debilmente a sua mão enrugada.
— Deus to guarde, ó Abraão, disseram os outros, maravilhados.
E Jónatas continuou a brilhar, a mostrar como estava armado para a vida com os dons do espírito, para a imensa glória do seu gordo e inchado pai, que o olhava com frágil meiguice de apaixonada, e sorria nesciamente, enfeitiçado por aquele quase-Messias que pusera neste mundo.

Trincapregos, de Albert Cohen, tradução de Pedro Tamen, Contexto, outubro de 1999, página 50.

A arte subtil

— É deprimente.
— O quê?
— Os livros mais vendidos da categoria de ensaio.
— Mas é o top. Qual é a surpresa?
— Mesmo assim. É terrível.
— Tens de saber dizer que se f*da.


Verde que te quero verde

Daqui até às eleições legislativas, todos os partidos políticos vão falar de questões ambientais. Vão integrá-las nos cartazes, nos posts das redes sociais, nos programas e talvez em pins giros para a lapela. Não porque seja um tema crucial, mas por causa dos últimos resultados eleitorais. Os partidos gostam demasiado da superfície e de votos. Já arranjei uma palavra para o fenómeno: panalização.

A baleia empalhada

«Um filme não é verdadeiramente bom senão quando a câmara é um olho na cabeça do poeta.
Os distribuidores, naturalmente, estão todos de acordo em que os poetas não fazem vender lugares. Não adivinham de quem nos vem a própria linguagem do cinema.
Sem poetas, o vocabulário do filme seria demasiado limitado para agradar ao público. O equivalente a uma tagarelice de crianças não faria venderem-se muitos lugares. Se o cinema não tivesse nunca sido amoldado pela poesia, teria permanecido como simples curiosidade mecânica e seria ocasionalmente exibido como uma baleia empalhada.»

Orson Welles, 1958. Tradução de Luísa Ducla Soares.

Béla Tarr, As Harmonias de Werckmeister, 2001.

Outro que tal

Por mais mais voltas que dê, não consigo descrever Franz Polzer. Posso arrumá-lo na secção pobresdiabos, sim, mas tem de ficar num quarto incomunicável porque essa categoria não permite nem diálogo nem irmandade. Tudo o que pode ser dito sobre Polzer, está escrito n’ Os Mutilados — o resto são interpretações de segunda, discursos frágeis, variações menores.

O grande passo da literatura é a capacidade de transformar palavras e personagens, coisas intangíveis por natureza, em objectos únicos. Uma obra literária é como uma árvore ou uma pedra — guarda o mesmo mistério. Não se deixa apanhar.

Vanidade

Não é preciso um curso completo, mas seria muito útil estudar algumas palavras alemãs. Para começar, sugiro Eigenschaften. É que já chateia ouvir chamar a este e àquele “homem sem qualidades” querendo dizer que ele é má rês (uma expressão portuguesa formidável que caiu em desuso e não se compreende porquê dada a quantidade de patifes sempre disponíveis para adjectivar).

Assim, em vez de parecerem ilustrados como querem tanto parecer, vê-se logo que não leram o livro de Robert Musil ou, pior ainda, leram e não perceberam patavina.

Um homem sem qualidades é feito de qualidades sem homem.

Pobre Ulrich tão cheio de qualidades e tão falho de homem. Vá, desandem, deixem-no em paz.

O vaso de louça chinesa

Nenhuma moral, por mais firme que seja, pode manter-se intacta se cair com estrondo no chão, como uma peça de louça chinesa. Um vaso Song muito raro transforma-se prontamente num monte de cacos.

O risco de morrer de competência

(...) Uma escola mais difusa, resultante de uma mistura destes processos, é analisada num dos livros mais interessantes dos últimos anos sobre história e produção literária: "The Program Era", de Mark McGurl — sobre o impacto dos programas universitários de escrita criativa na ficção americana do pós-Guerra. Um dos efeitos desse regime, simultaneamente descritivo e prescritivo, foi a elevação da pura técnica a telos, e a consolidação de um conjunto de princípios didácticos numa doutrina de composição: o estilo "Hemingway-light" que dominou parte significativa da literatura dos Estados Unidos — principalmente no conto — a partir da década de 1950, e que permitiu a centenas de pessoas construir uma carreira a escrever como Raymond Carver ou (num caso em concreto) a ser Raymond Carver.

O modelo será mais ou menos familiar. Relações problemáticas ou terminais. Uma casa nos subúrbios dos subúrbios. O marido (Hank ou Herb) a beber no sofá, atormentadamente. A mulher (Jil…

Despedida

Da mesa do café, observo o casal na esquina da Constituição com Faria Guimarães. Têm à volta de cinquenta, talvez um pouco mais. Despedem-se com um beijo e um breve toque de mãos. Ela sobe a Constituição, ele espera que o semáforo passe a verde para descer Faria Guimarães. Antes de atravessar a rua, ele lança ainda um olhar na direcção dela, e quase consigo ouvir a pergunta a ressoar dentro da sua cabeça. A velha pergunta. A terrível, a negra pergunta: «Será a última vez que a vejo?»

Isto dito, continuar

Quando nos damos conta, é sempre demasiado tarde. Adiamos a carta, a mensagem, o telefonema, o encontro, hoje, amanhã, depois de amanhã, uma e outra vez. Por pudor, por incúria, por preguiça, por pura cobardia. Há mil razões para adiar um encontro e todas estão erradas. Não há desculpa. E, no entanto, deixamos o tempo construir a sua diabólica obra. A negra e lenta teia. E assobiamos para o lado, ou melhor, para dentro. Eu devia ter ligado ao Luís Mourão. Devia ter escrito. Devia ter ido ao seu encontro. Agora é demasiado tarde. Restam as palavras e os livros, e é tão pouco. Resta-me a memória de alguns encontros, tão poucos, mas sempre inesquecíveis, a pretexto dos livros.

Era um prazer ouvir o Luís Mourão falar dos livros e dos autores que lhe interessavam. Como os grandes mestres, tinha desenvolvido uma espécie de exercício de encantamento para seduzir o auditório. Do fundo de um bolso, retirava a chave e apresentava-a com prazer ao público. Depois, com um gesto largo e lento abria…

Restos

Depois de pensar um bocado, escrevi esta frase: Expulso da literatura, é com os restos que Walser trabalha. É curto, mas até não está mau; quer dizer, é pouco mas é um alicerce concreto. Agora é preciso dar margem à palavra restos (nota: procurar umas coisas que Manoel de Oliveira disse sobre o filme Party) e construir uma tese. Mas isso já não me apetece fazer — gosto de projectos inacabados.

Território espiritual

A maior parte das vezes também penso que não deveríamos dizer nada sobre Robert Walser — uma gentil retribuição da nossa parte. Mas somos sempre tentados, ah! descobrir uma palavra particular, uma frase, uma imagem que nunca ninguém viu e que se aproxime da doçura e da crueldade e que tenha profundidade não saindo do mais rasteiro e por aí fora no desvario. Acabamos afogados (João César Monteiro, por exemplo, afogou-se na escuridão e na humidade com extrema verticalidade), mas isso também não é mau. Porque em Walser é sempre tudo bom e alegre, mesmo quando choramos. Principalmente quando choramos.

Algumas traduções de Robert Walser

Da experiência do blogue anterior, aquilo que mais gostei de fazer foi traduzir. Walser, Cage, Panero, Michaux, Cioran. Pôr-me na sombra ou sob alçada é um descanso e ao mesmo tempo uma luta inquieta. Às vezes penso que deveria ter seguido essa profissão, mas depois percebo que não é bem assim porque só gosto de traduzir o que gosto de ler (de preferência coisas curtas), porque sou muito lenta e faltam-me os estudos necessários (isso explica as imperfeições). Morreria à fome como a chinesa.
Entre 2005 e 2006 traduzi seis textos e mais um resto de Walser a partir de versões inglesas.
Vou agrupá-los aqui:


A música
A música é a coisa mais doce do mundo. Adoro notas musicais. Correria mil léguas só para ouvir uma. Muitas vezes, no Verão, quando passeio pelas ruas e ouço o som de um piano vindo de uma casa desconhecida, páro, pronto a morrer logo ali. Gostava de morrer a ouvir um bocado de musica. Imagino isso tão fácil, tão natural, mas claro que é impossível. As notas apunhalam-nos muito …
O que impressiona sempre em A Regra do Jogo é a balbúrdia. Claro que Jean Renoir filma a balbúrdia com a sua habitual delicadeza e aquilo que caminha a grandes passos para o descalabro transforma-se num bailado com tutus. Mas se isso é o que nos encanta uma e outra vez por causa do ritmo musical e de qualquer coisa que não tem nome, depois de vários confrontos começamos a pensar em outros pormenores, por exemplo: talvez o mais importante do filme seja a forma como Renoir assinala os defeitos (muitos) e as virtudes (poucas) de todas as classes sociais — uma espécie de tiro de partida para um pensamento político radical.


Observações avulsas sobre a boavista #5

Comecei a sair na estação de Francos porque fica mais perto. Mas agora já não é uma questão de distância.

Gosto daquele bocado de Tenente Valadim junto à linha que parece um beco e também a saída de operários da fábrica.

Gosto da mercearia a meio que vendes sandes e cafés de cápsula aos trabalhadores da Altice como se fosse uma venda dos arredores.

Depois do cruzamento com João de Deus, gosto das árvores: na esquina, a ameixoeira de folhas castanho avermelhado, carregada de frutos minúsculos; os bordos japoneses que ladeiam a porta do BPI e crescem inclinados; mais adiante, dois choupos quase tão altos como o Sheraton; ao chegar à avenida da Boavista, o jacarandá em flor.
"I’m glad I’m up here seeing these ancient rivers of ice before they disappear." 
People definitely say that.

— Hum? De certeza que isto não é um conto de George Saunders?

O princípio da troca de Locard

Aborrece-me esta exaltação tão magnânima sobre a morte de Agustina Bessa-Luís. Geralmente isto significa que vai haver muito falatório e pouca leitura. Transformar um escritor em herói da pátria é sempre má ideia.

Por outro lado, é muito cómico descobrir os tiques mais enfáticos da circunstância: os especialistas que se põem nas pontas dos pés tipo “eu é que sou o presidente da junta”; os que estão prestes, prestes, a dizer “Agustina Bessa-Luís sou eu”; e ainda os mais sofisticados que aplicam cientificamente o princípio da troca de Locard com o mindinho: através do contacto entre dois items, irá haver uma permuta.

O Fausto de Meyrink

«Tirando as lunetas, viu diante de si um homem nu, que só trazia uma pele de animal em torno dos rins; uma personagem de alta estatura, de pele morena, espantosamente magro, que tinha colocada na cabeça uma mitra negra, sobre a qual se acendiam partículas de ouro.
O médico da Corte percebeu imediatamente que se tratava de Lúcifer, mas não se sentiu nada surpreendido, porquanto, intimamente, havia já muito tempo que esperava por aquela aparição.
- Tu és o homem que pode realizar todos os desejos? - perguntou-lhe, inclinando-se voluntariamente. - Podes também...?
- Sim, eu sou o deus em cujas mãos os homens entregam os seus desejos - interrompeu o fantasma, indicando a pele que lhe cingia os rins. - Entre todos os deuses, sou o único que usa cinto: os outros são assexuados.
Só eu posso compreender os desejos. Aquele que é verdadeiramente assexuado esqueceu para sempre o que são desejos. A mais profunda raiz de todo o desejo, seja ele qual for, raiz impossível de descobrir, repousa sempr…

Este quadro é um prazer para os olhos

Mãos. Carantonhas (na mesa e cadeira). Taça com abóbora, maçãs, flores e folhas.
Gansos. Chapéus extraordinários.
Todos estes elementos dão ao quadro um ambiente tão festivo e alegre que, em vez de uma cena religiosa, diria que estamos a ver um musical. Mais uns segundos e começam todos a dançar e a cantar.

Dilema literário

— Será aceitável levar Vassili Grossman para a praia?

Nem por isso. O céu azul, o mar calmo, uma brisa suave — é demasiado, toma a proporção de uma afronta. Como quando Ivan Grigorievitch entra em casa de Nikolai Andréevitch:

A cara escura e enrugada do homem do reino prisional, o seu casaco acolchoado, as suas botas de soldado que pisavam desajeitadamente o soalho não condiziam com o mundo de parquê, de armários de livros, de quadros, de lustres.