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Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2017

Da garrafa saem vapores espirituosos

São trinta páginas. Facilmente poderíamos dizer que "Três horas esquerdas" de Daniil Kharms é um livro pequeno, ou até um livrinho. Desenganem-se, o tamanho é um embuste (de Daniil Kharms, sempre; da editora Flop só para começar), e diminutivos não servem à obra. Os textos de Kharms — é assim que o vou nomear por causa do "h" aspirado, dos tormentos, do charme e de Sherlock Holmes (ler explicação na valiosa apresentação feita pelo tradutor Júlio Henriques) — são densos, quimicamente densos, isto é: em cada um dos 14 textos que compõem o livro há muita matéria concentrada.

Kharms é perigoso e escreve como quem lança bombas; desde a primeira palavra, tudo aponta para o desastre — um desastre formidável mas também bastante cómico. E desagradável; desagradável é uma propriedade que Kharms usa como se fosse uma écharpe esvoaçando enquanto ele conduz um descapotável vermelho em excesso de velocidade (é curioso como estas histórias nos deixam impressões visuais tão forte…

Tartaruga

A porta de casa abriu e dela saiu uma tartaruga. Não exactamente uma tartaruga, como é evidente, mas um velho muito parecido com um desses bichos.
– Vou ao mercado comprar pão e leite – disse, avançando sobre as quatro patas, lentas, rotundas e pesadas. Escrevo quatro patas porque, como já disse, havia muito de quelónio no velho. Na realidade, caminhava sobre os dois pés, naturalmente. Mãos nos bolsos para coçar as virilhas, o pescoço todo esticado, a cabeça redonda, os olhinhos miúdos e húmidos, a boca aberta, dois ou três dentes podres, enfim, as papilas gustativas segregando saliva. Muito desejaria ser pintor, um grande pintor, para poder pôr diante dos olhos do leitor as diferentes expressões que todas as partes do seu corpo tomavam ao caminhar.
De súbito, mais ou menos a meio do caminho, aconteceu uma coisa singular. Uma coisa realmente singular. Podia escrever que o velho se transformou em lebre. Isso mesmo. De tartaruga em lebre. Podia perfeitamente escrever isso.
E que num pas…

Visões

All fiction writers work by indirection: to show not to tell.
Eudora Welty, 1984.
É como um exercício de ilusionismo: todos os bons escritores têm um truque. Eudora Welty, que também foi uma excelente fotógrafa, constrói visões espantosas dentro dos olhos do leitor. Visões cheias de cor, textura, pormenor, luz, sombra, mas também, e sobretudo, visões que têm som, cheiro, temperatura, emoções. Visões cheias de vida, mais impressionantes do que fotografias ou filmes, porque é a nossa imaginação que está em movimento. Mais fortes até do que a própria imaginação, porque estão vivas. Uma espécie de outra realidade criada pela ficção. E o leitor mergulha serena e secretamente neste truque assombroso.

Nos canteiros de flores saltitavam os piscos do costume. O sistema de rega gotejava agora. Entrámos de novo em casa pela porta das traseiras. As nossas mãos tocaram-se. Pisámos o canteirinho de hortelã-pimenta da Tellie. O gato amarelo esperava para entrar connosco, a maçaneta da porta estava tão…

Vêm aí os russos

A apresentação do primeiro volume da editora Flop: Três Horas Esquerdas, do vanguardista russo Daniil Kharms, na magnífica tradução de Júlio Henriques, acontece no próximo sábado, 25 de Fevereiro, na Sede (Rua de Santa Catarina, 787, no Porto).

A tarde começa às 15h00 com caviar e vodka, e às 17h00 há uma leitura pelo actor e performer Nuno Pinto.

Contamos com todos.

Sentido de proporção

Acometido pela febre, o jovem Loch Morrison está confinado ao seu quarto. Para passar o tempo, espia a velha casa em frente através de um telescópio. A antiga casa da família MacLain está vazia, mas não abandonada: cruzam-se ali várias histórias, umas criadas pela imaginação de Loch, outras mais reais, como os encontros amorosos entre a adolescente Virgie Rainey e um marinheiro. Na página 33 de As Maçãs Douradas, Eudora Welty faz-nos participar no exercício voyeurístico do rapaz, revelando-nos através da lente do telescópio os transportes secretos dos amantes. A cena é particularmente impressionante pela tensão erótica que Welty consegue criar a partir, uma vez mais, de referências sensoriais e de uma escolha cirúrgica das palavras. Cada palavra encerra uma intenção, cada frase desdobra-se em múltiplos sentidos, símbolos, imagens, planos. E tudo parece simples, claro, transparente. O sentido de proporção de Welty é notável.

Loch apontou o telescópio para as traseiras e apanhou o marin…

Abarcar tudo num relance

Lendo As Maçãs Douradas, de Eudora Welty (tradução de Diana V. Almeida), alcança-se facilmente o mundo inteiro. Em duas ou três linhas, o leitor tem uma visão plena de um determinado tempo e lugar (uma “visão 360º” ou “surround”, como sói dizer-se hoje em dia). O termo que me ocorre é de uma experiência de “leitura total”. O efeito consegue-se, creio, através de uma fascinante combinação de referências que remetem para os quatro elementos: água, terra, fogo e ar.

Um exemplo retirado da página 31:
“Loch podia espreitar através do renque de cedros, onde faltava um, e abarcar tudo num relance – como se lhe pertencesse – desde o alpendre da frente às traseiras, que pareciam um telheiro, e ao gazebo sombrio, que despertava nele um amor completamente diferente, com o seu aroma a folhas negras, que se desfaziam em fuligem, e com a sombra das quatro figueiras, onde ele havia de ir roubar figos, se Julho alguma vez chegasse. E, acima da sombra escura como um barco, faiscava o céu azul, com o f…

Cheirar com os olhos

Outro truque tipicamente weltiano, que contribui para essa sensação de “leitura total”, é a surpreendente combinação de sentidos aparentemente incompatíveis.

Um exemplo da página 32 de As Maçãs Douradas:
“Com o telescópio colado ao olho [Loch] sentia até o cheiro intenso da casa.” (Sublinhados meus.)

Combinando habilmente os cinco sentidos, Eudora Welty inventa novos sentidos.

Outra vez: o prodigioso poder da literatura.

Eudora Welty é o tema da primeira Acta, a edição exclusiva de ªSede.

Sinopses de filmes

Uma mulher aluga um apartamento a um homem que parece ter a ver com o eclipse solar que se está a passar.

Uma aristocrata fugitiva que tenta escapar a funcionários corruptos do governo, junta-se a um pintor sem ambições e a monges budistas cheios de recursos.

Uma menina da aldeia vai para a capital cuidar da prima rica que perdeu a vista mas que fala com os mortos.

Um jovem compra um BMW por um excelente preço. Descobre depois que está assombrado.

Um jovem emocional descobre que é um robot.

A história de duas irmãs enquanto a Grã-Bretanha sofre uma invasão extraterrestre.

Um jovem mendigo pede esmola à porta de um templo. Recebe um pendente de jade.

No local mais triste do mundo, dois estranhos conhecem-se. Mas apenas um deles está feliz por estar ali.

Um jovem casal enfrenta um novo desafio numa sociedade pobre em que a vida é já muito difícil.

Um traficante e a sua namorada enganam o patrão no seu último trabalho e ficam presos numa volta do tempo.
Dois viajantes solitários conhecem-se num…

Jogo das escondidas

Contar até 10.

1.
Há um permanente jogo das escondidas entre Paulo Ansiães Monteiro (PAM, Porto, 1957) e o espectador dos seus trabalhos. Onde começam os textos e acabam os desenhos? Textos e desenhos são a mesma coisa? O que está mais vivo: o papel ou a tinta? E este jogo estende-se a outros níveis, digamos, mais profundos. O espectador transforma-se numa espécie de arqueólogo: uma camada esconde outra camada e esta outra ainda.

2.
O trabalho de PAM possui uma urgência e energia muito particulares. Há qualquer força que nos empurra para o tempo mais primitivo da arte, qualquer força profundamente orgânica, profundamente humana. Qualquer força que sublinha a nossa incontrolável necessidade de comunicar, de conferir matéria ao pensamento.

3.
Os desenhos parecem vivos, pulsam como se tivessem veias, falam-nos como se tivessem voz. Vibrantes, sinuosos, muitas vezes grotescos, construídos segundo a mesma mecânica que comanda a imaginação, usando talvez a mesma linguagem secreta de certos…