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A mostrar mensagens de Abril, 2019

Cada editor floresce numa determinada época

Já reparou que cada editor floresce apenas numa determinada época? As oficinas Frobenius e Froschauer na Idade Média; a editora Cotta com a ascensão da burguesia; os mestres Cassirer no dulci jubilo do período anterior à guerra; Sami Fischer numa Alemanha jovem, que se liberta do poder imperial; o aventuroso Ernst Rowohlt no casino do pós-guerra. Cada um tem a atmosfera de que precisa para desenvolver a sua actividade e ficar rico.
Robert Walser, citado por Carl Seelig.

Que editor floresce na época do facebook, do instagram e das mil redes sociais? Não estou certo de que a resposta esteja nas grandes editoras, que ainda funcionam segundo a lógica comercial tradicional. Talvez os casos mais bem sucedidos sejam, à sua escala, as “editoras” que alimentam em nós a ideia de que todos somos poetas e romancistas, de que todos temos uma palavra a dizer, de que editar um livro é tão simples e “natural” como publicar uma selfie no instagram. Em Portugal, mais do que a Porto Editora ou a Leya, ta…
— Quem o inspira? Quais são os seus escritores favoritos?
— Gosto mesmo muito dos escritores russos, especialmente do século 19 e início do século 20: Gógol, Tolstoi, Tchékhov, Babel. Adoro o modo como eles agarram os grandes temas. Também me sinto inspirado por uma certa tradição de cómico absurdo que incluiu influências como Mark Twain, Daniil Kharms, Groucho Marx, Monty Python, Steve Martin, Jack Handey, etc. E ainda, acima de tudo, adoro a tensão da ficção americana minimalista: Sherwood Anderson, Ernest Hemingway, Raymond Carver e Tobias Wolff.


Isto foi o que George Saunders respondeu (respigado do arquivo da internet). Aceito todos os nomes; as influências são uma espécie de cauda de pavão mas também podem funcionar como andaimes de construção — nada a opor. Talvez acrescentar. Agora que cheguei ao fim de "Guerracivilândia em Mau Declínio", apercebi-me de uma grande influência no estilo de Sauders.

Talvez não seja assim tão grande; nem sequer influência porque procurei…

Tudo a pé, naturalmente.

Certa vez, parti de Berna às duas da manhã em direcção a Thun, aonde cheguei às seis da manhã. De tarde estive no Niesen, onde devorei, regalado, um bocado de pão e uma lata de sardinhas. À noite estava de novo em Thun e à meia-noite em Berna; tudo a pé, naturalmente. Noutra ocasião, caminhei de Berna a Genebra, passei lá a noite e regressei. Um dos meus primeiros relatos de viagem foi sobre o Greifensee, publicado por Josef Viktor Widmann no Bund. Já na altura me pareceu dificílimo fazer a descrição de uma viagem.

Robert Walser citado por Carl Seelig, em Caminhadas com Robert Walser. Tradução de Bernardo Ferro.

Mas agora a sério: Saunders não é um gajo infeliz.

Geralmente deixo as notas, prefácios e esse género de informações adicionais para o fim, gosto de saber do que falam para concordar, divergir ou ignorar — e como é que posso saber isso antes de ler os contos, o romance ou o que seja? Bom, costuma ser assim mas na “Guerracivilândia em Mau Declínio” baldei-me para a regra.

É o meu terceiro livro de contos de Saunders, já deixei crescer um intenso afecto pelo autor, por isso fui direita às notas das últimas páginas sobre as circunstâncias em que o livro foi escrito (segmento: o escritor é o escritor e as suas circunstâncias). Como é habitual nos contos, também aqui: é tudo divertido e sórdido, Saunders revela uma extraordinária capacidade de desenrolar frases vulgares (um maná para os tradutores) sobre cenários complexos, as personagens passam a vida a tropeçar e a elevar-se, as situações complicadas tendem a complicar-se ainda mais antes de estourarem de modo suave.

“Subitamente, senti-me como se estivesse a levar um enxerto de porrada …

Tripla descrição literária

Na universidade começara a desconfiar de embelezamentos literários convencionais, cansado, por exemplo, daquilo a que eu chamava tripla descrição literata: “Todd sentou-se à mesa preta, a superfície de ébano, a escura portadora de vários copos e pratos, cujas presenças alvas, circulares, em forma de disco, troçavam da sua futilidade, da sua impotência, da sua incapacidade para agir.”
Porra, achava eu, que tal dizeres apenas: “O Todd sentou-se à mesa.”
Ou melhor, corta essa parte também. Porque é que precisamos de saber que o Todd se sentou à mesa? Avisem-me só quando o Todd fizer alguma coisa. E é bom que não seja “erguer uma chávena até aos seus lábios”, nem “pausar pensativamente para deixar que a percepção de Randy o iluminasse por completo”.
Na altura andava um bocado carrancudo, em termos de prosa.

George Saunders, na Nota de Autor de “Guerracivilândia em Mau Declínio”
Tradução de Rogério Casanova para a Antígona. Janeiro de 2019. Páginas 207 e 208.

Trinitarianismo literário

Sempre tinha adorado Hemingway e passei grande parte do tempo na universidade a fazer imitações de Hemingway. Quando me cansava, fazia uma imitação de Babel. Às vezes imitava Babel, supondo que Babel tivesse vivido no Texas. Às vezes imitava Carver, supondo que Carver tivesse trabalhado (como eu) nos campos petrolíferos de Sumatra. Às vezes imitava Hemingway, supondo que Hemingway tivesse vivido em Syracuse, o que acabava sempre por me soar a Carver.

George Saunders, na Nota de Autor de “Guerracivilândia em Mau Declínio”
Tradução de Rogério Casanova para a Antígona. Janeiro de 2019. Páginas 201 e 202.

Gramática gerativa

Na sua forma plural, "impossível" transforma-se em "máximos esforços". O acto gramatical engendra uma hipótese curiosa: talvez a solução para os nossos problemas seja um sinal de multiplicação. Caminho aberto para um novo tipo de pensadores conflituosos. En garde !


Realidade aumentada

A primeira vez que lavei os ouvidos e entrei num café logo a seguir, ouvi um barulho intenso de talheres, vidro, vapor, o som seco do manípulo da máquina de café — é mais ou menos isso que sinto quando leio os contos de George Saunders.

Análise da materialidade

As musas dos tempos modernos são silenciosas e não prendem ninguém com feitiços — não valem um chavo. Só os tolos se interessam por elas. Os literatos ensaiam discursos em frente ao espelho. É preciso acender a luz para o salão brilhar.

O horror!

Se de repente uma mão invisível desligasse as televisões e aparelhagens de som de todos os cafés, esplanadas, restaurantes, lojas, salas de espera, repartições públicas, casas, apartamentos, T1, T2, T3 Duplex, e voltássemos a escutar apenas o som da nossa voz, não nos reconheceríamos. O vazio, o silêncio, o perfil sem fotografia, a conta sem actualizações, a folha em branco, é como uma espécie de morte em vida. O horror! O horror!

Sapos & homens

O Princípio da Singeleza não se aplica a Bufo & Spallanzani. Neste romance tudo é fim, aparato e fausto. O ritmo rápido e engatilhado das sequências é uma pista falsa. Aliás, creio que Guedes, o tira, só existe com aquelas qualidades tão planas para contrastar com o multiforme Gustavo Flávio (em francês, Gustave Flaubert). Narrador e narração são exuberantes, no sentido dos pássaros que ganham cores e dimensões exageradas para as suas conquistas sexuais (ver Ronald Fisher). A questão do género policial também é um artifício, o homicídio de Delfina Delamare (em francês, Delphine Delamare) não passa de um macguffin. Conclusão: Bufo & Spallanzani não é bem um livro, mas uma aula de literatura — convém chegar prevenido. Só recebe quem dá.

———

“É apenas uma história de sapos & homens. Nada a ver com a simbologia de Of mice and men. Na orelha do livro o editor dirá alguma coisa para ilustrar e motivar o leitor. Na França, pois o livro será editado em outros países, como tem aco…

Princípio da Singeleza (ver Guedes)

Como se aproximam semanas com feriados, trouxe três livros. E como estava a cair uma chuva miudinha, não fria mas desagradável, escolhi escritores brasileiros: dois do Rubem Fonseca e um do Bernardo Carvalho.

Uma das coisas que gosto nos livros emprestados é das marcas. Há livros que estão impecáveis, porque ninguém lhes pega. Outros desfazem-se. E muitos têm sublinhados, geralmente a lápis — deve ser a correspondência gráfica do falar baixinho das bibliotecas. Tive sorte, saíram-me: um sublinhado com anotações; um sublinhado com dedicatória (os do Rubem Fonseca que se presta mais a conversa e carinhos vários).

Mesmo os livros mais fraquinhos de Rubem Fonseca (“Mandrake — A Bíblia e a Bengala” é bastante fraco; “Bufo & Spallanzani”, apesar do belo título que apetece dizer em voz alta e modulada, ainda está em apreciação) são sempre divertidos e muito instrutivos (gosto tanto quando ele se desvia da história e resolve escrever texto de almanaque sobre sapos, facas ou o que seja). S…

Observações avulsas sobre a Boavista #1

Sempre pensei na Avenida da Boavista como uma unidade, um caminho para chegar à Foz. Mas agora que percorro a pé, de segunda a sexta, mais de metade da sua extensão, apercebo-me das singularidades quase quarteirão a quarteirão. Até os pássaros são diferentes.

Junto a Agramonte há andorinhas urbanas; fazem ninhos nos buracos das empenas forradas com placas de fibrocimento onduladas — mais um mês e chegam. Entre o Bessa e o Foco, naquele parque de estacionamento mal amanhado em frente à Farfetch, pegas rabudas. Na Fonte da Moura, já muito perto do parque da cidade, periquitos-de-colar e também corujas de plástico.

Hã? A eternidade.

Com a idade o mundo exterior começa a diminuir. Parece que tudo se torna mais pequeno, menos importante. Em sentido contrário, um outro mundo não pára de crescer dentro de nós, sem barreiras temporais, o passado completamente enredado no futuro. Tão diferente da cena final do 2001 — nem simetria, nem obras de arte, nem monólito. É mais como um campo de ervas daninhas para onde se atira um cadáver.

Um detalhe

O pai está de pé, ligeiramente inclinado para a frente. Camisa escura e gravata vermelha, sob um avental azul. Cabelo e bigode bem cuidados. Tem o ar seguro e determinado de um pequeno proprietário de restaurante. A mãe está sentada, de vestido bordô e avental branco. Há uma espécie de luz serena que emana das suas mãos enrubescidas e gastas pelo trabalho. Ou talvez seja apenas farinha e não luz. Do seu lado esquerdo, sobre uma mesa, o pão e o vinho, e logo atrás, bem arrumado num louceiro, um aquário com dois peixes. Todos os símbolos sagrados de um pacato lar cristão. Mãe e pai têm as mangas arregaçadas como se tivessem interrompido o trabalho apenas por alguns segundos para posar para o quadro.

A filha é a única personagem que não olha directamente para o espectador. É uma rapariguinha elegante, de vestido vermelho e sapatos de tacão. Tem o olhar fixo em qualquer coisa que está fora do enquadramento. Parece menos interessada no assunto do quadro do que os outros personagens. Talvez…

Episode 12B (philosophical version)

How to recognise different types of philosophical metaphors from quite a long way away.
NO. 1
THE LADDER




Wittgenstein's Ladder

"My propositions serve as elucidations in the following way:  anyone who understands them eventually recognizes them as nonsensical, when he has used them — as steps — to climb up beyond them. (He must, so to speak, throw away the ladder after he has climbed up it.)" — Ludwig Wittgenstein, Tractatus

1.
The first time I met Wittgenstein, I was
late. "The traffic was murder," I explained.
He spent the next forty-five minutes
analyzing this sentence. Then he was silent.
I wondered why he had chosen a water tower
for our meeting. I also wondered how
I would leave, since the ladder I had used
to climb up here had fallen to the ground.

2.
Wittgenstein served as a machine-gunner
in the Austrian Army in World War I.
Before the war he studied logic in Cambridge
with Bertrand Russell. Having inherited
his father's fortune (iron and steel), he
gave away his money, not to the poor, whom
it would corrupt, but to relations so rich
it would not thus affect them.

3.
On leav…

Olha, o Jeff Wall mudou para o prédio em frente.

Teoria dos factos discordantes

A informação saltou para os jornais e noticiários, rodopiou para aqui e para ali. Não se pretende parar para pensar, a verdadeira intenção é girar e assustar — uma e outra vez pelo medo e pela culpa.

Jerónimo de Sousa fez a pergunta mais sensata: quem pagou o estudo feito pelos especialistas?

Convém lembrar que a Jerónimo Martins continua a ser uma das empresa com maior disparidade salarial. E a Sociedade Francisco Manuel dos Santos transferiu-se para a Holanda para escapar aos impostos ou, como dizem os seus especialistas em fluxos financeiros e paleio mole: “a Holanda dá-nos uma garantia de protecção do investimento no estrangeiro que Portugal não dá.”

Os especialistas que só nos querem ajudar são sempre os especialistas que nos querem foder. Em inglês diz-se assim: only an expert can deal with the problem.

— Ele disse para lhe dizer — informou com fidelidade — que é uma porca repugnante e ascorosa!

Fiz uma pesquisa e descobri que o livro de Henry James (edição de março de 2017) não mereceu a atenção da crítica. Encontrei o artigo escrito por Mário Santos para o ípsilon; uma entrevista a Francisco Vale, da Relógio d’Água, no programa “Ronda da Noite” da antena 2; e mais nada. (Isto já nem sequer é uma queixa, é apenas um dado para a estatística.)
No meio da informação recolhida dei com a capa da versão brasileira (edição da Penguin/ Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Britto e capa de Raul Loureiro e Cláudia Warrak) e resolvi direccionar a pesquisa para o lado gráfico.

As capas mais antigas de “O que Maisie Sabia” não têm imagens, apenas cor e fonte tipográfica e, às vezes, para dar graça, uns arabescos. Duas ou três mostram um retrato de Henry James — um homem muito sério e concentrado. A maior parte reproduz quadros de época com crianças cândidas, enquadramentos mais ou menos fechados mostrando meninas sozinhas, de pé, sentadas, encostadas a uma parede, encos…

Perícia com facas e parafusos

Percebe-se que a literatura era (completamente pretérito imperfeito) um ofício duro ao ler “O que Maisie sabia”. Henry James maneja as palavras como um cozinheiro japonês maneja facas. É preciso ajustar a nossa respiração ao ritmo da frase: longa, sinuosa, enigmática. Claro que só é possível compreender isso porque o tradutor (Daniel Jonas) também sabe lidar com facas. O livro é um romance (de formação, apetece acrescentar), mas também o testemunho de uma prática que caiu em desuso.

Como um plano de Sans Soleil

Barros Lima é uma rua tramada, obriga sempre a subir quer se comece numa ponta ou noutra. Está situada num sítio pobre já perto da estação de campanhã e é bastante feia. Quando entronca na avenida Fernão Magalhães, ainda é pior. Há uns tempos tentaram dar um jeito ao cotovelo: fizeram uns muretes de pedra e plantaram seis cerejeiras de flor rosa dobrada atrás dos contentores do lixo. Não melhorou muito. Mas hoje de manhã reparei que as flores estão a rebentar e numa das varandas, uma mulher oriental fazia exercícios de alongamentos de braços.

A violência e o escárnio

Um puma prepara-se para atacar uma doninha fedorenta. Parece fácil, o felino aproxima-se da presa cheio de langores e cálculos; a doninha protege-se com uma dança frenética e um cheiro nauseabundo. Contra todas as expectativas, as armas psicadélicas da doninha resultam e o puma desiste.
Vi isto num documentário sobre animais, mas faz lembrar as histórias de Albert Cossery (uma outra forma de encarar o inimigo).

O resto já devem conhecer do cinema

Uma rapariga fenícia diz: «DIZ!» Outra rapariga diz: «Eu disse diz» A guardiã diz: «Eu disse que tenho estado à espera.» Antígona diz: «Eu disse tenho razão ou não tenho?» Polinices diz: «EU TENHO o controlo.» Jocasta diz: «Eu disse deixem-me falar!» Etéocles diz: «Eu disse mamã - anda - vamos embora.» Tirésias diz: «Eu disse fala comigo. Não estou aqui para brincar.» Creonte diz: «Eu disse para largares a mão do teu pai.»

O que leva os personagens de Martin Crimp a repetirem uma e outra vez as palavras «eu disse» ou «diz», forçando por vezes o imperativo com maiúsculas? É uma simples manifestação de força e autoridade? São os clássicos a lembrarem-nos o poder que lhes foi conferido pelos deuses? Que lhes devemos respeito? Ou será outra coisa? Uma espécie de pedido desesperado de atenção? Uma necessidade urgente de provarem a si mesmos, e a nós espectadores, que existem, que estão vivos e fazem parte do nosso mundo? Que não são apenas o sonho de um dramaturgo? Ou será antes, muito sim…