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Domesticar a língua

São quase oito horas da noite. Chego a casa e ligo o rádio. Uma pessoa, num daqueles programas de entrevistas confessionais, está a contar que nasceu no «norte» e que, por isso, «dizia muitos palavrões». E conclui: «Quando vim para Lisboa tive de domesticar a língua.» É praticamente a última frase do programa. Triste e cómica como um mau epitáfio.
1914 Temos tendência para confundir a fala de um chinês com um gorgolejo inarticulado. Alguém que compreenda mandarim reconhecerá, no que ouve, a língua . Muitas vezes, não consigo, analogamente, distinguir num homem a humanidade . Ludwig Wittgenstein, Cultura e Valor, tradução de Jorge Mendes, Edições 70.

Uma cena tipo Stephen King

Não são apenas os erros, quando leio o que escrevi nem sempre reconheço o sentido original, noto desvios — às vezes não percebo nada. Deve ser por isso que escrevemos, para encontrar essa sensação esquisita de chegar a um território desconhecido, para perder a estabilidade. Mas há mais: indiferente à nossa vontade, a língua movimenta-se como uma coisa viva — uma serpente. A escrita contendo em si um arrepio de medo e exaltação.