segunda-feira, 20 de julho de 2015

Poesia. Eu também a abomino.

Só não gostam de poesia os poetas que sabem fazê-la, como Marianne Moore. O poema a que me refiro e do qual dou uma “intradução” tem duas versões, das quais ela preferiu a mais breve, remetendo a versão estendida para as notas. Na minha “intradução”: “Poesia. Eu também a abomino. Lendo-a todavia com total desprezo a gente descobre afinal um lugar para o genuíno.” Minha relação com a poesia é muito intensa e contraditória, como imagino que seja a de Marianne, que pratica uma antipoesia, extraindo poesia dos contextos menos poetizáveis. Não compartilho do júbilo recreativo com que tantos colegas meus gostam de exibir seus poemas. Creio com Bernardo Soares que “não há obra de artista que não pudesse ter sido mais perfeita. Lido verso por verso, o maior poema poucos versos tem que não pudessem ser melhores, poucos episódios que não pudessem ser mais perfeitos” etc. Prefiro a poesia dos que vejo menos sujeitos à imperfeição. Leio-os, tento aprender com eles, trituro-os, traduzo-os, “intraduzo-os” e tento fazer outra coisa. No meu ouvido o eco do oco de Bernardo Soares, semi-heterônimo e também, como descobri, semianagrama de Fernando Pessoa. A ele dedico uma “outradução” ou poema não original, “remix” visual de si mesmo. Pessoares: “aérea a hora era uma ara onde orar”. Para mim poesia é o que não é poesia.

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