segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Um berlinde azul sem defeitos



Quando estava a ler a carta que Buddy Glass escreveu a Zooey, passaram-me tantas coisas pela cabeça e tão depressa que só dificilmente consegui agarrar duas ideias e um título.

1. A ligação das crianças Glass ao Ernesto do filme Les Enfants, de Marguerite Duras. Em termos literários não podiam estar mais afastados: a língua, a entoação das palavras, o ritmo dos corpos (vejo sempre as crianças Glass a fazer acrobacias, e Ernesto e a irmã encostados a uma parede ou a uma janela), os próprios gestos. E, no entanto, passaram pela mesma experiência. Não quero nem posso descrever essa experiência, porque qualquer tentativa seria apenas uma caricatura. Tomo o partido de Tatiana Moukhine quando diz que compreende o filho em silêncio. Imagino-a até, por encadeamento de imagens, naquele filme de Rivette, na roulote, no jardim, a dizer isso. (Ah, se a conhecesse, aposto que Seymour escreveria um haiku triplo martini em russo.)

2. A impossibilidade de dar a palavra directa a Seymour. É por isso que Salinger recorre a Buddy Glass. Buddy é o limite máximo de aproximação, tem uma desorientação que lhe permite falar daquilo que não sabe. É prolixo e esperto. Porém, a esperteza é o seu padecimento crónico, a sua perna de pau. Salinger sabe que o resto está fora de campo e nenhuma palavra, nem sequer uma palavra alemã, o poderá tocar.

Na página 73, na descrição do armário dos remédios, surge mais uma referência a um berlinde: azul sem defeitos (conhecido entre os jogadores, pelo menos nos anos 20, como um puro).


Cristina Fernandes.

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