domingo, 12 de fevereiro de 2017

Sentido de proporção

Acometido pela febre, o jovem Loch Morrison está confinado ao seu quarto. Para passar o tempo, espia a velha casa em frente através de um telescópio. A antiga casa da família MacLain está vazia, mas não abandonada: cruzam-se ali várias histórias, umas criadas pela imaginação de Loch, outras mais reais, como os encontros amorosos entre a adolescente Virgie Rainey e um marinheiro. Na página 33 de As Maçãs Douradas, Eudora Welty faz-nos participar no exercício voyeurístico do rapaz, revelando-nos através da lente do telescópio os transportes secretos dos amantes. A cena é particularmente impressionante pela tensão erótica que Welty consegue criar a partir, uma vez mais, de referências sensoriais e de uma escolha cirúrgica das palavras. Cada palavra encerra uma intenção, cada frase desdobra-se em múltiplos sentidos, símbolos, imagens, planos. E tudo parece simples, claro, transparente. O sentido de proporção de Welty é notável.

Loch apontou o telescópio para as traseiras e apanhou o marinheiro e a rapariga no momento em que saltavam a vala. Vinham sempre pelas traseiras, de mãos dadas, a balouçar, correndo agachados sob a folhagem. A rapariga tocava piano no cinema. Hoje trazia um saco de papel da mercearia de Mr. Wiley Bowles.
Loch semicerrou os olhos; estava à espera do dia em que o marinheiro deitasse a mão aos figos. Queria ver o que a rapariga o levaria a fazer. Chamava-se Virgie Rainey. Fora sempre da turma de Cassie na escola, por isso devia ter dezasseis anos; era uma autêntica desmancha-prazeres. Parecia uma maria-rapaz, mas na verdade não era. Um dia, deixara que o marinheiro a levasse ao colo, erguendo os dedos para roçar a folhagem. Primeiro, mostrara a casa ao marinheiro; depois, fizera com que ele começasse a vir. As figueiras eram velhas e encarquilhadas mas davam figos pequenos, doces e azulados. Quando rachavam e se abriam, mostravam a polpa rosada e dourada, as flores interiores, e soltavam gotas de sumo dourado, direitinhas à língua. Loch dava tempo ao marinheiro, porque era ele, Loch, quem decidia ali a clemência; dava-lhe um dia de cada vez.

O que Welty faz com a nossa imaginação é assombroso. O leitor não precisa de fazer qualquer esforço para identificar todas as conotações sexuais desta passagem. Tudo se cruza, tudo se combina, tudo se ergue numa complexa e luxuriante construção literária, tão complexa e luxuriante como a nossa imaginação. E, no entanto, todo o texto é de uma absoluta elegância, discrição, delicadeza. Um trabalho só comparável, parece-me, ao de alguns autores japoneses. Lembro-me de Kawabata, por exemplo.

Eudora Welty é o tema da primeira Acta, a edição exclusiva de ªSede.

Sem comentários:

Arquivo