terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Contra a angústia da folha em branco

Um dos contos mais famosos de Virgilio Piñera narra a história de um homem que se alimenta literalmente de crianças pequenas, «de poucos meses». Uma espécie de apreciador swiftiano das qualidades gastronómicas da carne de criança. Ora, para alimentar este peculiar capricho gastronómico, o narrador envolve-se em cenas de caça, rigorosamente planeadas e sem margem para erro. O conto intitula-se Algumas crianças e o enredo detém-se num episódio de caça que corre mal, o primeiro e único percalço numa longa carreira de caçadas e repastos bem sucedidos. O homem fica encurralado no interior de um elevador com uma das suas vítimas, em copioso pranto, e na companhia de um pachorrento São Bernardo. No exterior, a mãe, vizinhos e autoridades prepararam-se para capturar o criminoso. O narrador não tem maneira de escapar, é o fim da história. Encurralado, sem recursos, Piñera lança mão de uma outra saída, a saída sobrenatural, o truque de magia: «abri a boca ao São Bernardo e, sem perder um segundo, lancei a criança de cabeça no seu interior. De seguida, introduzi-me eu próprio, perdendo-me nas curvas intestinais do manso animal.» Quando as portas do elevador abrem, os perseguidores dão de caras com o cão, pachorrento, ensonado e empanturrado. O narrador escapa e o génio de Piñera também.
O mesmo tipo de truque já tinha sido usado por Buster Keaton em Sherlock Jr. Numa das mais loucas e hilariantes cenas de perseguição da história do cinema, o protagonista é encurralado num beco por dois gangsters. Não há saída, é o fim da linha. A Keaton só resta, também aqui, a saída mágica. Sherlock Jr. escapa aos perseguidores saltando de cabeça para o interior da barriga do seu amigo Gillete, que surge miraculosamente no local disfarçado de velha vendedora de gravatas. É uma das cenas mais divertidas do filme. Os gangsters, como os espectadores de Keaton, como os leitores de Piñera, são surpreendidos por uma saída extravagante e absurda. A ausência de uma saída é a própria saída. A mais bela de todas.



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