quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Quatro por quatro

Imaginemos um díptico. A face da esquerda está em branco. Na face direita podemos ver A lei do mercado, de Stéphane Brizé. Se, num exercício, tivesse de preencher a face em branco e completar o díptico, escolheria Chronique d'un été, de Jean Rouch e Edgar Morin.

Uma das histórias mais impressionantes de Chronique d'un été é a de Angelo, o operário da Renault que diz trabalhar vinte e quatro horas por dia: acorda às cinco da manhã, segue de transporte até à fábrica, cumpre uma jornada de nove horas de trabalho, regressa a casa, come e dorme para recuperar energias, e começa tudo de novo às cinco da manhã do dia seguinte. Um dia após o outro, sem pausas. Dormir, diz ele, faz parte do trabalho. O que mudou entre a história de Angelo e a de Thierry, o personagem de Brizé, que trabalha como segurança num supermercado dos nossos dias para «ganhar a vida»?

Em A lei do mercado, há uma sequência em que Thierry e a mulher estão a aprender a dançar rock, naquele que é o único momento de lazer que vemos no filme. O professor de dança explica que a regra é seguir escrupulosamente o compasso 4/4, típico do rock. Ambos esforçam-se por seguir o ritmo, acompanhados de outros casais que procuram fazer o mesmo, como numa linha de produção fabril. Mais tarde, em casa, os dois mostram ao filho como dançar segundo o compasso 4/4 e convidam-no a experimentar. Thierry larga a mãe e o filho substitui-o na dança, numa estranha passagem de testemunho, entre pai e filho, do saber técnico, burocrático e profissional.

É impossível olhar para Angelo ou Thierry e não nos vermos a nós, tentando rigorosa e desesperadamente dançar segundo o compasso 4/4, em tempos e gestos repetidos até à paranóia, como nos Tempos Modernos, de Chaplin. Apesar disso, e à pergunta «Você é feliz?», que abre Chronique d'un été, feita a várias pessoas anónimas nas ruas de Paris, quase todas respondem «sim». Um «sim» que, com o desenrolar do filme, percebemos tratar-se de pura ficção.



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