quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A nossa literatura é cheia de possibilidades

Deitei as mãos ao meu primeiro livro de Elena Ferrante na semana em que o Presidente da República recomendou ao primeiro-ministro e ao líder da oposição a leitura da tetralogia napolitana. Desviá-los de caminhos e palavreado gastos, encontrar a política em sítios inesperados. Ah, conseguissem eles ganhar a tarefa! Levada pelo acaso e pela ironia, apropriei-me do conselho. Avancei com cautela; não valeu de nada, rapidamente caí no turbilhão. Não nos aproximamos de Ferrante de mansinho.

Acho que toda a gente já o disse: a escrita de Ferrante é clara, pungente, voraz. As frases sucedem-se de forma muito exacta; cada palavra é necessária e até as repetições são construídas sem rodeios. Ferrante gosta de ângulos muito fechados; imagino-a com um lápis aguçado, uma régua e um esquadro (agora que penso nisso, parece-me que o conceito de desmarginação — ausência total de ângulos — de Lila pode ser uma manobra para domar o espaço). Talvez estes livros nos ensinem a desenhar cidades mais justas e, ao mesmo tempo e sem contradição, ambíguas? — Eis a política.

Apesar de resguardada, Ferrante explica o seu método de trabalho com tanta perícia que basta sublinhar algumas respostas para ter a percepção de compreender um ofício:

"Só quando a escrita se retesa como um fio de pesca e depois começa a correr veloz é que sei que o isco era bom e começo a esperar de mim algo de significativo."

"A nossa literatura é cheia de possibilidades, algumas ainda por descobrir, basta ler os textos, e quem quiser escrever encontra de certeza aquilo de que precisa. O problema, eventualmente, é o culto da página perfeita, uma característica recorrente que combati durante muito tempo, em primeiro lugar em mim. Hoje deito fora as páginas muito reescritas, pertenço ao número dos que preferem o rascunho à página aperfeiçoada."

"Uma história tem um tempo e esse tempo deve ter um espaço preciso em que possa fluir linearmente, ou surgir inesperadamente no presente vinda do passado, arrastando consigo tradições, maneiras de usar a língua, gestos, sentimentos, razões e irracionalidades. Sem um espaço designado com precisão, e no entanto com amplas margens de indeterminação entregues à fantasia do leitor, a história corre o risco de perder consistência e de não fazer atrito."

É precisamente assim: Nápoles, um bairro, muitas personagens cheias de sentimentos exuberantes que chocam entre si. Uma carga de energia ameaçadora. O Vesúvio ao longe. O mar ao longe. No centro e em dispersão contínua, Lila e Elena inventam uma relação complexa. A cada página, Ferrante insiste em mostrar o lado soturno desse vínculo — a amizade entre as duas raparigas é difícil, faz-se mais de confronto e desafio do que de gestos delicados. Lila e Elena usam a amizade como uma arma. Para se defenderem do mundo. Para o afrontarem. Lila faz-me lembrar John Wayne filmado por Ford. Lila é da têmpera desses homens vigorosos e sombrios e, no entanto, não é ela uma rapariga frágil e luminosa?

Continuando a falar de armas — e para além das que surgem no livro, sólidas e afiadas como é próprio da escrita feminina — é importante referir também o poder das palavras. A língua italiana (la nostra lingua italiana) e as coisas que só podem ser ditas no dialecto napolitano. O latim e o grego surgindo não como línguas mortas, pelo contrário, línguas que mostram o que existiu antes de nós e permanece e tantas vezes nos oprime; então, línguas de possibilidades e rasgo?

O arrebatamento é grande e ainda nem acabei de ler "A amiga genial".

Cristina Fernandes.

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