segunda-feira, 11 de abril de 2016

Oh, valha-me deus!

Penso que não há dúvida alguma quanto à vocação cristã de Bau­delaire, mas é bom lembrar que há um abismo entre essa vocação e o que se poderia entender como sua atuação cristã. O que mais desconcerta no tocante a essa questão é perceber a fá­ustica oscilação de Baudelaire entre Deus e o Diabo, o que o le­va amiúde à prática das mais ingênuas e primitivas formas de maniqueísmo, o que se agrava devido ao uso que fazia o poeta de termos litúrgicos inadequados e cujo exato sentido ele decerto não chegou a compreender. Por isso mesmo, sempre que abordam temas religiosos, seus poemas acusam uma dupla impertinência: a da linguagem e a das noções expressas por essa linguagem. Há que se en­tender ainda que Baudelaire não era propriamente uma anima naturaliter chris­tiana, e sim uma anima natu­ra­liter religiosa, capaz, portanto, de criar uma religião particular que nenhuma relação guardasse com a religião tradicional, como acontece no poema “As litanias de Satã”, no qual o poeta estabelece um estranho gnos­ti­cismo neopa­gão e mani­queísta. Bau­de­laire tinha uma noção muito aguda do conceito de pecado original, bem como uma idéia muito clara e vital da redenção, mas seu cristianismo é dilacerado e dila­cerante, além de subjugado por um dua­lismo que em parte lhe explica o dilemático perfil de anjo e demônio. Dentre os en­saístas católicos que lhe analisaram a obra, parece-me que T. S. Eliot foi um dos que mais perto chegaram do nervo da questão, quando sustenta que o satanismo baude­lairiano poderia constituir uma oblíqua via de acesso ao cristianismo, já que, considerado em si próprio, ou seja, dis­sociado de sua para­fer­nália ima­gística e con­ceitual, es­se sata­nismo não deve ser entendido como simples afetação, e sim co­mo uma tentativa de alcançar o cristianismo pela porta dos fundos. É isso o que se vê no medonho espetáculo da crucifixão encenado por Baude­laire no poema “Uma viagem a Citera”, pois que aí o papel princi­pal não cabe àquele que morreu na cruz para nos salvar, mas sim ao que nela deveria padecer para condenar aquele que não nos salvou.

Ivan Junqueira.

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