quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Vida religiosa

Era uma vez um homem que estava preso ao céu por um fio. Se o fio era real ou apenas aparente, não me atrevo a afirmá-lo, visto não possuir nenhuma pedra-de-toque que me permita distinguir, sem margem para dúvidas, o verdadeiro do falso. O que me parece indiscutível é que não se encontra um homem assim todos os dias, nem mesmo em Inglaterra.
Ora, dadas as circunstâncias, a sua vida era tudo menos fácil. Tropeçava a todo o momento, braços e pernas ensarilhavam-se, cresciam nós incómodos em volta do corpo. Por vezes, à volta do pescoço. Apesar disso, não mostrava o mais leve sinal de impaciência. Na verdade, ser-lhe-ia muito fácil cortar o fio. Com uma tesoura, por exemplo.
Até que.
Até que, dizia eu, e este “até que” é tão importante que lhe dedicaremos todo um parágrafo: o seguinte.
Até que um dia, durante uma forte ventania, o fio partiu. Pela primeira vez, fugiu-lhe da boca um palavrão. Caiu de joelhos, desfez-se em lágrimas. Ele, dantes tão tranquilo, achava-se agora possuído por uma terrível angústia. Não sabia como viver, deitar-se, levantar-se, lavar-se, trabalhar sem a longa, segura e vertical presença do fio. Tudo era tristeza, desespero, horror.
Tais desgraças só vieram a ser apaziguadas por um acontecimento feliz que é bem conhecido de todos mas que, mesmo assim, sinto-me na obrigação de relatar. Vendo-se tão desanimado, o homem entrou para um convento. Ou para a ópera, já não sei bem. Não, parece-me que entrou mesmo para um convento, dedicando o resto dos seus dias à vida religiosa.

Publicado no Porto24, página dos Cronistas do Bairro.

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