Era uma vez uma inabalável lua de mel que não durou para sempre, entre um autor que escrevia mal e leitores que não sabiam disso. Tinha alguma importância que ele escrevesse mal se isso nunca se viesse a saber? Pois bem, um dia atiraram uma pedra contra essa placidez de candor. Aquela porção de público inocente abandonou-o; procurou outro autor. Mas onde encontrar hoje alguém que escreva mal, se escrever bem é a primeira coisa que o principiante faz e aprende-o em três ou quatro meses? É uma pena que se prive o autor de um público que não sabe que ele escreve mal. «Escrever bem» corresponde hoje ao que antes era a «caligrafia bonita». É tão vulgar que fugimos disso a sete pés, e se não lhe escapamos é porque o sono nos entorpeceu. O leitor comum que, nos nossos dias, encontre alguém que escreva mal, não o larga mais, porque não encontrará outro; em contrapartida, são incontáveis em toda a América os que escrevem bem. Mesmo em França, creio, já se está num novo «escrever bem», diferente...
de Cristina Fernandes e Rui Manuel Amaral