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A mostrar mensagens com a etiqueta Macedonio Fernández

Exercícios de cordialidade.

Era uma vez uma inabalável lua de mel que não durou para sempre, entre um autor que escrevia mal e leitores que não sabiam disso. Tinha alguma importância que ele escrevesse mal se isso nunca se viesse a saber? Pois bem, um dia atiraram uma pedra contra essa placidez de candor. Aquela porção de público inocente abandonou-o; procurou outro autor. Mas onde encontrar hoje alguém que escreva mal, se escrever bem é a primeira coisa que o principiante faz e aprende-o em três ou quatro meses? É uma pena que se prive o autor de um público que não sabe que ele escreve mal. «Escrever bem» corresponde hoje ao que antes era a «caligrafia bonita». É tão vulgar que fugimos disso a sete pés, e se não lhe escapamos é porque o sono nos entorpeceu. O leitor comum que, nos nossos dias, encontre alguém que escreva mal, não o larga mais, porque não encontrará outro; em contrapartida, são incontáveis em toda a América os que escrevem bem. Mesmo em França, creio, já se está num novo «escrever bem», diferente...

Traduzir Macedonio

Regresso a Macedonio Fernández. É a terceira vez em largos anos que tento «traduzir» um dos seus livros. Desisti duas vezes quando já tinha «passado» para português muitas dezenas de páginas. É o autor mais difícil que conheço. O Macedonio escreve propositadamente mal: inventa termos que às vezes roçam o mau gosto, repete palavras e ideias sem nenhuma necessidade, usa uma pontuação displicente, estica as frases até ao limite do suportável, e finge embrulhar as histórias em sistemas filosóficos muito peculiares. Este género de escrita «desajeitada», «canhestra», que em Roberto Arlt é talvez involuntária, é uma escolha, uma questão de estilo em Macedonio. Um estilo que no original tem uma potência explosiva e que em português parece confuso, errático, impossível de acompanhar. Acontece o mesmo nas poucas traduções que existem para outras línguas. É difícil o tradutor resistir à tentação de torcer o texto para «soar melhor» ou torná-lo «mais compreensível». Enfim, nada é certo numa traduç...