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Breve introdução a um encontro

Conheci Paulino Viota em 2024, nos Encontros de Cinema do Fundão. Na verdade, conheci dois Paulinos Viota: o realizador de Contactos (1970) – um filme arrojado e importantíssimo – que viu a sua promissora carreira cortada por um sistema de produção mercantilista e cego; e o professor-mestre que ensina não só a ver e analisar a matéria dos filmes, mas também a amar o cinema com um furor entusiasmado e alegre. Percebi logo que tinha de prolongar esta descoberta formidável: num ímpeto, decidi traduzir um dos seus livros. Falámos antes do seu regresso a Santander, na Livraria Livros Tintos (ah, tudo se conjugava!); e ele não só aceitou a minha proposta, como se propôs escrever um texto inédito para a edição portuguesa. O caminho dialéctico estava traçado.  Uma intuição certeira levou-me a um amor partilhado: John Ford. A leitura de Simetrías. Los 5 Actos en las Películas de John Ford foi uma espécie de epifania – era como se estivesse a ouvir Paulino numa das suas aulas, sentia a me...

Ideia

Neste livro, dediquei-me a traçar os mapas de um conjunto de filmes de John Ford, a reconhecer a sua topografia, os seus montes e rios, as suas cidades e, sobretudo, as vias de comunicação que tornam esses territórios transitáveis. Descrevo a morfologia, o organismo do animal, mas talvez não me tenha perguntado porque é que é assim. Todos os cineastas têm de «construir» o seu filme, e Ford não é diferente dos outros, mas parece ter uma particular lucidez sobre esta exigência. Se queremos converter um filme numa experiência para o espectador, se queremos torná-lo emocionante, talvez seja necessário fazê-lo memorável – a resposta pode estar aí. A construção fordiana pode ir nessa direcção de activar a memória. Se uma cena te aviva a recordação de outra, não é exagerado dizer que «vês» essa anterior duas vezes e, de certo modo, também a cena estímulo, porque o «decalque» a reforça. Assim, consolida-se a memória das duas.  Chegamos, então, ao problema da importância da memória para c...

Let’s go home, Debbie

Por exemplo, o belo (e famoso) gesto de Ethan Edwards no fim de The Searchers , quando se aproxima da sobrinha com intenção de a matar por ela se ter transformado numa squaw – levanta-a brutalmente no ar para a atirar contra as pedras e reprime-se de imediato, apertando-a nos braços ( Let’s go home, Debbie ) –, não é belo só por si mesmo, por ser capaz de dar corpo, num breve instante, a um acesso espontâneo de ternura, mas também, e principalmente, porque esse gesto é a repetição exacta do que Ethan fez no início do filme quando, ao regressar ao rancho do irmão passados vários anos em que andou a combater, ergueu a sobrinha no ar numa atitude de carinho que nos é familiar a todos, um estereótipo reconhecível.  Se estou empenhado em destacar os gestos por si mesmos, então posso considerar que destas duas acções gémeas, a melhor é a segunda. É a que resolve o filme, a que condensa por inteiro The Searchers . Mas, se essa acção estivesse sozinha, não teria a mesma riqueza (não me o...

Paulino Viota / John Ford

No próximo sábado, dia 27, às 19:00, na Térmita , eu e o Daniel Ferreira, da Contracapa, vamos falar de duelos, simetrias, figura e consumação, entre outras coisas. Vai haver muito desvelo e fogo de artifício.

No prelo

Lançamento no Fundão .

Best-seller

Graças ao Daniel e à Diana, o Caderno de Talamanca é o livro mais bonito de Cioran que já vi. Entretanto comecei a fazer pequenas emendas à tradução, o que sustenta o meu carácter duvidoso. Não há contradição entre os axiomas.