segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Um permanente desejo de subversão

Há nos personagens de Virgilio Piñera um permanente desejo de subversão. O mundo, ou melhor, a sociedade, estão organizados segundo regras demasiado estreitas e lineares, impossíveis de aceitar (neste ponto, é óbvio que Piñera tem como principal referência o regime castrista de Cuba, de que foi uma das vítimas, mas não só).
Ora, os seus personagens refractários desafiam todas as convenções, mas sofrem igualmente todas as consequências. Tal como o leitor, adivinham desde a primeira linha o seu brutal destino, mas há uma força incontrolável que os impele a seguirem em frente e a não se desviarem um milímetro do seu objectivo. Há qualquer coisa neles de profundamente religioso, sacrificial, como se estivessem predestinados a uma espécie de imolação voluntária. É essa impossibilidade consciente de escaparem ao seu "destino" que faz deles personagens cómicos. De um humor raro e trágico.

Virgilio Piñera vai estar na ªSede, no Porto, no dia 28 de Janeiro, às 17h00.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Nunca pedes a palavra

É o que admiro em ti: falas pouco, és tão distraído, mas tens um efeito tão forte. Por isso também acho natural que as pessoas comentem: que há ano e meio assumiste o lugar na Câmara Alta, mas nunca pedes a palavra. Está perfeitamente de acordo com um senhor como tu! Um senhor assim fala através da sua personalidade! Pois bem, eu observo-te. Daqui a alguns anos também sou assim. Por agora ainda tenho demasiada paixão. Tu nunca vais direito aos assuntos e não tens propriamente uma retórica, isso é que é elegante em ti.

Hugo von Hofmannsthal, O indeciso. Tradução de Ludwig Scheidl.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Nada

Quando leio certos contos de Virgilio Piñera, a minha memória convoca também Robert Walser. Há em ambos uma atracção obsessiva pelo nada. As histórias parecem desfazer-se em pó. Os personagens parecem deslizar fatalmente para a desintegração. O que os distingue é uma diferença de grau, conferida talvez pela cor local. Piñera aproxima-se do nada por via do excesso, Walser por defeito. Piñera explode em imagens espantosas e truques formidáveis antes de tudo acabar no mais completo silêncio. Walser não grita, não gesticula, nunca muda de tom ou ritmo. No fim, o silêncio e o vazio são os mesmos: "Sem tempo, sem espaço, sem memória, sem nostalgia" (Piñera, Salão Paraíso).

Onde se lê "teatro" pode ler-se "literatura"

O meu teatro (peço desculpa por dizer "o meu teatro") sou eu mesmo, mas teatralizado. Ora, pertenço a uma época da história de Cuba marcada por grandes inseguranças - económica, social, cultural, política. Portanto, não é por acaso que as levo para o palco. O senhor deixou deslizar pela sua pergunta as palavras "absurdo" e "sátira". O ente social inseguro vive a sua insegurança como um absurdo e defende-se dela com a sátira.

Entrevista com Virgilio Piñera, revista Conjunto, 1971.

Tudo é literatura

A frase que diz “E o resto é literatura”, faço-a minha, mas modifico-a, dizendo: “Para mim tudo é literatura...” Não adopto com esta declaração uma postura cómoda, como se dissesse: “Pois bem, tive um problema, mas serve-me para escrever uma história; perdi um amigo, mas ganhei um livro.” Isso seria demasiado fácil, demasiado simples e miserável.

Virgilio Piñera, Teatro completo, p. 23

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Sábado, 28 de Janeiro, 17h00

Messias e rinocerontes

Na peça “Jesus”, de 1948, Virgilio Piñera conta a história de um simples barbeiro de bairro, justamente chamado Jesus, que os vizinhos declaram tratar-se do novo Messias. O pobre barbeiro rejeita tal predicado e nega todos os milagres que lhe atribuem. As concidências, porém, ajudam a confirmar esta ficção absurda: os pais, por exemplo, chamam-se Maria e José.
Ora, vítima de tão excepcionais e involuntárias circunstâncias, vê-se forçado a enfrentar o fanatismo popular e a proclamar a sua condição de “Não-Jesus”. Desta maneira, nega não apenas a sua condição de Messias, mas também a sua própria condição individual, uma vez que efectivamente se chama Jesus. O problema assume proporções inimagináveis: o Vaticano envolve-se no assunto (aconselha-o a não confirmar nem desmentir a fé do povo na sua suposta natureza divina, Vox populi vox Dei) e as autoridades públicas exigem-lhe que realize façanhas prodigiosas. Por compaixão, ajuda algumas pessoas que lhe pedem milagres e que, por isso, se convertem em seus seguidores. Jesus é preso, escapa, faz uma ceia – uma última ceia – e, por fim, é assassinado.
Esta peça de “teatro do absurdo”, que está de certa forma na origem de um dos contos mais impressionantes de Piñera, “O Grande Baro”, de 1954, aparece antes de Beckett, antes de Ionesco e antes de Adamov. O “Rinoceronte”, por exemplo, a peça de Ionesco que partilha vários elementos e ideias com “Jesus” (os tópicos da infinita solidão do indivíduo perante a multidão, o homem isolado e acossado pelo mundo, etc.) é de 1958. E, claro, “A Vida de Brian”, dos Monty Python, só chega aos cinemas em 1979, e “As sagradas escrituras”, de François Cavanna, é publicado em 1982.
Isto mostra que Piñera é mais genial que Ionesco ou os Monty Python? Não se trata disso. Trata-se apenas de demonstrar que o poder da literatura é inesgotável e que um dos grandes prazeres do leitor é descobrir autores excepcionais, que abrem portas para novos labirintos, uns após outros.

Virgilio Piñera vai estar na ªSede, no Porto, no dia 28 de Janeiro, às 17h00.

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