quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Breve esclarecimento sobre as árvores

É sabido que, de todos os seres que habitam o planeta, as árvores são os mais reservados, sensíveis e esquivos. Não existem outros iguais, nem sequer parecidos. Para o provar, basta lembrar o limitadíssimo número de humanos que conseguiu observar duas árvores a fazer amor. Para além de mim, apenas mais três ou quatro pessoas, incluindo, segundo creio, Mozart*.
Os seus transportes amorosos são regidos pelo mais profundo segredo. As árvores têm um faro muito apurado e nem por um só instante se deixam surpreender. Armadas de infinita paciência, esperam durante anos pelo momento certo para gozarem tranquilamente os doces prazeres, em dias de pesado e denso nevoeiro. O tema tem sido, por isso, campo fértil para a imaginação e a fantasia, existindo teorias para todos os gostos, algumas das quais bastante engenhosas e extraordinárias.
Para esgotar duma vez este assunto e desembaraçar-me dele para sempre, vou descrever os factos tal como os testemunhei, deixando aos leitores o encargo de formular o seu próprio juízo. Esta é a verdade: as árvores fazem amor sem moverem uma raiz, um raminho, uma folha sequer. Levantam voo aos pares, caem por terra, levantam voo de novo, giram no ar como longas borboletas, envolvem-se em tocantes e misteriosos bailados, e voltam a pousar sem saírem do sítio, sem um gesto. Frágeis como o orvalho da manhã, breves como um clarão de luz.
E acabou-se. Tudo se resume a isto. Disse até mais do que o necessário. E quem diz o que sabe, faz o que pode e dá o que tem, não é obrigado a mais.

* Algumas peças de Wolfgang Amadeus, em especial o Quarteto de Cordas n.º 22, parecem confirmar a minha convicção de que o compositor também terá visto árvores em cupidinosas relações.

Publicado na página do Bairro dos Livros, no Porto24.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Oh, my stomach, my stomach.

Two chairs were placed side by side in the middle of the room. There the heroes were seated while the partisans ranged themselves right and left, waiting for the wits to sparkle and flash.
Joyce said, ‘I’ve headaches every day. My eyes are terrible.’
Proust replied, ‘My poor stomach. What am I going to do? It’s killing me. In fact, I must leave at once.’
‘I’m in the same situation,’ replied Joyce. ‘If I can find someone to take me by the arm. Goodbye!’
‘Charmé,’ said Proust. ‘Oh, my stomach, my stomach.’

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Espíritos cultivados

Um espírito cultivado como esse não tem verdadeiramente interesse para mim. Admiro-o, aprecio tous les soins et les peines que foram necessários para o produzir - mas deixa-me fria. Afinal de contas, a aventura está terminada. Agora já não resta nada a fazer senão podar, aparar, ligar as ramadas - e todos estes labores são um pouco deprimentes. Não, não, os espíritos que amo devem conservar ainda certos cantos selvagens, a desordem de um pomar onde os sombrios abrunhos roxos chovem sobre a erva pesada, um pequeno bosque crescendo ao abandono, a possibilidade de uma cobra ou duas (cobras verdadeiras…), um lago a que ninguém sondou a profundidade e atalhos, atalhos recamados dessas pequenas flores plantadas pelo espírito… É necessário também que tenha esconderijos verdadeiros e não menos artificiais, belvederes ou labirintos. Nunca encontrei um espírito cultivado que não tivesse alamedas arborizadas. E eu detesto, abomino as alamedas arborizadas.

Katherine Mansfield, Diário. Tradução de Fernanda de Castro.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Aquilo em que ninguém reparara antes

Ninguém sabia de onde viera nem como chegara à cidade. Apareceu aqui um belo dia e foi tudo. O mais certo é ter caído das nuvens ou brotado do chão como uma erva rara. O fio do mistério começava justamente neste ponto.
Passava os dias e as noites sentado nas esplanadas a enrolar cigarros e a espiar vagamente o plácido curso das horas. Fazia lembrar – que os grandes mestres da literatura me perdoem – um morno e indolente gato ao sol. De vez em quando pegava num livro, sem intenção de ler, abria-o ao acaso e punha-o logo de parte. Depois, engolia uma cerveja sem parar para respirar e ficava a olhar saudosamente para o copo vazio. Metia conversa, gracejava, contava anedotas no melhor dos ânimos. E quando era convidado para uma partida de cartas, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos empregados. Penso que tudo isto é o que se pode chamar um procedimento esquisito.
Intrigados, muitos de nós começaram por conceber teorias fantasistas e abracadabrantes, rejeitando uma de cada vez. Decidimos então observá-lo mais de perto. Fizemos turnos. Explorámos pistas. Ensaiámos emboscadas. Dezenas de olhos interrogativos fixaram-se nele com uma concentração gelada e significativa. Alguns morreram antes de alcançarmos uma explicação, antes sequer de descobrirmos o seu nome.
Só ao fim de muito tempo, numa inesquecível tarde de um mês com “s”, vi com os meus próprios olhos aquilo em que ninguém reparara antes. O homem usava peúgas vermelhas. Um misterioso par de peúgas vermelhas oculto sob as botas de camurça. Nesse decisivo momento, milhares de válvulas abriram-se na minha cabeça e tudo se tornou absolutamente claro para mim.

Arquivo