segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Notas sobre "Lançamento": Sufocação

O morto mais célebre de “Lançamento” é Portugal. O país vai desaparecendo em vários poemas, numa longa morte lenta, e em “Jaime e José” é já um “corpo exangue caolho”. No poema, Portugal é um peixe, um bicho escorregadio, que se evadiu do mapa, abandonou a água, “respira com dificuldade” em terra, debaixo de um sol abrasador. “O que havemos de fazer com este peixe?” Em certos momentos, porém, pela força de fenómenos pouco óbvios, “o país é mais que peixe”: “quando se juntam pessoas há sempre alguma coisa acontece”. Será suficiente para conseguirmos recuperar o fôlego e voltarmos a ter pé?

domingo, 4 de dezembro de 2016

Sábado, 10 de Dezembro, na Sede



Sábado, 10 de Dezembro, a partir das 17h00, ªSede recebe Margarida Vale de Gato para o lançamento de "Lançamento", o magnífico e mais recente livro da autora, editado pela Douda Correria.

Ao longo da tarde, haverá ainda a apresentação de "Tâmaras", de João-Paulo Esteves da Silva, e de "Clube dos Haxixins", de Nuno Moura, também do catálogo da Douda Correria.

Contamos com todos na Rua de Santa Catarina, 787, no Porto, ou em: Site | Facebook.

Notas sobre "Lançamento": tristes cenas e duques e bobos

Podia prosseguir a leitura de “Lançamento” dobrado, ainda e outra vez, sobre o tópico da morte. Outro poema: “Mário.” Aqui a morte é de outra substância. É a da passagem do tempo e da impossibilidade de mudar o passado: “Por todas as minhas desintegridades/ me desculpem os Mários (…) peço só/ que me possam perdoar amigos que não defendi.” Os nossos erros, as nossas falhas, as nossas “desintegridades”, acumulam-se na memória como um saco cheio de pregos. Dizia eu que podia prosseguir por este caminho, mas, neste caso, prefiro sublinhar o humor de Margarida Vale de Gato. Um humor fino e elegante, carregado de auto-ironia, que faz sorrir por dentro. “Mário” é mais um poema que, como um espelho, reflecte a imagem do próprio leitor (“somos o livro do livro que lemos”). Num qualquer ponto da vida, fomos talvez um Mário e o autor deste poema:

(...) Mas no final o Mário Viegas tornou a si do carácter
e à boca de cena como Balzac acusou
a atitude da espectadora que à entrada displicente
com um assobio desfalcado e um mal amolado estalo dos dedos
exclamara que era roubo o preço do teatro
quando tanto da vida davam os atores às vezes sob tortura
quando a juventude irreal esbanjava fáceis fortunas.

Eu era a insolente e por mais que me afundasse
não achei no pânico a escotilha na plateia
e enjoei e engoli meio desfeita as têmporas
por todo o esterno empolgado, por instantes só quis
que o Mário Viegas não tivesse existido se não pudesse calar-se
relevar, abençoar, envolver no seu pullover
a minha cabeça rubra à raiz dos cabelos
desmerecida então do mar do teatro de velas e pinturas.

(…)

Anos mais tarde com meu amor num bar que salvo o erro
tinha nome religioso houve um outro Mário mais novo
que também era do teatro. Eu já devia ter parado de beber
e não me agradava a conversa que creio ter sido
ou eu ter entendido acerca de gajas de toda a maneira
eu já não era tão jovem e sofria mais.

E sempre cobarde dirigindo o juízo ao que menos contava
a minha mão voou aberta à bochecha do novo Mário
e ele inchou, senão de dor, de rancor, todo
transfiguração e ultraje, nisso vendo a deixa
para colocar a mais alta voz da representação
no vitupério das minhas maneiras, das minhas peneiras
tristes cenas e duques e bobos todos de madrugada (…).

***

O humor cinzento e a auto-ironia melancólica que perpassa em tantos poemas deste livro – Mário, Miguel, Nuno, etc. – faz-me pensar num outro livro com o qual “Lançamento” partilha um certo universo formal: “Spoon River”, de Edgar Lee Masters. Um grande livro remete para outro e este para um terceiro e assim sucessivamente. É uma maneira de construir bibliotecas.


"Lançamento", de Margarida Vale de Gato, será apresentado na Sede, sábado, 10 de Dezembro, pelas 17h00.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Notas sobre "Lançamento": Nomes


As páginas de “Lançamento” não estão numeradas. A ausência de numeração abre um espaço vazio na página, que provoca uma leve sensação de vertigem, de perda de pé. Formalmente, o livro não tem princípio, meio ou fim. O leitor concentra então toda a atenção nos títulos dos poemas; é uma questão de intuição, de manobra involuntária para não perder o equilíbrio. Cada título corresponde a um nome próprio: Alice, Luís, Paulo, Mário, etc. O nome ganha uma importância invulgar, o leitor apoia-se desesperadamente nele. Em princípio, trata-se de uma ilusão. Um nome próprio é apenas isso, sem mais pistas. O truque, porém, funciona: não há nada mais humano, mais pessoal e íntimo do que um nome. O leitor é forçado a usar a imaginação para construir um contexto para o nome, uma textura, um corpo - pele, veias, músculos, órgãos -, uma memória e as respectivas cicatrizes. O leitor escreve o poema. As palavras são aquelas, as ideias são aquelas. Agora, somos aquele nome e aquele texto. Acho que a literatura é isto.

***

Wolfgang Iser (Der Akt des Lesens, Munique, 1976) conclui que só o leitor que se coloca na situação do texto consegue experimentá-lo como a imagem que ele é, em vez de reduzi-lo a um sentido comum.

Alberto Pimenta, O Silêncio dos Poetas.


"Lançamento", de Margarida Vale de Gato, será apresentado na Sede, sábado, 10 de Dezembro, pelas 17h00.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Notas sobre "Lançamento": Queda

O primeiro livro de Margarida Vale de Gato intitulava-se “Mulher ao mar”. Este segundo chama-se “Lançamento”. É quase impossível não estabelecer uma relação directa entre os títulos. Ambos remetem para a ideia de salto e queda. E se “Lançamento” foi precipitado “porque alguém que era próximo morreu”, como escreve a autora na “introdução”, “Mulher ao mar” funciona como uma espécie de assombroso prenúncio. Um secreto mise en abyme. Ou não. É fácil ver a morte para onde quer que olhemos.

***

A queda bíblica pertence ao Homem e a Lúcifer. Há um poema em “Satanás Diz”, de Sharon Olds, traduzido por Margarida Vale de Gato e intitulado “Teme-se que se tenha afogado”, que insiste em introduzir-se na minha leitura de “Lançamento”. Eis o poema de Olds:


TEME-SE QUE SE TENHA AFOGADO

De repente ninguém sabe onde estás,
o teu fato negro como algas, o teu rosto
barbudo escorregadio como foca.

Alguém olha pelas crianças.
Avanço até à fímbria da água, agarrando-me à toalha
como um véu de viúva sobre mim.

Nenhum dos nadadores condiz.
Muito baixos, corpulentos, de barba feita,
erguem-se da ressaca, a água
escorrendo-lhes pelos ombros.

As rochas despontam junto à costa como cabeças.
A barrilha espalha-se como um fato negro esfarrapado
e não te consigo encontrar.

O meu estômago começa a contrair-se como que
para vomitar água salgada.

quando subindo a areia ao meu encontro vem
um homem que se parece muito contigo,
a sua barba eriçada como as ervas da praia, o seu fato
negro como uma concha húmida contra o seu corpo.

Aproximando-se, afinal ele
és tu - ou quase.
Quando se perde alguém nunca é
exactamente a mesma pessoa que regressa.


"Lançamento", de Margarida Vale de Gato, será apresentado na Sede, sábado, 10 de Dezembro, pelas 17h00.

Notas sobre "Lançamento": Diana

Em “Diana”, um dos poemas mais bonitos de “Lançamento”, Margarida Vale de Gato cita o que a grande poeta Marianne Moore dizia da poesia: “Eu cá também não gosto, há mais coisas além deste desconchavo.” Alguns versos depois: “Mais importa observar ou designar?” Portanto - isto sou eu agora a dizer -, é mais importante a vida ou a poesia? A realidade ou a imaginação? Os acontecimentos ou a memória que formamos a partir deles? Apetece colocar aspas em todas estas palavras como se fossem asas para levantarem voo. Porque não há apenas “vida” ou apenas “poesia”, as duas coisas são a mesma. A mesma coisa contraditória, inexplicável, bela e monstruosa. Não é possível escolher entre a vida e a poesia, nenhuma das duas é mais ou menos importante. Mais à frente ainda: “Portanto sirvo mal, sou outra, fora/ do baralho, turista aqui em tanto/ do que me dá prazer e algum trabalho.” E a razão de tudo isto, de toda esta impossibilidade, reside na mais prosaica das causas: a morte. Diante da morte, nada nos salva, tudo se torna insignificante. “Se insisto/ à minha pouca escala nisto eu/ é porque não desligo e toco e falho/ no material à vista, língua/ crua clara em bruto céu.” A poesia não salva, nada resolve, será sempre um falhanço, mas é também uma forma poderosa de enganar um pouco a morte.

***

Não se trata de uma qualquer espécie de fé, quer dizer, de acreditar que a poesia pode ajudar a dar um sentido ao mundo. Estamos condenados a não ir além do meio do caminho. Mas a imaginação e a poesia são o que nos resta, com elas somos capazes de dar nomes às coisas. Dar nomes às coisas é a nossa maneira de olhar no escuro, ver debaixo de água turva. É a nossa maneira de tentar perceber a morte.


"Lançamento", de Margarida Vale de Gato, será apresentado na Sede, sábado, 10 de Dezembro, pelas 17h00.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

ªSede abre dia 3 de Dezembro



Dia 3 de Dezembro, às 17h00, abre ªSede. Um espaço na Rua de Santa Catarina, 787, no Porto, onde se pretende propor um conjunto de actividades artísticas e culturais, programadas por mim, com a cumplicidade inteligente da Carolina Lapa e do Luís Nobre (os dois Lina&Nando), também responsáveis pela imagem e comunicação.

Para assinalar a abertura de ªSede, propusemos ao José Cardoso a montagem de uma exposição com vários dos seus notáveis trabalhos fotográficos, a que demos o título de “Artes Plásticas”. A inauguração, que inclui vários inéditos, é às 17h00 e a entrada é livre.

Ainda em Dezembro, haverá uma jornada de Douda Correria, no dia 10, com a apresentação de “Lançamento”, o mais recente livro de Margarida Vale de Gato, que viaja até ao Porto na companhia de Nuno Moura, autor de "Clube dos Haxixins", e João Paulo Esteves da Silva, autor de "Tâmaras".

Por fim, no dia 17, recebemos D. Duarte, o senhor da Livraria Snob, para um venda de Natal, que inclui centenas de livros raros e seleccionados.

Contamos com todos.

ªSede é um espaço reabilitado e gentilmente cedido pela Reurban, do nosso Jorge Garcia Pereira.

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