quarta-feira, 15 de novembro de 2017

"145 poemas", de Kaváfis



Este livro começou a ser escrito em 1896, demorou vários anos a ser traduzido pelo Manuel Resende, e é apresentado no próximo sábado, 18 de Novembro, às 18h30, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. É a mais bela e perfeita versão dos poemas de Konstantinos Kaváfis em língua portuguesa. A edição é da Flop.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

N.º 10 da Rua Lepsius

[Konstantinos Kaváfis] vivia desde 1907 no segundo andar do n.º 10 da Rua Lepsius, [em Alexandra], microcosmo onde o seu quotidiano se circunscrevia. «Onde poderia eu viver melhor?» Confidenciou um dia. «No andar por de baixo do meu, o bordel trata da carne. Do outro lado da rua há a igreja que perdoa os pecados. E depois, mais adiante, há o hospital, onde morremos.»

Mário Avelar.

domingo, 12 de novembro de 2017

Quatro breves notas sobre O Cavalo de Turim

1) Endgame

Se Béla Tarr decidisse filmar Endgame, de Samuel Beckett, talvez o resultado não fosse muito diferente de O Cavalo de Turim. Uma casa isolada numa planície praticamente deserta. Dois personagens ali encerrados, um homem e uma mulher, pai e filha. Uma porta e uma janela. O que sabemos do exterior resume-se praticamente ao que é possível observar a partir dessa janela. Dias e noites sucedendo-se, aparentemente iguais entre si.

HAMM
(...) Como está tudo?


CLOV
Como está tudo? Numa palavra? É o que queres saber? Um segundo
(aponta o óculo para fora [da janela], observa, baixa o óculo, volta-se para Hamm.) Mortibus.





2) Deus criou o mundo em seis dias, o mesmo tempo que demorou a destruí-lo

A narrativa de O Cavalo de Turim decorre em seis dias, ao longo dos quais cada coisa se vai apagando, numa espécie de lento e inexplicável desmaio. Todos os elementos da natureza começam a falir, um após outro, incluindo os sinais vitais dos personagens. No último plano, antes do derradeiro fade out para negro, pai e filha assemelham-se a duas estátuas de pedra, dois vestígios humanos para uma qualquer longínqua arqueologia.

O que acontece em O Cavalo de Turim é a descrição do Génesis em sentido inverso, quer dizer, do fim para o princípio.

Deus disse: “Faça-se a luz!” e a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. Deus chamou à luz Dia, e às trevas Noite. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia.
Génesis, 1.

O primeiro dia da criação corresponde, no filme de Tarr, ao sexto dia, o dia em que a luz se extingue, em que a manhã se confunde com a noite, e o mundo regressa ao princípio, ou melhor, antes do princípio, ao tempo em que “a terra estava informe e vazia” e “as trevas cobriam o abismo”.

Nietzsche declarou a morte de Deus. E Deus vingou-se no filme de Béla Tarr. Da mesma maneira que criou o dia e a noite, o céu e a terra, o homem e a mulher, também os destruiu, em seis dias.





3) Terra, água, fogo e ar

Mas não é apenas a revolta de Deus que se pressente no filme. O que vemos é a revolta da própria natureza. O primeiro indício está no título, O Cavalo de Turim, que evoca o episódio que terá precipitado o colapso nervoso de Nietzsche, e que Tarr usa como prólogo:

Em Turim, a 3 de Janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche saiu do n.º 6 da Via Carlo Alberto, talvez para dar um passeio. Ou talvez para ir aos Correios buscar a correspondência. Não muito longe dele, ou por outra, bastante longe até, um cocheiro estava a ter dificuldades com a teimosia do seu cavalo. Apesar de todos os seus esforços, o cavalo recusava-se a andar, a pontos que o carroceiro - Giuseppe? Carlo? Ettore? - perdeu a paciência e começou a vergastá-lo. Nietzsche aproximou-se do ajuntamento e pôs fim à brutal cena protagonizada pelo carroceiro, que, entretanto, espumava de raiva. Homem corpulento e de bigode farto, Nietzsche põe-se à frente da carroça e abraça-se ao pescoço do cavalo, soluçando. Um vizinho leva-o a casa. Ali permanece prostrado no divã em silêncio durante dois dias, até balbuciar as suas últimas palavras, “Mãe, sou um estúpido”, após as quais viveu mais dez anos, dócil e demente, entregue aos cuidados da mãe e das irmãs. Do cavalo… Nada sabemos.


Deus morreu e quem lhe sucede é um carroceiro impiedoso a vergastar um cavalo, que é o mesmo que dizer, um homem a violentar a natureza, na esperança de que, pela força, ela lhe obedeça. No filme, tal como o cavalo da história de Nietzsche, a natureza decide deixar de obedecer. Primeiro é a terra: em torno da casa, há apenas um terreno seco e frio, onde se vislumbra uma única árvore, despida, talvez morta. Depois, a água: no quarto dia, o poço seca. No quinto dia, apaga-se o fogo: Que escuridão é esta, pai? Os candeeiros a petróleo não acendem e as brasas extinguem-se. Por fim, extingue-se o vento. A casa e os personagens são finalmente engolidos pela escuridão e o silêncio.




4) Uma gaiola vazia

No meio da casa, suspensa do tecto, há uma gaiola. No interior da gaiola não há nada. É possível que ali tenha vivido um pássaro. Apesar disso, permanece no centro da casa, como se tivesse uma qualquer função importante. Talvez a gaiola vazia represente o primeiro sinal de extinção. Tal como os pássaros que os mineiros transportavam em gaiolas para o interior das minas e que tinham por função indicar a presença de gases tóxicos nas galerias subterrâneas. Se os pássaros desmaiassem ou morressem, os mineiros sabiam que corriam perigo de vida e que tinham que abandonar rapidamente a mina. Em O Cavalo de Turim, os personagens não têm escolha. Não há maneira de escapar.



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

1971-1986



Sequência de abertura de Morte em Veneza, de Luchino Visconti, 1971. Em fundo, música de
Mahler: Adagietto, da Sinfonia n.º 5.



Sequência de abertura de À flor do mar, de João César Monteiro, 1986. Em fundo, música de Bach, Adagio ma non tanto, da Sonata n.º 3 em mi menor, BWV 1016.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Princípios essenciais de geografia



Ao contrário do que acontece em certas obras de ficção, tudo o que aqui se diz é absolutamente verdade. Tudo o que aqui está, ou existe, ou existiu.

Um pouco mais à frente, lê-se o seguinte:
É por isso que não posso entreter-vos com uma história que seria, a um tempo, empolgante, obscura e dramática.

Juntando as duas frases, obtemos o programa:
Ao contrário do que acontece em certas obras de ficção, tudo o que aqui se diz é absolutamente verdade. Tudo o que aqui está, ou existe, ou existiu. É por isso que não posso entreter-vos com uma história que seria, a um tempo, empolgante, obscura e dramática.

A antiga e sempiterna fronteira entre realidade e ficção. O que faz ela aqui, de novo, quando sabemos que essa linha, tão vaga como um castelo no ar, é um truque de ilusão? A resposta reside justamente no facto de ser o primeiro truque da literatura. O grande truque a partir do qual se geram todos os outros. Um bom autor coloca, desde logo, as cartas na mesa e propõe ao leitor as regras do jogo: vou contar-te uma mentira como se fosse a mais pura das verdades e tu vais fingir que acreditas.

O exemplo de Nabokov:
De repente havia um baralho de cartas nas suas mãos.
- Pense numa carta, por favor, na carta que quiser - propôs; dispondo as cartas na mesa, empurrou o cinzeiro para o lado com o cotovelo; continuou a dar.
- Já pensamos numa - disse com toda a confiança o director, todo contente.
Permitindo-se alguns passes de mágica, Msiê Pierre levou o indicador à testa; em seguida, juntou rapidamente as cartas, fez estalar habilmente o baralho e tirou um três de espadas.
- Isto é espantoso - exclamou o director. - Simplesmente espantoso!
O baralho desapareceu tão repentinamente como aparecera.

Vladimir Nabokov, Convite para uma decapitação. Tradução de Carlos Leite.

Tudo o que se revelar a partir daqui é a verdade e a mentira ao mesmo tempo. O verso e o reverso. O objecto e a sua sombra.
Gigantes ou moinhos de vento? As duas coisas.
É assim que todos os bons livros devem começar.

Apresentação de Carpe Diem..., de Adriana Crespo, na livraria Flâneur (Porto), 10 de Novembro, às 18h30.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Debaixo da pele

O grande motor da tragédia é a morte. Ao contrário dos deuses, nós morremos e somos presa fácil de todos os seus caprichos. Mas se a morte é a nossa grande tragédia, é também o nosso ponto de fuga. O fim de tudo. O que acontece em Tatuagem, de Dea Loher, é que a morte ganha vida, reproduz-se e avança como um cancro. A tatuagem está inscrita pelo lado de dentro, no avesso da pele, não se pode arrancar senão arrancando o próprio coração. Não existe fim para a tragédia em Tatuagem.


Primeiros indícios

Uma família de quatro pessoas vive encerrada no interior de quatro paredes, um segredo quadrado, “a incurável doença da gaiola”. O pai Wolf, a mãe Juli, e as duas filhas adolescentes, Anita e Lulu. Os indícios começam aqui. O pai é o lobo (Wolf); a mãe é uma espécie de cão fiel do pai (Juli dos Cães), incapaz de ladrar e de mostrar os dentes; Anita é a filha mais velha, vítima silenciosa dos abusos sexuais do pai; e Lulu, a filha mais nova e rebelde.





Segundos indícios

Wolf é padeiro. É com o seu pão que alimenta a família. A família “onde cada um dos elementos está bem/ onde cada um tem direito àquilo que quer/ e onde não falta nada a ninguém/ porque o pai é o abastecedor de todos eles.” É impossível não pensar no pão da tradição cristã, o pão nosso de cada dia, que simboliza o corpo e a carne de Deus Pai: "Eu sou o pão vivo (...). Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei-de dar, é a minha carne"  (João 6:51).

Juli é cabeleireira de cães e vive como o mais obediente dos cães: “posso dizer que gostava de ser um cão/ sendo que um cão não pode dizer que gosta de ser um cão/ e nem sequer pensar que gosta de ser um cão.” Usa uma máscara no rosto em vez do focinho. Só a retira quando Wolf lho ordena ou quando ele não está presente. A máscara impede-a de falar e, sobretudo, de pensar. A sua relação com Wolf é como a de um cão para o seu dono. O cão de Deus. É só isto.





Para a vida toda

Anita é violada uma e outra vez pelo pai e não tarda a ficar grávida. A tatuagem irremediável que jamais será removida: “a marca/ para a vida toda/ o sinal paterno/ que nunca se apaga.” A morte cresce no interior de Anita, “o susto” que leva consigo “aonde quer que vá”, uma “semente de medo/ indestrutível”, que “pesa no coração”. Uma sombra viva “com um olho diferente do outro”. Quando Paul entra em cena, com as suas flores e pólens e vislumbres de Primavera, sol ameno, e a promessa de um novo começo para Anita, ela é incapaz de uma ligação plena: “Há qualquer coisa/ dentro de mim/ que não me deixa/ pertencer/ a mais ninguém.” Paul é a quarta vítima de Wolf.





Lulu

Lulu, a filha mais nova, parece uma espécie de reencarnação da personagem homónima de Frank Wedekind. “É entrar, é entrar no antro das feras” (Wedekind, O espírito da terra). Também a Lulu de Wedekind e o pai, Schigolch, têm uma relação que ultrapassa a estrita ligação filial.

LULU
O que quiseres! O que eu tiver!

SCHIGOLCH
Faz quase dez anos que não estamos os dois.

LULU
Se for só isso? - As vezes que quiseres!

Frank Wedekind, A caixa de pandora, Acto II.


Tal como a Lulu de Wedekind, a de Loher ambiciona mais do que “ficar sentada atrás dumas grades/ à espera”, acha-se “uma profissional”: “Se me dão umas notas simpáticas/ porque é que eu não havia de aceitar (...) e se alguém me quiser prender/ sejas tu/ ou um outro cabrão qualquer/ eu mato.” Mas, já se sabe, Lulu foi criada para alimentar a tragédia e nenhuma delas se salva porque nenhuma mulher tem esse direito:

Minha ferazinha não sejas afectada!
Nem tola, artificial, de muitos acenos,
Mesmo que os críticos te elogiem menos.
Não tens o direito, a miar, gemer,
De retorcer o arquétipo da mulher,
Com caretas e trejeitos de ofício,
Estragar a inocência infantil do vício.

Frank Wedekind, Espírito da terra, Prólogo.





No fim está o princípio

De modo que nos aproximamos do fim, que é o mesmo que o princípio, tal como a coleira redonda de um cão. As negras sementes foram lançadas e germinaram. E dessas sementes outras germinarão, tão negras como as primeiras.


WOLF
Preciso de ti agora
Vais substituir a mãe
Falta a mão de uma mulher
Sobretudo agora
que a Lulu
tem a barriga redonda

ANITA
A Lulu

WOLF
Pois a Lulu
Tu tiveste mais cuidado
não foi
Com ela
a primeira massa a entrar no forno
deu logo bolo
Portanto pega na criança
e faz as malas
Quero ter a família
por perto
Filhos
e filhos de filhos.


Tatuagem, de Dea Loher, pela companhia A Turma e encenação de Manuel Tur. Em cena no Teatro Carlos Alberto até 29 de Outubro.

domingo, 22 de outubro de 2017

Leia Cícero!

Arnaud conhecia bem o fruto que se pode tirar da leitura atenta de um autor. Como lhe perguntassem o que era preciso fazer para se obter um bom estilo, respondeu:
- Leia Cícero.
- Mas - tornou a pessoa que o consultara -, eu queria aprender a escrever bem em francês.
- Nesse caso - tornou Arnaud -, leia Cícero!

Antoine Albalat, A formação do estilo pela assimilação dos autores. Tradução de Cândido de Figueiredo.



"A formação do estilo pela assimilação dos autores." O título é todo um programa.

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