segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Próximo sábado, 1 de Outubro, pelas 17h00


No próximo sábado, 1 de Outubro, às 17h00, damos início a mais uma temporada de Leituras do Gato Vadio. Para começar, mergulhamos de cabeça nos textos do genial Kurt Tucholsky.
A convidada é a Clara Riso.
A imagem da leitura é do Luís Nobre, da dupla Lina&Nando.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Os pés de Elena Ferrante

Quebro muitas vezes a regra de só falar daquilo que sei pelo menos alguma coisa. Seguir uma intuição é menos do que seguir o rasto de um avião, mas não me sai da cabeça uma ideia sobre a escrita de Elena Ferrante. Nem sequer é bem uma ideia, não passa de uma hipótese ou até um desejo pateta. Acabei "A amiga genial" e estou à espera que me emprestem os outros livros. Entretanto comprei "Crónicas do mal de amor" e foi quando comecei a ler o primeiro romance que isto começou a insinuar-se. Entre esses romances (1992) e a tetralogia (2011) há uma mudança — não diria de estilo mas de mão. É como se Elena Ferrante tivesse começado a escrever com a mão de Lilla (prodigiosa) e depois mudasse para a mão de Lenu (geométrica). Para criar um pouco de inquietação, agora gostava que Ferrante começasse a escrever com os pés. Isto continua a ser um elogio, claro.

Cristina Fernandes

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A ideia ocorreu-me uma vez:

se se queria aniquilar, esmagar, castigar um homem de modo bastante implacável, para que o pior bandido tremesse de medo antecipadamente, bastaria dar à sua tarefa um carácter perfeitamente absurdo, de absoluta inutilidade. Os trabalhos forçados actuais, apesar de não apresentarem qualquer interesse para o preso, nem por isso são desprovidos de sentido. O forçado-trabalhador faz tijolos, cava o solo, tritura o gesso, reboca construções, e nesses trabalhos aplica a inteligência e tem um fim. Às vezes chega a interessar-se pela sua obra e a procurar fazê-la melhor e mais habilmente. Mas se o empregarem, por exemplo, a transvasar água de uma vasilha para outra e desta para a primeira, a britar pedra ou a transportar montes de terra de um lugar para outro, para os voltar a pôr, em seguida, no seu lugar inicial, julgo que ao fim de alguns dias se estrangulará ou cometerá mil delitos, a fim de merecer a morte ou escapar a semelhante rebaixamento, a semelhante vergonha, a semelhante tormento.

Fiódor Dostoiévski, Recordações da casa dos mortos. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Advertência ao meu editor

De todas as cartas que tenho recebido de leitores, meu caro Mestre [editor] Rowohlt, é esta a que me parece melhor. Vem de um aluno dos últimos anos duma escola técnica de Nuremberga.

«Caro senhor Tucholsky:
Permita-me que lhe expresse o meu total apreço pelas suas obras. Já sei que isso a si tanto se lhe dá, mas eu gostava de fazer ainda outra observação. Oxalá morra nos tempos mais próximos para os seus livros ficarem mais baratos (como Goethe, por exemplo). O seu último livro é mais uma vez tão caro que ninguém lhe consegue chegar.

Cumprimentos.»

Ora toma!
Caro Mestre Rowohlt, caros senhores editores! Façam-nos os livros mais baratos! Façam-nos os livros mais baratos! Façam-nos os livros mais baratos!

Kurt Tucholsky, Hoje entre ontem e amanhã. Tradução de Renato Correia.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A nossa literatura é cheia de possibilidades

Deitei as mãos ao meu primeiro livro de Elena Ferrante na semana em que o Presidente da República recomendou ao primeiro-ministro e ao líder da oposição a leitura da tetralogia napolitana. Desviá-los de caminhos e palavreado gastos, encontrar a política em sítios inesperados. Ah, conseguissem eles ganhar a tarefa! Levada pelo acaso e pela ironia, apropriei-me do conselho. Avancei com cautela; não valeu de nada, rapidamente caí no turbilhão. Não nos aproximamos de Ferrante de mansinho.

Acho que toda a gente já o disse: a escrita de Ferrante é clara, pungente, voraz. As frases sucedem-se de forma muito exacta; cada palavra é necessária e até as repetições são construídas sem rodeios. Ferrante gosta de ângulos muito fechados; imagino-a com um lápis aguçado, uma régua e um esquadro (agora que penso nisso, parece-me que o conceito de desmarginação — ausência total de ângulos — de Lila pode ser uma manobra para domar o espaço). Talvez estes livros nos ensinem a desenhar cidades mais justas e, ao mesmo tempo e sem contradição, ambíguas? — Eis a política.

Apesar de resguardada, Ferrante explica o seu método de trabalho com tanta perícia que basta sublinhar algumas respostas para ter a percepção de compreender um ofício:

"Só quando a escrita se retesa como um fio de pesca e depois começa a correr veloz é que sei que o isco era bom e começo a esperar de mim algo de significativo."

"A nossa literatura é cheia de possibilidades, algumas ainda por descobrir, basta ler os textos, e quem quiser escrever encontra de certeza aquilo de que precisa. O problema, eventualmente, é o culto da página perfeita, uma característica recorrente que combati durante muito tempo, em primeiro lugar em mim. Hoje deito fora as páginas muito reescritas, pertenço ao número dos que preferem o rascunho à página aperfeiçoada."

"Uma história tem um tempo e esse tempo deve ter um espaço preciso em que possa fluir linearmente, ou surgir inesperadamente no presente vinda do passado, arrastando consigo tradições, maneiras de usar a língua, gestos, sentimentos, razões e irracionalidades. Sem um espaço designado com precisão, e no entanto com amplas margens de indeterminação entregues à fantasia do leitor, a história corre o risco de perder consistência e de não fazer atrito."

É precisamente assim: Nápoles, um bairro, muitas personagens cheias de sentimentos exuberantes que chocam entre si. Uma carga de energia ameaçadora. O Vesúvio ao longe. O mar ao longe. No centro e em dispersão contínua, Lila e Elena inventam uma relação complexa. A cada página, Ferrante insiste em mostrar o lado soturno desse vínculo — a amizade entre as duas raparigas é difícil, faz-se mais de confronto e desafio do que de gestos delicados. Lila e Elena usam a amizade como uma arma. Para se defenderem do mundo. Para o afrontarem. Lila faz-me lembrar John Wayne filmado por Ford. Lila é da têmpera desses homens vigorosos e sombrios e, no entanto, não é ela uma rapariga frágil e luminosa?

Continuando a falar de armas — e para além das que surgem no livro, sólidas e afiadas como é próprio da escrita feminina — é importante referir também o poder das palavras. A língua italiana (la nostra lingua italiana) e as coisas que só podem ser ditas no dialecto napolitano. O latim e o grego surgindo não como línguas mortas, pelo contrário, línguas que mostram o que existiu antes de nós e permanece e tantas vezes nos oprime; então, línguas de possibilidades e rasgo?

O arrebatamento é grande e ainda nem acabei de ler "A amiga genial".

Cristina Fernandes.

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