quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Mais adiante!

É nas últimas sequências do filme de Aleksandr Sokurov que Fausto revela toda a extensão do seu incontrolável desejo de superação. Nada é suficiente, nada o satisfaz, «fervilha nele a febre da distância» (Goethe, v. 303).

MEFISTÓFELES (Mauricius): Fizemos um pacto. Eu fiz tudo o que prometi, mas tu…
FAUSTO: Não é suficiente para mim. Valho mais do que isso.
MEFISTÓFELES: Que mais queres? Outro sol? Outro homúnculo? Dois, talvez?
FAUSTO: Não é suficiente para mim!

A ambição de Fausto não conhece limites. O Diabo é apenas um instrumento — como, de resto, também Margarida — da cega avidez deste «pequeno deus do mundo». Na verdade, Fausto assassina o Diabo, lapidando-o: o símbolo máximo do pecado morre sob as pedras lançadas pelo maior dos pecadores.

A sequência anterior ao assassínio de Mefistófeles, junta os dois personagens diante de um géiser. É o momento crucial do filme. O ponto onde o velho mundo e a modernidade se separam irremediavelmente. Onde o mistério acaba e começa a ciência.

MEFISTÓFELES: Já estás contente?
FAUSTO: Como é que isto funciona?
MEFISTÓFELES: Não preciso de saber. O Senhor é que sabe. Vamos embora, isto é perigoso.
FAUSTO: Deus não sabe! Mas eu sei! O calor sobe e o frio afunda-se no interior da terra… Podia recriar isto num instante.
MEFISTÓFELES: Anda, vamos embora.
FAUSTO: Não, eu fico aqui.
MEFISTÓFELES: Ele quer recriar a minha fonte. Queres alcançar a glória?
FAUSTO: O acto é tudo, não a glória! (Falando directamente para o géiser) Pára! Já sei tudo sobre ti. Deixa-me em paz, buraco inútil! Eu é que decido tudo aqui!

Nietzsche anuncia a morte de Deus. Fausto, por seu turno, não só assassina o Diabo, como dessacraliza a natureza e considera-se capaz de a dominar. Para que estranho e perigoso «novo mundo» nos conduziu o Iluminismo? Ou melhor dito, os vários iluminismos? Até onde nos levou a aspiração e o desejo fáustico de permanente superação dos limites?

Numa entrevista recente, conduzida por António Guerreiro, o filósofo Frédéric Neyrat sugere várias pistas sobre o assunto, partindo do conceito de «geoconstrutivismo». Dir-se-ia que as reflexões de Neyrat funcionam como agudíssimos comentários ao filme de Sokurov:

Geoconstrutivismo é um dos avatares da modernidade, do pensamento moderno, que defino como aquele pensamento que se fundou na ideia de que o ser humano tinha a capacidade de poder não apenas dominar e possuir a natureza, como dizia Descartes (um dos filósofos fundadores desta modernidade que a ecologia teve de combater), mas vai ainda mais longe: dominar e possuir a natureza são as etapas que conduzem à capacidade de a refazer, de a reconstruir. Aquilo a que chamo “geoconstrutivismo” é a ideia segundo a qual os seres humanos têm a capacidade e mesmo o dever de reconstruir inteiramente o universo no qual habitam, isto é, a Terra. Geoconstrutivismo é reconstruir a Terra, mas a Terra já existe e já existia antes de nós. O sonho, o fantasma, do ser humano é o de que tem a capacidade e até a missão de refazer essa Terra.
(...) 
Antropoceno significa, literalmente, a idade do homem, a idade em que o homem se torna a força maior, uma força ainda mais poderosa do que a força natural. Pense-se nas alterações climáticas: são hoje muito mais o efeito da actividade do homem do que o efeito de simples leis imanentes da atmosfera. O que o conceito de Antropoceno não toma em consideração é a cena inconsciente que o habita, isto é, fazer a Terra baseia-se no sonho de a dominar inteiramente. E como se pode provar que se consegue dominar qualquer coisa inteiramente? Refazendo essa coisa. Se podemos refazer, é porque somos como um demiurgo.

No Fausto de Sokurov, as últimas palavras de Mefistófeles, antes de morrer, são uma premonição do nosso destino moderno. Mais humano do que Fausto, não há nele sombra de rancor, apenas um lamento pela escolha que fizemos, uma espécie de despedida amorosa:

MEFISTÓFELES: Quem te alimentará? Quem te conduzirá para fora daqui?

Fausto já não escuta Mefistófeles. Ele fez a sua escolha. No último plano do filme, é já só um espectro no horizonte. Um louco cheio de desejo e ousadia, animado pelo demónio de si mesmo a avançar para a sua própria destruição. E no meio da sua tragédia — que é a de todos nós —, grita ainda entre gargalhadas: «Mais adiante!»

Frédéric Neyrat comenta:

Creio que o sinal da catástrofe se tornou evidente para todos. (...) No entanto, continuamos a acreditar que há a possibilidade de escaparmos.

Não há sentimento mais fáustico do que o nosso optimismo.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O medo

No seu Quando as Ruas Queimam: Manifesto pela Emergência, você diz que nossa época vai passar para a história como o momento em que a crise virou uma forma de governo. Você está falando do medo que é gerado pela crise?

Sim, como efeito. É importante entender como o discurso da crise se transformou num modo de gestão social. As crises vêm para não passar. Por exemplo, nós vivemos numa crise global há oito anos. Isso do lado socioeconômico. No que diz respeito aos problemas de segurança, vivemos uma situação de emergência há quinze anos, desde 2001. Ou seja, são situações nas quais vários direitos vão sendo flexibilizados, em que os governos vão tendo a possibilidade de intervir na vida privada dos seus cidadãos em nome de sua própria segurança. É muito mais fácil você gerir uma sociedade em crise. Então, a sociedade em crise é uma sociedade, primeiro, amedrontada; segundo, é uma sociedade aberta a toda forma de intervenção do poder soberano, mesmo aqueles que quebram as regras, quebram as normas constitucionais. Como estamos em uma situação excepcional, essas quebras começam a se virar coisa normal. Esses discursos a respeito da luta contra a crise são muito claros no sentido de impedir a sociedade de reagir. Não se reage porque “a situação é de crise”.

E aí entra o medo.

Exatamente. Aí entra um pouco essa maneira de transformar o medo num elemento fundamental da gestão social. Ou seja, o medo produzido, em larga medida, potencializado, administrado, gerenciado. É o gerenciamento do medo como única forma de construir coesão hoje em dia. Nós podemos construir coesão a partir da partilha de ideias; só que, quando a sociedade chega no ponto em que ela desconfia dos ideais que lhe foram apresentados como consensuais, quando desconfia das gramáticas sociais que são responsáveis pela mediação dos conflitos, não resta outra coisa a não ser um tipo de coesão negativa. Não coesão por algo que todos afirmam, mas uma coesão através de algo que todos negam.

Vladimir Safatle em entrevista à Bravo!

domingo, 5 de agosto de 2018

Impressões de viagem

Café Central

As paredes do Café Central, Central Kávéház, em Budapeste, estão quase integralmente decoradas com fotografias de escritores húngaros. Todo o cânone local. Consigo reconhecer Kosztolányi Dezsö, Attila József, Márai Sándor, Endre Ady, Géza Csáth e Orkëny István. Autores que, num momento ou noutro, já foram editados em Portugal. Mas há dezenas de outros nomes e rostos que desconheço por completo.
Para um simples leitor português, a grande maioria não passa justamente de um nome e um rosto a preto e branco. Como uma espécie de homenagem ao «escritor desconhecido», morto em combate, na guerra interminável com as palavras e o vazio.




Girassóis

Ei-la, a estrada entre Budapeste e Belgrado. Um pormenor em linha recta num horizonte de infindáveis campos de girassóis. Não são plantas, mas espantalhos. Milhões de espantalhos, de pendentes e monstruosas cabeças, e de um só olho, enorme e triste, fitando a terra, nunca o sol.


Ratko Lalić, Suncokreti, 2000.


Prevod, Prevoz

Em sérvio, a palavra «tradução» escreve-se «prevod». E a palavra para «transporte» é «prevoz». As duas palavras têm a mesma raiz e uma simples gralha — e as gralhas abundam na Sérvia — transforma qualquer texto num princípio de poesia. A grande beleza do mundo, como sempre, começa nas palavras.


Atrás das ruas

Se existe uma «velha Belgrado», talvez seja esta cidade que se desvenda por trás das ruas, das fachadas reabilitadas e das lojas modernas. Nos pátios interiores, nas passagens e nas traseiras dos prédios e das casas. Nas antigas paredes e janelas tomadas pelas heras e arbustos. Como um livro cuja história começa a ganhar nitidez depois das primeiras páginas ou que, pelo contrário, jamais se deixará ler.




Vis

Até há poucos anos, um dos últimos símbolos vivos da história jugoslava era o Vis. O famoso navio da marinha de guerra, usado pelo Marechal Tito em férias ou para receber altos dignitários estrangeiros. Depois do fim da Jugoslávia, o navio foi comprado por um empresário croata, cuja intenção era transformar o Vis num iate de luxo. Sem dinheiro para completar o «projecto», o empresário decidiu afundar o navio, na baía de Polje, no sul da Ístria, em Maio de 2016. Hoje, oculto sob as águas, a 32 metros de profundidade, o Vis é uma atracção turística para amadores de mergulho recreativo. Um monumento mudo, coberto de areia, silêncio e algas. Não conheço imagem mais impressionante para ilustrar o fim de um país.




A ponte sobre o Drina

Dobro došli u Višegrad. Bem-vindos a Višegrad, a cidade bósnia da velha «Ponte sobre o Drina», celebrizada no romance de Ivo Andrić. À entrada, uma placa anuncia «a cidade do turismo». Depois das guerras civis, as autoridades locais transformaram o escritor e a «sua» ponte em atracções turísticas. O rosto de Andrić e o perfil da ponte estão por toda a parte: em pins, bonés, camisolas, em todo género de «lembranças» para turistas e também em grafítis espalhados pelos muros.
O fenómeno turístico atingiu proporções inverosímeis com a abertura do complexo Andrićgrad. Uma espécie de parque temático «bósnio», de «inspiração» sérvia, com a respectiva igreja ortodoxa — mas sem uma mesquita ou um templo católico —, casas, edifícios oficiais, cinema, lojas, confeitarias de influência austro-húngara, restaurantes e hotel. É uma criação literal de Emir Kusturica, cineasta e empresário do ramo turístico, e parece o cenário de um filme de época de Hollywood.
Entre as páginas de Ivo Andrić e a Andriclândia artificial de Kusturica, há um rio intransponível, e nenhuma ponte poderá jamais unir estes dois mundos.




Bibliotecas

O interior da mesquita de Gazi Husrev-Bey, em Sarajevo, está carregada de estantes com livros. Centenas de volumes, mais ou menos luxuosos, de diferentes dimensões e cores, aguardam silenciosamente os seus leitores. O cenário repete-se em todas as mesquitas da cidade, do país e do mundo. Uma biblioteca descomunal de um só texto e um só livro.




Esferográficas e aviões

Nos mercados de Sarajevo e de Mostar, os artífices transformam balas em esferográficas. E com balas constroem também pequenos modelos de aviões militares e peças de artilharia. Lembranças relativamente baratas e muito apreciadas pelos turistas. Como o «Lado A» e o «Lado B» de uma estranha e grotesca metáfora.




Montanhas

As montanhas da Bósnia e da Herzegovina são as mais belas que alguma vez vi. Quilómetros e quilómetros de escarpas, delineadas numa paisagem de inconcebível pureza, entre bosques luxuriantes e rios de águas transparentes. De vez em quando, uma casa ou uma pequena aldeia onde não vive ninguém. Onde não é possível viver: o terreno está parcialmente coberto de minas. A guerra devolveu à natureza a terra que lhe pertence e sempre pertencerá.
Um ditado popular diz que se alguém passasse a ferro as montanhas da Bósnia-Herzegovina, conseguiria cobrir a Europa inteira. E a verdade é que sempre que se tentou «mudar» a Bósnia, uma perigosa nuvem de cinza pairou sobre a Europa.



Rajko Popivoda, Pritisak, 2004.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Tudo isto, para nos dizer

Tudo isto, para nos dizer, como ninguém o dissera antes, que Deus, o deus da nossa alma e da nossa cultura milenarmente cristãs, estava morto e, com ele, as crenças, os valores, as ilusões, a moral, a política de que era a suprema e materna sigla. Mas o que [Fernando] Pessoa compreendeu, antecipando-se a deduções futuras e óbvias, foi que essa morte de Deus era, ao mesmo tempo, como ensinava entre equívocos, Frederico Nietzsche, morte do homem.

Eduardo Lourenço, Fernando, Rei da nossa Baviera.

sábado, 7 de julho de 2018

Em orientes para lá do oriente

Por último, há ainda um curiosíssimo fio de semelhança entre O Naufrágio, de Claude-Joseph Vernet, e A Perda do Hiate Nada, um dos contos incompletos de Fernando Pessoa. Neste conto, Pessoa imagina a história do capitão Ayakwamm, o «Comandante Desconhecido», e o naufrágio do iate Nada, numa zona entre a realidade e o sonho, a razão e a loucura, em «orientes para lá do oriente». Na secção IV do conto, justamente intitulada Paisagens, pode ler-se esta passagem:

Não vi nunca pinturas que tanto me impressionassem. Davam a vontade imperiosa de visitar os lugares que [espaço deixado em branco por Pessoa]. Via-se que quem as pintara, o fizera com um desejo supernormal de se encontrar nesses lugares — como um grande pintor exilado pintando a sua pátria. O que de certo sei é que nunca me foi dado ver gravura, pintura, fotografia — quadro ou [espaço deixado em branco por Pessoa] de qualquer espécie que de tão doloroso desejo me enchesse.
Eram, em regiões de rochedos altíssimos, formando estaturas de montanha, palácios de sonho, muito brancos contra o negrume dos rochedos, das encostas quasi a prumo, que causavam um arrepio e uma angústia de prazer ao vê-las.
(...)
Mas a colecção assombrosa interpretava não só um estranho sentimento do desenhador que a executara, senão que, num âmbito íntimo mais largo, figurava, quadro a quadro, todos os sonhos que a humanidade tem tido de terras remotas, de paisagens perfeitas, de países impossíveis. O artista desconhecido, que assim pusera a alma naqueles desenhos, reunira primeiro nessa alma a alma de todos quantos têm sonhado, o romance visual de todas as almas inexpressas, o décor e o cenário ocultos de todos os entorpecimentos extáticos da vida.


E como não ler neste excerto, um comentário possível ao trabalho de Michael Biberstein?

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