sábado, 23 de setembro de 2017

A realidade é teatro e o teatro é realidade

O aspecto mais fascinante de Five Easy Pieces, de Milo Rau, é a arquitectura. Quer dizer, a maneira como os diferentes elementos encaixam entre si, sugerindo uma construção de Lego com instruções de montagem precisas e sem margem para o improviso. Se retirarmos os elementos acessórios, ficam duas peças-mestras: a peça das crianças, que tem lugar no palco, e a peça para adultos, que se desenrola na cabeça dos espectadores.

Em Five Easy Pieces há estas duas peças dispostas de maneira a evoluírem em simultâneo. Os actores crianças representam uma história que funciona para eles como uma fábula, à maneira tradicional dos irmãos Grimm, com vítimas inocentes e um lobo mau, e interpretada segundo a lógica de uma série televisiva de detectives. Trata-se, pois, de um jogo de faz-de-conta, excitante e, de certa forma, divertido. E há uma segunda história, baseada no caso real de Marc Dutroux, pedófilo e assassino confesso de várias crianças, que horrorizou a Bélgica e a Europa nos anos 90. As duas perspectivas - a perspectiva das crianças actores e a dos adultos espectadores - partilham exactamente o mesmo texto, os mesmos gestos, os mesmos truques dramatúrgicos.

Tentando ser mais claro: aquilo que se passa em Five Easy Pieces é uma coisa para as crianças e outra bastante diferente para os adultos, sendo paradoxalmente a mesma coisa. O que acontece - e aqui reside o extraordinário truque de Milo Rau - é que a presença das crianças no palco torna a peça desconfortável e ao mesmo tempo apaziguadora. Desconfortável porque elas evocam directamente todo o horror do caso Dutroux e apaziguadora porque nos lembram a cada momento que aquilo a que estamos a assistir é “apenas” teatro, ou seja, faz-de-conta.
 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Preparação para Medeia: o desejo

All human activity is prompted by desire. There is a wholly fallacious theory advanced by some earnest moralists to the effect that it is possible to resist desire in the interests of duty and moral principle. I say this is fallacious, not because no man ever acts from a sense of duty, but because duty has no hold on him unless he desires to be dutiful. If you wish to know what men will do, you must know not only, or principally, their material circumstances, but rather the whole system of their desires with their relative strengths.


domingo, 10 de setembro de 2017

Um post saído directamente do meu umbigo

2017 está a ser um ano bom. Em pouco mais de dois meses, conseguimos partilhar com amigas e amigos, conhecidas e desconhecidos, leitores e engenheiros astrofísicos, dois livros de que nos orgulhamos até à baba: 63 histórias de Humor e 1 Poema Melancólico, de Alphonse Allais, com tradução, introdução e notas de Filipe Guerra - um dos monstros da tradução, cuja amizade e confiança nunca saberemos agradecer convenientemente -, através da Colecção Avesso, e, agora, 145 Poemas, de Konstantinos Kaváfis, com tradução e apresentação de Manuel Resende, através da nossa editora, a Flop
Não sei falar sobre Manuel Resende sem usar adjectivos. Dizer que é um dos mais originais poetas portugueses não chega. Lembrar que é um dos três ou quatro maiores tradutores da sua geração é pouco. Declarar que é um dos nossos sábios da literatura é curto. Dizer que é um dos nossos amigos mais queridos também está longe do que queremos realmente dizer. Manuel Resende fez o favor de confiar na Flop para editar um dos grandes livros e trabalhos da sua vida. Se esta antologia quase completa da poesia de Kaváfis, organizada pelo Manuel e traduzida directamente do grego, não é um dos maiores acontecimentos do ano literário, não sei o que possa ser.
É isto. Mais uma vez, convidamos todos a co-editar este livro-monumento connosco e a ajudar-nos a divulgar o projecto, partilhando, escrevendo, comentando. Saiba como participar aqui.
Muito obrigado.





sábado, 9 de setembro de 2017

Este é o meu corpo

Num livro esquecido dos anos 60, Jorge Semprún conta uma história que tinha lido ou ouvido de Ievtuchenko sobre Pasternak. “Certo dia” - escreve Semprún - “um operário pediu a Pasternak que lhe apontasse o caminho da verdade. O escritor respondeu: ‘Que ideia a tua! Nunca tive a intenção de apontar a alguém fosse o que fosse. O poeta é como as folhas duma árvore que sussurram com o vento, mas não tem o poder de encaminhar ninguém.’” Semprún comenta então: “Todos conhecemos este hábito dos poetas se confundirem com o reino vegetal: comparam-se a árvores, folhas, algas.”

Claro que Pasternak, talvez por humildade, talvez por orgulho, não disse ao operário tudo o que pensava. É óbvio que o poeta não pode apontar o caminho da “verdade” porque ninguém sabe exactamente o que é “a verdade” e, portanto, ainda menos o caminho para lá chegar. Mas a poesia, e isso sabemo-lo todos, encerra uma espécie de verdade própria, essencial, subterrânea, capaz de revelar territórios desconhecidos no avesso do mundo.

Na poesia de António Pedro Ribeiro dificilmente se avistam bosques, árvores, folhas e outros elementos do reino vegetal. A sua “verdade” revela-se em objectos e lugares bastante mais “prosaicos”. É a verdade das ruas, dos cafés e de certos ambientes de bas-fond. É a verdade dos empregados e companheiros de mesa, das conversas de balcão, das flores de plástico e da TV aos gritos, pregada à parede. É a verdade da solidão, do abandono, do tédio, dos amores impossíveis, das amizades e traições, da bebida, da penúria e da doença, dos ajustes de contas com a política, a arte e a vida. É a verdade da morte lenta dos cafés, que é a verdade da nossa própria morte.

É neste ponto, parece-me, que a obra de Ribeiro revela a chave para a sua “verdade” mais profunda. O que lemos nos poemas é a carne e o sangue do próprio autor. O que há nestes poemas de frágil, elevado, repetitivo, obstinado, forte, mesquinho, louco, extravagante, copioso, triste e angustiado, é arrancado ao seu corpo. Não há aqui truques nem pretensões de virtuosismo. Não há segundos sentidos nem demasiadas figuras de estilo, e a técnica tem muito pouco a ver com isto. O que aqui lemos é a “vida real”, a passagem do tempo, a monótona litania dos dias, tanto quanto é possível fixá-los em texto. Mais do que uma coisa mental, a poesia de Ribeiro é uma coisa física. Não há lugar a artifícios ou erratas: onde se lê “eu” deve ler-se “António Pedro Ribeiro.”

São poucos os autores desta geração em que vida e obra, personalidade e palavra, se confundem de uma maneira tão clara e pungente. Talvez por isso Ribeiro seja também o melhor diseur da sua própria poesia. Justamente porque a leitura é um acto físico, que envolve língua, músculos, movimento e energia, e esta poesia exige ser lida, precisa desesperadamente de voz, vibração, substância. O papel e a tinta não chegam. Suspeito que, neste como noutros pontos, Ribeiro esteja mais próximo de alguns autores das primeiras décadas do século XX do que da maioria dos seus contemporâneos.

É, pois, nesta natureza inteira e conscientemente física que reside a maldição da poesia de Ribeiro. Uma maldição que a remete para uma certa marginalidade, dez pés abaixo do mundo. Marginalidade inevitável? Sem dúvida, porque nunca haverá uma saída limpa para esta poesia. Ribeiro está confinado a uma estética cujos muros ele próprio ergueu e no interior dos quais se acha apenas ele. E é exactamente isso que admiramos nele.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Preparação para Medeia: ela é a mosca dentro do frasco

No peitoril estava um frasco de vidro posto de bocal para baixo. Uma mosca, não se sabia como, fora parar dentro do frasco. Não havia maneira de ela sair, e a mosca andou lá dentro todo o dia. Dentro do frasco, batido pelo sol, pairava um calor lento, indiferente, impenetrável (...)

Evgueni Zamiatine, Inundação. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

[Medeia, de Jean Anouilh. Estreia 4 de Outubro, no Teatro do Campo Alegre.]

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