domingo, 9 de dezembro de 2018

Fractura exposta

Dois actores entram em palco para representarem a sua própria tragédia. Ambos perderam os filhos e, esta noite, a peça é sobre essa perda. As palavras são as suas próprias palavras. Os gestos são os seus, a dor, a angústia, o desespero. O desaparecimento de um filho é uma crueldade irremediável e para a qual não existem guiões. Não há autor nem encenador. A morte é a autora e a única encenadora. O teatro é posto de pernas para o ar. Os dois actores são o público involuntário de um diabólico espectáculo montado pela morte. E este é o grande paradoxo: ver a morte de frente transforma-se no mais impressionante espectáculo sobre a vida.
 

C'est la vie, de Mohamed El Khatib. Com Fanny Catel e Daniel Kenigsberg.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Trás-os-Montes

O que é Trás-os-Montes? Que espécie de filme é este? Não tenho uma resposta. Creio que não existe uma resposta. E o ponto é exactamente esse. O espanto, a dúvida, a impossibilidade de o definir. E se não há para Trás-os-Montes géneros ou categorias, se não é isto ou aquilo, uma coisa ou outra, o espaço que sobra para a imaginação é inesgotável. O jogo está todo do nosso lado. A tela para Trás-os-Montes não é a do cinema, mas a da imaginação. O rasto de fumo que atravessa as montanhas, no final do filme, é o de um comboio em movimento? Ou o fumo de uma casa que decidiu desprender-se do chão e correr pelo campo como um comboio?
 

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Sapatos de defunto



Tolstói no seu leito de morte, em 1910. Não parece morto, apenas adormecido. Descalçou os sapatos, que ele fabricava com as próprias mãos, despiu-se, deitou-se, fechou os olhos e mergulhou no sono. Dir-se-ia que decidiu morrer voluntariamente porque o século XX já não era o seu tempo. Sokurov pede-lhe, em Francofonia, que acorde. Tolstói, acorda! Mostra-nos o que fazer, diz-nos o que vai ser de nós. Esperámos pelos teus sapatos de defunto, os sapatos que tu próprio fabricaste, e acabámos descalços.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Três ou quatro imagens

No meio da pista do velho aeroporto, de uma fenda no alcatrão, nasceu um frondoso arbusto. Floresce em Abril e dá uns frutos pequenos e muito vermelhos em Junho.

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O Aeroporto de Tempelhof, no coração de Berlim, desactivado em 2008, está dividido em duas partes: o exterior é agora um imenso parque de lazer e o interior foi convertido num abrigo para refugiados. As duas zonas estão separadas por um gradeamento. Dir-se-ia um muro a dividir Berlim.



Durante o dia, os berlinenses ocupam as velhas pistas de aterragem do aeroporto e entregam-se a toda a espécie de distracções: correm, andam de bicicleta, brincam com os filhos, fazem piqueniques, passeiam os cães. Os cães não podem andar no parque sem trela. À noite, quando todos regressam a casa, entre as ervas que rodeiam as pistas, aparecem esquivas raposas. As raposas de Tempelhof fogem quando avistam um carro patrulha da polícia.
Raposas livres no coração de Berlim e cães presos pela trela. No filme de Karim Aïnouz quem são as raposas e quem são os cães?



Um velho avião americano está parado junto ao edifício central do aeroporto, exposto como uma peça de museu. As asas brilham sob o sol e a neve, mas há muito que o aparelho não voa. Para os refugiados, não é uma ameaça: o avião não pode transportá-los de volta para os países de onde fugiram. Mas também não pode conduzi-los para um lugar melhor.

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A cidade de Berlim, com a Berliner Fernsehturm, está sempre na linha do horizonte. Os refugiados vêem-na todos os dias, a todas as horas, talvez sonhem com ela. A câmara, no entanto, nunca abandona o aeroporto. A cidade, real, palpável, concreta, não passa de uma miragem.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Nunca vi homens tão felizes

Aqui, no Hotel Sossego, também descobri que aqueles que inventaram que o trabalho embeleza o homem não foram senão aqueles que aqui, toda a noite, bebiam e comiam com belas meninas sentadas nos joelhos, os ricos, que sabiam ser felizes como crianças pequenas... e eu que estava convencido que a gente rica estava amaldiçoada ou coisa do género, que as cabanas, os sótãos, a sopa de alho e as batatas davam às pessoas o verdadeiro sentimento de felicidade e beatitude, que a fortuna era uma espécie de maldição!, mas, segundo parece, mesmo esta conversa fiada sobre a felicidade nas cabanas, mesmo isso tinha sido inventado pelos nossos hóspedes, para quem tanto fazia, que deitavam as notas aos quatro ventos, não olhavam a despesas por uma noite louca e sentiam-se bem assim... nunca vi homens tão felizes como aqueles industriais e fabricantes ricos... como disse, sabiam brincar e gozar a vida como os putos pequenos, faziam mesmo maldades e, propositadamente, enganavam-se uns aos outros, tanto tempo tinham para tudo!...

Bohumil Hrabal, Eu que servi o rei de Inglaterra. Tradução de Ludmila Dismanová.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Atenas

Subindo a Acrópole, há um número incontável de turistas a fotografarem-se a si mesmos. Uma, duas, dez, cem vezes. Em cada lanço de caminho, junto de cada pedra, à frente e atrás de cada coluna, em cada metro quadrado do Pártenon. O mesmo plano do rosto, uma e outra vez. Não é a acrópole que visitamos, mas a nós mesmos. Ou melhor, o nosso rosto moderno, inchado e orgulhoso. Uma máscara sem sombra de tragédia ou comédia, morta, anémica como alabastro, sem mistério, espírito ou emoção. Nenhum de nós precisa de percorrer as ruínas e sentir-se assaltado pelo fantasma da história, o que precisamos é de um telemóvel com uma câmara melhor. Entre nós e os escravos que carregaram estas pedras colossais, há apenas uma diferença de pixéis.

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No regresso, num dos flancos da Acrópole, inclino-me para colher do chão a folhinha de uma oliveira. Guardo-a entre as páginas de um livro. A relíquia viva da idade dos heróis, dos titãs e dos deuses.

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Numa das salas do museu, estão expostas as cabeças dos velhos professores do gymnasion. Há algo de sinistro e sublime nesta estranha procissão de cabeças decepadas pelo tempo. Os rostos parecem fitar-nos com um olhar vivo e animado por um fogo secreto. Dir-se-ia que, de algum modo misterioso, os seus sonhos ficaram encerrados, intactos e inviolados, nos crânios de mármore, e que a qualquer momento vão irromper de novo para assombrar o mundo com a sua louca e luminosa sabedoria.

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Lembro-me da grande vaga de frio descrita por Virginia Woolf, no Orlando. Durante um longo e terrível Inverno, nos primeiros anos do século XVII, o tempo parou em Londres, suspenso sob o gelo. Coisas e pessoas transformaram-se em pedras. Que grande vaga de frio atingiu os gregos?

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As estátuas. Umas sem cabeça, outras sem braços, outras ainda sem pernas, algumas com membros falsos, criados pelos arqueólogos, como próteses ortopédicas. Mulheres, homens, crianças, heróis, deuses, enterrados vivos nos museus, numa espécie de estado de suspensão ou de congelamento. A verdade firmada em pedra.

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Não há nada mais ténue do que a fina película da história, da cultura e do “progresso”. Não há nada mais parecido com um humano do que outro humano. Deste e do outro lado do mundo, de hoje ou de há vinte e cinco séculos.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

No fundo

Sim, valeria a pena estudar clinicamente, ao pormenor, os itinerários de Hitler e do hitlerismo, e revelar ao burguês muito distinto, muito humanista, muito cristão do século XX, que traz em si um Hitler que se ignora, que Hitler vive nele, que Hitler é o seu demónio, que se o vitupera é por falta de lógica, que, no fundo, o que não perdoa a Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem, não é a humilhação do homem em si, é o crime contra o homem branco, a humilhação do homem branco e o ter aplicado à Europa processos colonialistas a que até aqui só os árabes da Argélia, os "coolies" da Índia e os negros de África estavam subordinados.

Aimé Césaire, Discurso sobre o colonialismo, 1950.

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