segunda-feira, 20 de março de 2017

Mas um homem não é um cão.

«Seria possível a teoria dos reflexos condicionados de Pavlov levar as pessoas a obedecer à doutrina do Cristianismo?», pensou o Cardeal [Pölätüo] para consigo.
Colocou uma folha de papel na sua macchina da scrivere e dactilografou com dois dedos:
Para evocar reflexos são necessários estímulos. Os estímulos podem ser positivos ou negativos; exemplos: alimentos ou dor.
Estes estímulos encontram-se nas mãos do poder secular, Temporal.


Pensou mais um instante, após o que escreveu:
Mas um homem não é um cão.
Para um homem, os estímulos materiais são desnecessários. Para um homem, basta dizer que ficará confortável, ou que irá sofrer.
E estes estímulos, positivos e negativos, estão acessíveis às mãos da Igreja.
A campainha da máquina de escrever fez-se ouvir no final da linha. Pölätüo rodou o carreto. De repente, os seus dedos começaram a saltar sobre as teclas como se tivessem vontade própria.
Mas esses estímulos já se encontram nas mãos da Igreja. São o PARAÍSO e o INFERNO!(...)
Então, apoderou-se dele uma nova ideia.
«Mas se...» - começou a ordenar as palavras na sua mente. - «Mas se estes estímulos estão nas mãos da Igreja há milhares de anos, PORQUE não são maridos e mulheres, soldados e súbditos, pais, filhos, mestres, servos, Reis, juízes, contribuintes e colectores de impostos como a religião lhes ensinou?»

Stefan Themerson, Cardeal Pölätüo. Tradução de Paulo Alexandre Moreira.

Este livro é uma edição Dois Dias, casa editora que será apresentada na Sede, no próximo sábado, 25 de Março, pelas 17h00.

terça-feira, 14 de março de 2017


A arte pode ser feita por programas de computador? Ou ela requer alguma dimensão específica e irredutivelmente humana?

Tendemos a pensar que a arte é o reduto último de afirmação da irredutibilidade de nossa espécie; portanto, uma justificação inexpugnável de sua singularidade, senão de sua superioridade. (...)
A filosofia da composição, de Edgar Allan Poe, revelou o quanto de pensamento crítico e consciente está em jogo durante o processo de criação (menos misterioso e inspirado do que se queria, portanto); nos poemas destituídos de eu lírico de Mallarmé, a própria linguagem parece ser o sujeito que escreve; nas Iluminações de Rimbaud já não se descreve nenhuma realidade factual ou externa, mas puras paisagens mentais; os artigos de Proust contra Sainte-Beuve, o crítico biográfico, observam que o eu civil do artista não se confunde com o eu da obra; os formalistas russos, já no início do século XX, inauguraram uma concepção radicalmente material da linguagem; há ainda a boutade precisa de Gide (“Com bons sentimentos se faz má literatura”); daí ao estruturalismo e, logo, à anunciada morte do autor por Barthes.
O sentido geral dessa movimentação histórica é a ideia de que arte não se faz com sentimentos, experiências biográficas ou favor dos deuses – arte se faz com linguagem, com conhecimento do material, isto é, da tradição de seu uso nas obras anteriores. Assim, quando Barthes proclama a morte do autor, é da imagem do autor como eu biográfico que se trata. “Não importa quem fala”, fala o personagem de Beckett citado por Foucault – importa o que fala, como fala. O artista é alguém que conhece seu material, estuda as obras passadas, reinterpreta-as, mistura-as, combina diversos códigos, e assim tenta produzir uma diferença, valor supremo da arte moderna. A originalidade, portanto, não é uma criação ex-nihilo, mas sim efeito de uma mistura imprevista, insuspeitada dos elementos da tradição.
Se admitirmos isso, que a originalidade é o valor supremo da arte moderna, e que ela é produzida por meio de combinações insuspeitadas da tradição, podemos retomar o problema da autoria dos computadores. Pode um computador produzir uma obra de arte original? (...) Pode um computador produzir o salto, o insight, o lance de dados genial que quebra um paradigma, instaura uma nova forma, apresenta ao mundo uma diferença, um acontecimento? (...) Será que o que compreendemos como subjetividade – com seus corolários de emoção e afeto – em obras de arte não é apenas o efeito de determinadas combinações de notas, acordes, palavras, timbres de voz? E que assim, consequentemente, não é preciso uma subjetividade que as torne possível, mas meramente combinações que produzam seu efeito? Ou será que há alguma dimensão – a consciência, a sociabilidade – irredutivelmente humana que produz, e só ela produz, obras de arte originais, e também as reconhece como tais?

Francisco Bosco, na revista Cult deste mês (a totalidade do artigo não está online). 

Leitura de apoio para a conferência de Marinela de Freitas, sábado, 18 de Março, pelas 17h00, na Sede.

terça-feira, 7 de março de 2017

Tens passado a vida a esperá-la

Que outra coisa fizeste na vida senão esperar a morte? É a tua maior preocupação. Debalde a arredamos: a vida não é senão uma constante absorção na morte. Então para que nasci? Para ver isto e nunca mais ver isto? Para adivinhar um sonho maior e nunca mais sonhar? Para pressentir o mistério e não desvendar o mistério? Levo dias, levo noites a habituar-me a esta ideia e não posso.

Raul Brandão, Húmus.

No domingo, 12 de Março, ªSede assinala os 150 anos do nascimento de Raul Brandão.

O Lado B de Húmus



Pergunto-me se Húmus pode ser lido como uma espécie de Lado A de Pedro Páramo. E Pedro Páramo o Lado B de Húmus. Onde há humidade no primeiro, há extrema secura no segundo. Onde há frio em Húmus, há calor tórrido em Pedro Páramo. Onde há negrume em Brandão, há uma luz torturante em Rulfo. De resto, a angústia é a mesma. Os fantasmas são os mesmos. O sentimento de perda é semelhante. Tudo está morto, incluindo tudo o que está vivo.

(Fotografia de Juan Rulfo)

No domingo, 12 de Março, ªSede assinala os 150 anos do nascimento de Raul Brandão.

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