quinta-feira, 20 de julho de 2017

Preparação para Medeia: experiências de química

SENHOR ORLAS (suspira): A vida é um abismo de contradições, Araminthe.
Bem! Vou para o meu gabinete reflectir em tudo isto.
Não posso acreditar que não haja uma solução em que o dever e a felicidade se conciliem.

ARAMINTHE: Eu creio, senhor, que é essa a grande inquietação dos homens, desde que saíram das cavernas para tentar viver em sociedade. Inventaram o casamento para tentar conjugar ao mesmo tempo essas duas noções.

SENHOR ORLAS: Apenas por um curto espaço de tempo, Araminthe. Acredite num homem que tentou essa aventura! O que se passa a seguir é como uma dessas experiências de química em que se deleita o nosso vizinho, senhor Voltaire. Ao princípio, a mistura brilha; depois, a felicidade, que é volátil, evapora-se e não fica na retorta senão o grosso calhau cinzento do dever.

Jean Anouilh, Cecile ou a escola de pais. Tradução de Virgínia Mendes.

domingo, 2 de julho de 2017

Preparação para Medeia: um Jasão sem nome

O DESCONHECIDO - Chamo-me Roger van Hutten. Não é o meu nome. Não tenho nome. Sou filho de um vendedor de fundas de Arras, que não me quis reconhecer. Daí a minha carreira. Decidido a nunca mostrar a minha cédula de nascimento, afastei-me da vida em que as pessoas fazem exames, se casam, vão para soldado ou recebem heranças - em resumo, de toda a vida em que nos exigem um bilhete de identidade - e entrei naquela onde se passa sem ele. Assim me liguei a tudo quanto não necessita, também, do tal bilhete de identidade: aos fósforos belgas, às rendas e à cocaína. Livros especiais também. Na vida de um aventureiro há sempre um período em que ele se sustenta da lubricidade humana. A necessidade em que me vi de empurrar um funcionário de alfândega para lá de uma fronteira donde se não regressar, obrigou-me a embarcar como fogueiro para uma costa que aconteceu ser a da Malásia. Aí tive possibilidades de me safar e organizar o contrabando de chifres de rinocerontes, base de toda a medicamentação chinesa. Para esta caça punida com a pena de morte armei os indígenas com bacamartes tão carregados de pólvora, que precisei de amarrar os homens a uma árvore, aí os deixando à espreita da caça. De resto, nessa postura os abandonei enquanto levei comigo o monstro. Ameaçado pela polícia de vir a possuir uma identidade gravada a ferro em brasa na pele, atingi Samatra onde os meus conhecimentos de xadrês, o jogo nacional da ilha, me valeram de parte de um chefe a simpatia e uma filha que me deu um filho. Não precisei de o reconhecer. Lá, é o filho que, ao atingir a maioridade, reconhece o pai, se o julga digno disso. Foi abusando da confiança da minha esposa que pude descobrir um jazigo petrolífero, considerado sagrado e defendido de toda a curiosidade dos brancos. Assinalei-o ao Lloyd que me admitiu entre o pessoal altamente considerado dos seus prospectores. A minha mulher passou por traidora e morreu empalada.

Jean Giraudoux, A louca de Chaillot. Tradução de Orlando Neves.

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