terça-feira, 17 de abril de 2018

Of course he shot a fucking elephant

George Orwell’s biographer Bernard Crick lunched with the author’s widow, Sonia, at Bertorelli’s in London. They were talking about “Shooting an Elephant,” or, more accurately, about whether Orwell really did shoot an elephant in Burma. “‘Of course he shot a fucking elephant,’ Sonia shouted. ‘He said he did. Why do you always doubt his fucking word?’” Because, Crick replied, “he was a writer, not a bloody cub reporter.”

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Explicação do mundo

Na arqueologia mexicana cada estátua, cada objecto, cada baixo-relevo, significam alguma coisa que significa alguma coisa que por sua vez significa alguma coisa. Um animal significa um deus que significa uma estrela que significa um elemento ou uma qualidade humana e assim sucessivamente. Estamos no mundo da escrita pictográfica, os antigos Mexicanos, para escreverem, desenhavam figuras e, mesmo quando desenhavam, era como se escrevessem: cada figura apresenta-se como um enigma a decifrar.

Italo Calvino, Palomar. Tradução de João Reis.

sábado, 14 de abril de 2018

Ouro, jóias e festas

Existe um princípio elementar no marketing que afirma o seguinte: um produto deve «prometer» mais do que aquilo para o qual foi feito, deve proporcionar uma «experiência». Quer dizer, se um consumidor acreditar que ao comprar um gel de duche está a comprar, sobretudo, uma maneira nova e mais excitante de tomar banho, o marketing e a publicidade foram eficazes. Ao assistir a muito do teatro que se faz hoje entre nós, fico com a sensação de que uma boa parte dos criadores acompanha este princípio de proporcionar uma «experiência» ao público. Claro que o teatro é, por definição, uma «experiência». Mas que «experiência»? Parece-me que vivemos um momento em que se recorre a todos os truques - bons e maus - para transformar qualquer peça de teatro numa «experiência espectacular». Por vezes, parece que a relevância de uma peça se mede pela intensidade das gargalhadas e dos aplausos do público, como num programa de televisão emitido em prime time, mesmo que a peça seja o mais ibseniano dos dramas. Compreendo a angústia dos criadores: o mercado é a mais perversa das ditaduras. A sempiterna necessidade de «chamar público ao teatro» explica toda a espécie de artifícios e truques. Mas essa necessidade justifica ou legitima todos os truques? Shakespeare será mais compreensível e estará mais próximo de nós se, por exemplo, se utilizarem referências que encontramos no teatro de revista? Timão de Atenas será mais amado pelos amigos se lhes oferecer sem critério ouro, jóias, festas e cavalos? Todos sabemos como a história acaba: Timão morre desiludido, arruinado, sem amigos e a amaldiçoar a humanidade. Se o teatro deixar de bajular o público com ouro, jóias e festas, o público abandoná-lo-á?


TIMÃO

(...) Quem ousará, quem ousará erguer-se da sua alma, e dizer:
Este homem é um lisonjeador? Ora se um o é, todos os são, pois cada grau de fortuna é adulado pelo que lhe é inferior. A cabeça do douto baixa-se perante o tolo dourado: tudo é oblíquo; nada está a nível da nossa maldita natureza senão a infâmia manifesta. Portanto, festas, reuniões e turbas de homens, sede todas malditas! (...)

Shakespeare, Timão de Atenas. Tradução de Henrique Braga.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Em defesa das coisas inúteis

Perante tais considerações é possível objectar que, enquanto a investigação tem sempre em mira uma utilidade concreta, o mesmo não pode ser dito do estudo, que, enquanto representa uma condição permanente e quase uma forma de vida, dificilmente pode reivindicar uma utilidade imediata. Aqui é preciso inverter o lugar comum segundo o qual todas as actividades humanas são definidas pela sua utilidade. Por força desse princípio, as coisas evidentemente mais supérfluas estão hoje inscritas num paradigma utilitário, recodificando como necessidades actividades humanas que sempre foram feitas apenas por puro prazer. Deveria ser claro, de facto, que numa sociedade dominada pela utilidade são justamente as coisas inúteis que se tornam um bem a salvaguardar. A essa categoria pertence o estudo. Aliás, a condição estudantil é para muitos a única ocasião para fazer a experiência, hoje cada vez mais rara, de uma vida que se subtrai a fins utilitários.
Por isso, a transformação das faculdades de humanidades em escolas profissionais é, para os estudantes, ao mesmo tempo um engano e um massacre: um engano, porque não existe nem pode existir uma profissão que corresponda ao estudo (e isso não será certamente a cada vez mais rarefeita e desacreditada didáctica); um massacre, porque priva os estudantes daquilo que constituía o sentido mais próprio da sua condição, deixando que, ainda antes de serem capturados pelo mercado de trabalho, vida e pensamento, unidos pelo estudo, se separem irrevogavelmente.


Giorgio Agamben, Studenti, 2017. Tradução de Vinícius N. Honesko.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Da natureza dos coelhos

Quando o Manuel Resende regressou a Portugal, depois de longos anos emigrado em Bruxelas, instalou-se numa casa nos arredores de Santarém. Em volta da casa havia um terreno de lavoura e a ideia do Manuel era dedicar-se à agricultura. Ainda em Bruxelas, tinha estudado métodos de cultivo modernos, sustentáveis e amigos do ambiente, que dispensavam os químicos. Os progressos agrícolas do novel campino foram lentos, mas encorajadores. Nessa altura, as nossas conversas incluíam beringelas, tomates, pepinos e alfaces.
Tudo correu pelo melhor até ao dia em que apareceram os coelhos. Dezenas e dezenas de coelhos. Famílias inteiras de orelhudos arrasaram a delicada e biológica agricultura, e devoraram tudo até ao último pé de alface. O Manuel Resende nada fez para os impedir: roer beringelas sem químicos faz parte da natureza dos coelhos.
Hoje, é lançada em Lisboa a Poesia Reunida, do Manuel Resende. Hoje, é o dia em que os coelhos reaparecem para lhe devorar a horta. Nenhum poema, nenhum verso, deve ficar por comer. Ao ataque, camaradas orelhudos. Não façamos cerimónias. Comamos até estourar. Disto não há nos supermercados.



quarta-feira, 28 de março de 2018

A origem da couve

No paraíso terrestre, no luminoso dia em que as flores foram criadas, antes que Eva fosse tentada pela serpente, o maligno espírito aproximou-se da mais bela rosa, no momento em que esta estendia, à carícia do celeste sol, a encarnada virgindade dos seus lábios.
– És bela.
– Sou – disse a rosa.
– Bela e feliz – prosseguiu o diabo. – Tens a cor, a graça e o aroma. Mas…
– Mas?
– Não és útil. Não vês estas vastas árvores carregadas de bolotas? Além de frondosas, dão alimento a multidões de seres animados, que se detêm sob os seus ramos. Rosa, ser bela é pouco…
A rosa – tentada, como seria depois a mulher – desejou então a utilidade, de tal modo que houve palidez na sua púrpura.
Passou o bom Deus, depois do romper da aurora.
– Pai – disse aquela princesa floral, agitando-se na sua perfumada beleza – quereis fazer-me útil?
– Seja, minha filha – respondeu o Senhor, sorrindo.
E o mundo viu então a primeira couve.


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