terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Conhecer um bom dióspiro

Decidi reler os livros de Salinger. Ignorei a ordem cronológica e comecei pelo fim (quase fim, para ser exacta): uma edição antiga da Quetzal de "Carpinteiros, Levantai Alto o Pau de Fileira" (1955) e "Seymour (Uma Introdução)" (1959).

Apesar da má tradução de Bertha Mendes, "Carpinteiros, Levantai Alto o Pau de Fileira" continua a ser um divertimento maravilhoso; parece uma peça musical de Satie com guarda-chuva aberto para dia de sol e chuva. A viagem de táxi que Buddy partilha com quatro convidados do casamento malogrado de Seymour tem um acentuado efeito ora excitante, ora calmante, e o tio do pai de Muriel surdo-mudo é uma personagem menor enorme.

Mas a surpresa foi o segundo texto; já não me lembrava da trama (percebe-se porquê) e na altura não me dei conta da estrutura, melhor dizendo, da formidável falha da estrutura.

Buddy Glass tem quarenta anos, é escritor e professor, vive bem no interior do bosque e na parte mais inacessível da montanha longe de tudo e de todos e é o narrador. Escreve sobre o seu irmão mais velho Seymour que se suicidou e também sobre os poemas que Seymour foi escrevendo desde miúdo (por exemplo, aos oito anos escreveu: John Keats / John Keats / John / Põe o teu cachecol, se faz favor). Buddy tem um livro de folhas soltas com 184 poemas curtos escritos nos últimos três anos de vida de Seymour em várias línguas (inglês, chinês, japonês, alemão ou italiano). A família Glass espera que ele os edite (bom, é mais pressão que espera). A função deste texto é introduzir essa obra que nunca virá, mas o problema é que a própria introdução não se move.

Voltando ao ponto de partida, "Seymour (Uma Introdução)" abre com duas citações de Kafka e Kierkgaard que cortam o propósito: a incapacidade de definir um objecto amado e a certeza do falhanço. Depois destas benções, todo o texto se emaranha: as palavras umas nas outras, as ideias umas nas outras, os itálicos, as maiúsculas, os parêntesis. Buddy tem a mão entaramelada e as palavras saem à toa, sem objectivo ou até, por vezes, com um objectivo contrário. A cada parágrafo, ele tropeça e tropeça e tropeça. Sempre que tenta elogiar Seymour, a frase sai frouxa. Quando quer descrever fisicamente Seymour, dá-nos uma imagem desfocada e sem centro. E o pior é quando discorre sobre os poemas de Seymour; aí perde completamente as suas capacidades narrativas e a escrita revela-se quebradiça (como a melhor massa folhada). Isso porque a poesia é decerto uma crise, talvez a mais autêntica que tenhamos que enfrentar.

Ora, o destrambelho de "Seymour (Uma Introdução)" não é um acidente, Salinger e Buddy sabem enfrentar uma personagem, criar situações banais ou extraordinárias, detonar efeitos cómico-musicais e até, se necessário, insinuar uma certa melancolia. Sabem construir um texto com princípio, meio e fim ou baralhar o tempo e o modo. Assim ou assado. Sabem tudo isso mas neste caso Buddy prefere não fazer pontaria — atira, talvez pela primeira vez na vida, o berlinde sem cálculo. Não se trata do desinteresse anémico de Bartleby, é qualquer coisa que vem simultaneamente do oriente e do music-hall e deixa um sorriso vago no rosto (como quando comemos trufas ou bebemos um copo a mais). Buddy luta para encontrar as palavras justas mas quando as alcança, elas perdem a justeza. Ou a propriedade já não interessa. Por seu lado, Salinger aproveita a sombra e sai da cena literária às arrecuas. Resta um Seymour desconsertado, demasiado fugidio e demasiado parecido com os narradores (a membrana que nos separa é tão fina). Tremendamente verdadeiro e tão inacessível como a parte da montanha. Agora vai para a cama, vai. Depressa. Depressa e devagar.

Cristina Fernandes.

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