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Mensagens

Dos jornais XXI

Falhar pior

Todos os dias quando passo na estação Estádio do Mar vejo o cartaz: «Eles falham há 50 anos. Dêem-me uma oportunidade». E fico sempre admirada com a capacidade contorcionista da linguagem dizer a verdade.
A imagem desaparece. O NEGRO do fim começa (dezasseis segundos de negro).  Voz off de MD  Aguarda-se o acidente que povoará a floresta.  É o ruído de uma passagem.  Não se sabe de quem, de quê.  [ Silêncio .]  E depois, pára.  O tema de Diabelli sobrepõe-se à música, estridente, e envolve o desenrolar do GENÉRICO .   O Camião,  de   Marguerite Duras.
The Bigamist apanhou-me pela forma invulgar como lida com a ambiguidade. Quanto a isso, nenhuma surpresa. Mas o que não me sai da cabeça são os planos das ruas inclinadas de São Francisco e Los Angeles. Talvez haja uma ligação entre as duas coisas. Ou talvez não.

Dos jornais XX

O parágrafo sobre ter sorte com as mulheres e ficar eufórico a discutir poesia é muito divertido. Para além do tom de farsa, termina com uma imagem poderosa: a mão (sorrateira?) pousada na perna . Com a camisola certa, podia ser uma cena de filme.

O cinema é uma invenção sem futuro

À célebre frase atribuída a Louis Lumière ( provavelmente apócrifa, segundo Georges Sadoul esta frase teria sido dita pelo pai dos Lumière para livrar-se de Méliès que queria comprar a patente do cinematógrafo... ), podemos contrapor que o cinema é uma invenção com passado. E que passado! ( Aqui entra o tigre. )

O casaco de Vitalina

Há uma parte de mim — talvez a mais interessante — que se prende nas coisas menores do cinema. Ora são calças largas, ora é uma nódoa numa blusa (ahah, isto dá para um estudo de cinema comparativo entre Rohmer e Sang-soo). Nada que dê prestígio a uma carreira, é certo, mas estes desvios fascinam-me e divertem-me. Por exemplo, e continuando nas roupas, li ou ouvi, já não me lembro onde, que foi muito complicado eliminar o som desagradável que o casaco de Vitalina provocava quando ela se mexia. Uma questão técnica, claro. Mas eu acho que esse casaco que Vitalina teimava em usar era uma forma de obrigar o cinema a a pôr-se no seu lugar (menos vaidade e mais trabalho) — um pouco como as provocações de Vanda. Coisas de mulheres.

Mestre de dança

Final da primeira didascália de Hamlet – Tragédia Cómica , de Buñuel. No original: «Por el horizonte un niño loco que declina musa, musae.» Tradução de Mário Cesariny: «No horizonte um menino chalado da cabeça declina musa musae .» Cesariny, mestre de dança indisciplinado, roda sobre o tacão e dá um passo em frente.

A Máquina Hamlet

Leio no estudo de Miguel Ramalhete Gomes que a ideia original de Heiner Müller era escrever uma peça longa, com cerca de 200 páginas. Ficou reduzida a 9 (um pouco mais, na paginação dos Livrinhos do Teatro). Müller arrancou do texto a pele, a carne, a gordura, tudo. Não sobrou sequer o osso, mas apenas a substância escura que existe no seu interior e que brilha como um sol devastador.

Selfie XXIV

Ao ver o meu reflexo no espelho do elevador de manhã, percebi que me vesti como se estivesse num filme de Hong Sang-soo. Talvez A romancista e o seu filme . Agora só me apetece ir para um café tagarelar. Deve ser das calças demasiado largas.

Variações sobre um título II

Título de um artigo no jornal Público de hoje : «Um racista e um desgosto de amor fizeram de Elgar Rosa um gestor de topo.» Variação 1: Um bigode polvilhado e uma carga de artilharia fizeram de Elgar Rosa um gestor de topo. Variação 2: Um pastorzinho e um mar encapelado fizeram de Elgar Rosa um gestor de topo. Variação 3: Um telescópio e um cortejo de sombras fizeram de Elgar Rosa um gestor de topo. Variação 4: Um jardineiro estrábico e um molho de chaves fizeram de Elgar Rosa um gestor de topo. Variação 5 Um cardeal e uma banda filarmónica fizeram de Elgar Rosa um gestor de topo.

Camilo Castelo Branco na California

Maria! Não me mates, que sou tua mãe, de Camillo Castello Branco (& etc, 1979). Stanford University Libraries, California.

Presto scherzando

Quando decidiu contar o que teria sido O Camião se tivesse sido filmado, Marguerite Duras foi furiosamante contra as convenções do cinema. Não só fez um filme suportado pelo texto como o construiu sobre um tempo verbal que é em simultâneo passado e futuro: o futuro hipotético das brincadeiras das crianças. Essa liberdade lúdica resgata o poder encantatório das histórias orais e apanha-nos em cheio. Na sala escura somos convocados a participar: vemos as imagens projectadas (Marguerite Duras e Gérard Depardieu sentados numa sala da casa de Neauphle-le-Château a ler o texto pela primeira vez com as folhas na mão, o camião a avançar pelas estradas, atravessando a paisagem e o inverno) e vemos outras imagens por trás dos nossos olhos — como se houvesse dois filmes a caminhar em paralelo para a perdição. Uma potência descomunal que trabalha misteriosamente dentro de nós. 

Por sua conta e risco

Miguel Ramalhete Gomes, no artigo  Censura e obsolescência : «A história da relação entre Heiner Müller e a censura na antiga República Democrática Alemã é complexa e não sem uma série de momentos inesperados. Curiosamente apenas poucas peças terão sido objeto de uma censura explícita que durou até à queda do Muro: mais notoriamente Mauser , mas também O Horácio , Cimento , Germânia Morte em Berlim , e A Máquina Hamlet . A partir de finais da década de 1960, repetia-se frequentemente o seguinte procedimento: um teatro propunha-se encenar uma peça nova de Müller, ou de outro dramaturgo, e, como era costume, enviava o texto para ser aprovado pelo Ministério da Cultura; o responsável, por vezes o próprio ministro da cultura, chamava então o diretor do teatro, comunicava-lhe as suas apreensões e dizia-lhe que poderia encenar a peça por sua conta e risco. Este encorajamento à autocensura tendia a resultar, exceto em casos excecionais. A partir da década de 1970, à medida que Müller come...

Os vencidos do século XXI

(...) Provavelmente, Youth é o filme mais ambicioso e mais importante da década, nos seus planos longos, quebrados e trementes, cheios de sombras e ciscos, e assombrados pela respiração de Wang Bing. Quando o século XXI começou – começou com No Quarto da Vanda , o filme de Pedro Costa – descobrimos que da miséria à dignidade vai um olhar de distância, e que os vencidos (os que escolheram mal, os que fizeram errado, os desafortunados, os mal-nascidos, aqueles a quem a vida não deu tréguas, convencendo-os de que o destino existe, e com ele os deuses raivosos e os santos milagreiros, que sempre os têm na mira) em nada se distinguem dos vencedores… partilhamos carne e condição. Agora que passaram 25 anos, Youth mostra-nos que dessa igualdade não nasce a fé nem a confiança, e que ela é um mero bálsamo fingindo engrandecer umas almas e encolher as outras, para simular justiça. (...) Wang Bing. O fim absoluto do mundo, Miguel Faria Ferreira.

Variações sobre um título

Título do jornal Público de hoje : «Dois sportinguistas, uma feminista e um criminalista disputam Ordem dos Advogados.» Variação 1: Dois mestres de dança, um advérbio de modo e um criminalista disputam Ordem dos Advogados. Variação 2: Dois chapéus-de-chuva, Dona Ubu e um criminalista disputam Ordem dos Advogados. Variação 3: Dois galos, uma armadura vazia e um criminalista disputam Ordem dos Advogados. Variação 4: Duas lápides, uma máscara de comédia e um criminalista disputam Ordem dos Advogados. Variação 5 Dois atiradores de facas, uma oração a Santa Rita de Cássia e um criminalista disputam Ordem dos Advogados.

Coisas espantosas

Grandes comemorações do bicentenário de Camilo Castelo Branco no telejornal da RTP 1 (das leituras à galinha mourisca). A seguir, em vez de  Amor de Perdição ou Francisca , de Manoel de Oliveira, resolvem passar Aldeia da Roupa Branca . Pobre Camilo. Pobres de nós. 

Uma casa em ruínas

Hamlet percorre a peça de Shakespeare como o visitante de uma grande casa em ruínas. Concentra-se, às vezes, num velho quadro. Outras, distrai-se com um pormenor, um livro empoeirado, uma faca. Perde-se entre corredores e quartos. Esquece irremediavelmente o caminho da saída .

Ler é um luxo

Sylvère Lotringer: Você também salta passagens quando lê os mitos ou as tragédias gregas?  Heiner Müller: Sim, mas li‑os quando era muito jovem. Hanns Eisler disse um dia que Brecht nunca lera O Capital , mas que era sempre capaz de encontrar a frase que lhe era útil. É uma questão de tempo – tempo para viver. Não me resta muito tempo para fazer as coisas que quero fazer. SL: Ler é um luxo. HM: Sim, um luxo enorme. Devorar os textos é mais rápido. Entrevista com Heiner Müller (1988). Disponível aqui.

Dos jornais XIX

Quando o primeiro-ministro Luís Montenegro diz que «não fez nem mais nem menos do que faz qualquer português» , está a colocar-se ao balcão do café central a piscar o olho à portugalidade . Por mais piruetas que as agências de comunicação façam, é esse rosto de chico-esperto que vai ser impresso nos cartazes.