segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Possessão

Estava em casa e esperava que a chuva viesse, na versão da companhia Público Reservado, é o longo e lento bailado de cinco actrizes a dançar com um texto. É um daqueles raros momentos em que sentimos todo o poder das palavras, a prova cabal de todo o seu potencial eléctrico. Cinco corpos animados apenas por sílabas, como numa espécie de possessão. Cada gesto, cada movimento, cada inflexão ou pausa, é determinado pelas palavras. É por isso que não existe praticamente cenário, porque em lugar de objectos há vocábulos. É por isso que não existe música, porque o som que interessa é o das vozes. E é também por isso que os corpos se deslocam e dispõem no espaço de maneira rigorosamente matemática, porque a sintaxe tem uma ordem, um ritmo próprio, com acelerações e desacelerações, prolongamentos, repetições, ecos. Estava em casa e esperava que a chuva viesse não vale tanto pela construção literária — o texto de Jean-Luc Lagarce está entre A Casa de Bernarda Alba, de Lorca, e Danças a um Deus Pagão, de Brian Friel, com alguns ingredientes que lembram um certo Beckett —, mas pela beleza das paisagens pintadas apenas com linguagem. Esta é a peça em que a Público Reservado leva ao limite do possível a sua estética centrada no poder da palavra. Um teatro belíssimo, corajoso e essencial.

1 comentário:

rosilda disse...

A adicionar a beleza do trabalho, também a doçura do seu texto. Obrigada.
Um abraço. Rosilda Portas

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