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Mensagens

Assumir os pressupostos da vida não fascista #4

M. P.: Na projecção desta noite, o aspecto político do filme impressionou-me muito, esta visão completamente desesperada.  M. D.: Desesperada e alegre.  M. P.: No filme você diz: «Que o mundo vá para o inferno, é a única política.»  M. D.: Mas ela vive isso com alegria pois vive a inventar soluções pessoais para o intolerável do mundo, por exemplo o facto de pedir boleia todas as noites inventando a sua vida.  A mulher do camião é-me completamente fraternal, é uma pessoa por quem sinto amor, isso não me acontecia desde India Song , amo-a profundamente, e ao meu redor ela é muito amada, esta mulher do camião, que obviamente não é aceite na sociedade actual, os estalinistas diriam que ela é louca. Como se a alienação em si mesmo fosse uma definição. Os escritores e as pessoas livres são tratados assim. Na sociedade, a liberdade é tratada como a loucura. Esta mulher é livre, ela ri quando ele lhe diz: «Você é uma reacionária», ela ri quando ele lhe diz: «Saiu do hosp...

Assumir os pressupostos da vida não fascista #3

M. D.: Foi tudo filmado entre Trappes e Plaisir, quer dizer, basicamente na capital da imigração em França. Não sei quantos são, talvez um milhão ou dois milhões nesta zona. Todos esses edifícios mortuários que vê foram construídos para eles, são os bancos de ensaio dos arquitectos de Paris. Os franceses fugiram deles. Devo dizer que os portugueses, nos primeiros tempos, também fugiram dos apartamentos que lhes destinámos, para voltarem às suas caravanas e aos seus bairros de lata, porque nos seus bairros de lata estavam juntos, à noite podiam comer juntos, reunirem-se. Havia uma verdadeira comunidade nos bairros de lata. Foi destruída. Foi substituída por esses blocos que vê no filme, esses fabulosos amontoados de alojamentos. Em vez de uma caravana, agora há entre sete e doze casas sobrepostas. Em Pequim é a mesma coisa, no México, em Madrid. Eu prefiro os bairros de lata, sem água, sem conforto, mesmo que faça muito calor, prefiro. O Camião seguido de entrevista com Michelle Porte,...

Assumir os pressupostos da vida não fascista #2

Voz off de M. D.  Ela teria apontado para o mar  [ Pausa .]  Ela diz: veja, o fim do mundo.  A toda a hora  A cada segundo.  Por toda a parte.  Espalha-se.  Ela diz: é melhor, sim.  É tão difícil... tão... tão duro... tão...  É melhor assim. É o melhor.  Não valia a pena, é o que eu acho...  [ Pausa .]  Ela diz: antes, já havia mar, aqui,  Além, veja.  Além.  [ Pausa .]  Ele diz: mas de que é que está a falar? Ela diz: eu falo.  [ Pausa .]  Ela canta.  Ela fecha os olhos e canta. O Camião seguido de entrevista com Michelle Porte,  de   Marguerite Duras. BCF editores, maio de 2025. [Apresentação do livro no próximo sábado, às 18h00, na Térmita. Com Eduardo Calheiros Figueiredo e Manuel Sá.]

Assumir os pressupostos da vida não fascista #1

G. D. Ela fala? M. D. Sim, ela vai falar. G. D. [ Pausa .] Quem é ela? M. D. Uma desqualificada [ Pausa .] Está a ver? G. D. Sim [ Pausa .] M. D. O único elemento em comum entre eles é uma certa violência no olhar. Face a esse vazio diante deles, o Inverno nu, o mar. [ Pausa .] O silêncio no início do filme teria representado a primeira relação entre as personagens. Relação distante, quase indiferente, maquinal. Teria sido uma espécie de estabelecimento de uma relação por vir. G. D. Essa relação vai acontecer? M. D. [ Pausa .] Talvez nunca. G. D. [ Pausa .] O que é que acha? M. D. [ Pausa .] Nunca. O Camião seguido de entrevista com Michelle Porte,  de   Marguerite Duras. BCF editores, maio de 2025. [Apresentação do livro no próximo sábado, às 18h00, na Térmita. Com Eduardo Calheiros Figueiredo e Manuel Sá.]

Entre parêntesis

Tive de ver várias vezes a cena final de The Horse Soldiers para conseguir traduzir dois parágrafos onde Paulino Viota descreve com minúcia os planos e os movimentos dos actores, principalmente o modo emocionado e contido como Hannah move o braço esquerdo ( a alma nasce da forma do corpo ). Ao fim de algum tempo, apercebi-me que Ford filmou a breve despedida de Marlowe e Hannah entre parêntesis. Uma comoção tremenda que nos afecta ainda mais por ser tão velada.
(...) Translating is always listening, scanning for cadence, texture, influence, weight; the myth of the father is a reminder that Daney listened first.  Close Listening, Christine Pichini, 2025. Sabzian.

Insólito bestiário

Leio no jornal que a Casa do Cinema Manoel de Oliveira inaugura por estes dias uma exposição composta por «um insólito bestiário de bonecos, arte sacra e outra quinquilharia», pertencente a Luis Miguel Cintra. Que extraordinária definição de teatro e cinema: um insólito bestiário de bonecos, arte sacra e outra quinquilharia. Devia constar das respectivas entradas nos dicionários e enciclopédias.

Prestar um favor aos ricos

Sou um vendedor nato: galante, pressuroso, cortês, veloz, lacónico, lesto a decidir, exímio nos cálculos, atento e honesto, mas não honesto ao ponto da estupidez, como talvez possa parecer. Sei baixar os preços quando tenho à minha frente um estudante que não tem onde cair morto e sei subir os preços para assim prestar um favor aos ricos, de quem apenas posso supor que por vezes não sabem o que fazer ao dinheiro. Robert Walser, Os Irmãos Tanner . Tradução de Isabel Castro Silva

Galochas e buraquinhos nas luvas

[Breve estudo de literatura comparada] Por razões de trabalho, o Rui anda a ler Robert Walser de uma ponta à outra. No sentido inverso, isto é, para festejar o fim do trabalho assalariado, resolvi atirar-me de novo a John Fante.  Quando o li pela primeira vez, achei que tinha semelhanças com Walser (Fante ou Bandini?), mas nunca estudei o assunto – nem sempre se deve aprofundar as nossas intuições, pois claro! Agora as relações surgem por iniciativa própria: os objectos mais banais ganham vida própria, movimento, diminutivos; a alegria alastra como uma névoa. (Ah, deve ser o efeito da praia atlântica, da areia, do vento, da liberdade.) Provas materiais: «Rosa, a presidente da Sociedade do Santo Nome, a menina dos olhos de toda a gente, cada vez mais próxima, caminhando sobre as pequenas galochas que pareciam dançar de alegria, como se a amassem também.» «Num dos bolsos laterais encontrou um par de pequenas luvas. Estavam bastante gastas, com buracos na ponta do dedos. Oh, que lindo...

Dos jornais XXIX

A palavra farsa já não serve para explicar o que se passa. Os conceitos de Hegel e Marx ficaram para trás. O presente é uma massa de acontecimentos irracionais. Nada disto é cómico.

Filipe Guerra

Soube há instantes que Filipe Gueŕra faleceu esta madrugada. Não há leitor em Portugal que não tenha uma dívida de gratidão para com ele. Era um escritor sábio. Um tradutor atento, incansável e generoso. Traduziu , com Nina Guerra, largas dezenas de autores russos, muitos deles inéditos entre nós ou traduzidos pela primeira vez directamente da língua original. Os seus prefácios e apresentações, escritos num português límpido, sofisticado e imaginativo, são extraordinárias lições sobre a história e o ofício da literatura. Também fez traduções do francês, italiano e espanhol. Numa colecção que dirigi em tempos, editei uma antologia de contos de Alphonse Allais, que ele seleccionou, apresentou e traduziu. É dos livros de que mais me orgulho . Será lido para sempre e para sempre lembrado. [A qualidade da fotografia é péssima. Podia ter usado outra, mas esta é a minha preferida. O Filipe Guerra com o sempiterno cigarro entre os dedos. A fotografia está cortada. No original, à sua direita, e...

Deixa lá isso

A certa altura, a Branca de Neve exige ao Príncipe que pare com a sua empolada tagarelice e as suas intermináveis promessas de fidelidade: «Porque falas assim sem parar?» Se ele estivesse efectivamente rendido aos encantos da donzela, não precisava de taramelar «como uma cascata sobre o silêncio». Só a infidelidade, diz ela, «palra tão depressa». O Príncipe, lapidar, responde: «Deixa lá isso!» Na voz de um bom actor, é das frases mais desconcertantes e engraçadas do dramalhete de Robert Walser.

Uma vida boa

 De manhã, praia; à tarde, cinema. Tem sido assim, mas hoje vai ser praia todo o dia!

O que eu gosto de musicais

 

Playtime

Parece-me agora óbvio que Monsieur Hulot, de Playtime , é um descendente directo das personagens desarrumadas de Robert Walser. O mundo moderno, organizado como um frio relógio suíço, é para todas estas figuras um imenso parque de diversões. Motivo de prazer e angústia.

Morder o isco

Enquanto o ministério de Bonaparte tomava em parte a iniciativa de elaborar leis no espírito do Partido da Ordem, e por outro lado exagerava ainda a execução e aplicação dessas leis, ele próprio só procurava ganhar mais popularidade através de medidas néscias e pueris, evidenciar a sua oposição à Assembleia Nacional e chamar a atenção para uma secreta intenção, que só as circunstâncias do momento impediam, de proporcionar ao povo francês os seus tesouros escondidos. Por exemplo, a proposta de conceder um aumento diário de uns patacos (quatro sous ) aos oficiais subalternos. Ou a da criação de um banco de crédito (a conceder sob compromisso de honra) para os operários. Dinheiro oferecido e dinheiro emprestado, era esta a perspectiva com que esperava levar as massas a morder o isco. Oferecer e emprestar, a isso de limita a ciência financeira do lumpenproletariado, do mais distinto como do mais vulgar. Nisso assentavam as molas que Bonaparte era capaz de pôr a funcionar. Nunca um pretende...

Glarner Birnbrot

Nos seus diários, Max Frisch escreve que Lenine e Robert Walser conversaram apenas uma vez. Foi em 1917, na Spiegelgasse, em Zurique, em frente a uma pastelaria. Dias antes da Revolução e do regresso de Lenine à Rússia. Walser fez-lhe uma única pergunta: «Também gostas de Glarner Birnbrot ?» Frisch garante que a história é verdadeira.

Admiradores

Joyce e Musil moravam muito perto um do outro em Zurique durante a última guerra; no entanto, não fizeram nenhuma tentativa de se conhecerem, de se encontrarem. Os criadores não comunicam entre si. Precisam de admiradores, não de semelhantes . Emil Cioran, Cadernos 1957-1972