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Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Joseph de Maistre

Optimistas com a morte na alma

(...) A autoridade tem de assentar em algum mistério ou fundamento irracional para se manter? A «direita» diz que sim, a «esquerda» diz que não. Diferença puramente ideológica; na verdade, qualquer ordem que quer durar só o consegue através de uma certa obscuridade envolvente, do véu que lança sobre as suas motivações e actos, de um tudo-nada de «sagrado» que a torna impenetrável às massas. Trata-se de uma evidência que os governos «democráticos» não podem reivindicar, mas que, em contrapartida, é proclamada pelos reaccionários: indiferentes à opinião e ao consentimento das multidões, eles proferem sem pejo truísmos impopulares, banalidades inoportunas. Os «democratas» escandalizam-se, embora saibam que muitas vezes a «reacção» traduz os seus pensamentos mais recônditos, dá voz a alguns dos seus desenganos íntimos e a muitas certezas amargas que não podem declarar publicamente. Encurralados no seu programa «generoso», não lhes é permitido demonstrar o menor desprezo pelo «povo», nem se...

Reflexão

Atribuir uma significação ao processo histórico, ainda que a fizessem surgir de uma lógica imanente ao devir, é subscrever, mais ou menos explicitamente, uma forma de providência. Pelo próprio facto de conferirem um sentido aos acontecimentos, Bossuet, Hegel e Marx pertencem à mesma família ou, pelo menos, não diferem uns dos outros no essencial, pois o importante não é definir ou determinar esse sentido, mas recorrer a ele, postulá-lo – e é isso que eles fazem. Passar de uma concepção teológica ou metafísica para o materialismo histórico é simplesmente mudar de providencialismo. Se nos habituássemos a olhar para além do conteúdo específico das ideologias e das doutrinas, veríamos que reivindicar uma em vez de outra não implica, de modo algum, qualquer esforço de sagacidade. Os que aderem a um partido acreditam que se distinguem dos que seguem outro quando, na realidade, desde o momento em que escolhem, todos convergem na essência, participam da mesma natureza e diferem apenas em aparê...

A frutificação instantânea de uma árvore no mês de janeiro

Para Maistre, essa força ganha um sentido, torna-se verdadeiramente a Providência, a partir de um milagre, a Revolução: «se no coração do inverno e diante de mil testemunhas um homem ordenar a uma árvore que se cubra repentinamente de folhas e frutos e a árvore obedecer, todos clamarão milagre e inclinar-se-ão diante do taumaturgo. Mas a Revolução Francesa e tudo o que se passa neste momento é, no seu género, tão maravilhoso como a frutificação instantânea de uma árvore no mês de janeiro…».   Exercícios de Admiração – Ensaios e Retratos, de Emil Cioran, Gallimard, 1986.