(...) A autoridade tem de assentar em algum mistério ou fundamento irracional para se manter? A «direita» diz que sim, a «esquerda» diz que não. Diferença puramente ideológica; na verdade, qualquer ordem que quer durar só o consegue através de uma certa obscuridade envolvente, do véu que lança sobre as suas motivações e actos, de um tudo-nada de «sagrado» que a torna impenetrável às massas. Trata-se de uma evidência que os governos «democráticos» não podem reivindicar, mas que, em contrapartida, é proclamada pelos reaccionários: indiferentes à opinião e ao consentimento das multidões, eles proferem sem pejo truísmos impopulares, banalidades inoportunas. Os «democratas» escandalizam-se, embora saibam que muitas vezes a «reacção» traduz os seus pensamentos mais recônditos, dá voz a alguns dos seus desenganos íntimos e a muitas certezas amargas que não podem declarar publicamente. Encurralados no seu programa «generoso», não lhes é permitido demonstrar o menor desprezo pelo «povo», nem se...
de Cristina Fernandes e Rui Manuel Amaral