quarta-feira, 15 de junho de 2016

Uma coisa tão de senso comum

Enquanto o tio falava, Alexándr mexia num maço de papéis.
"O que é isso?"
Alexándr esperara com impaciência aquela pergunta.
"Isto… Queria mostrar-lhe… uns versos. Como já mostrou interesse…"
"Não me lembro de ter mostrado qualquer interesse…"
"Bem vê, tio, eu acho que o emprego é uma ocupação árida, em que não se põe a alma, e a alma tem sede de se exprimir, de partilhar com o nosso próximo os sentimentos e ideias, que a inundam…"
"Bem, e depois?" perguntou o tio, com impaciência.
"Sinto que a criação é a minha vocação…"
"Ou seja, além do emprego, queres fazer qualquer coisa mais - é assim que devo interpretar o que dizes? Pois é muito louvável. E queres fazer o quê? Literatura?"
"Sim, tio, queria pedir-lhe que se alguma vez tiver oportunidade de publicar qualquer coisa…"
"E tens a certeza de que tens talento? Sem isso, serás um mau trabalhador na arte e de que serve? Se tens talento, então é outra coisa. Vale a pena trabalhar. Podes ter êxito. É um capital que vale mais de cem almas."
"Também mede isso por dinheiro?"
"Com que queres medir? Quanto mais gente te leia, mais te pagam."
"E a glória, a glória? A glória é a verdadeira recompensa do rapsodo…"
"A glória está cansada de cuidar dos rapsodos: há demasiados pretendentes. Antigamente, a glória, como uma mulher, estava à disposição de todos, mas agora, reparaste, não?, parece ter desaparecido ou ter-se escondido. Sim! A fama existe, mas a palavra glória já não se ouve muito, ou inventou outra maneira de se apresentar. Aqueles que escrevem melhor recebem mais dinheiro, e os que escrevem pior  não devem ficar furiosos. No entanto, os bons escritores vivem bem hoje em dia, não passam frio nem morrem de fome em mansardas, embora as pessoas não corram atrás deles pelas ruas nem os apontem como se fossem bobos. (…) Não te ensinaram isto na universidade? Então o que aprendeste tu por lá?"
O tio estava um pouco humilhado por ter descido a explicar uma coisa tão de senso comum.

Ivan Goncharov, A história de sempre. Tradução de Manuel de Seabra.

Sem comentários:

Arquivo