domingo, 12 de novembro de 2017

Quatro breves notas sobre O Cavalo de Turim

Não havia horizonte, salvo não haver horizonte.
F. Pessoa, A estrada do esquecimento.

1) Endgame

Se Béla Tarr decidisse filmar Endgame, de Samuel Beckett, talvez o resultado não fosse muito diferente de O Cavalo de Turim. Uma casa isolada numa planície praticamente deserta. Dois personagens ali encerrados, um homem e uma mulher, pai e filha. Uma porta e uma janela. O que sabemos do exterior resume-se praticamente ao que é possível observar a partir dessa janela. Dias e noites sucedendo-se, aparentemente iguais entre si.

HAMM
(...) Como está tudo?


CLOV
Como está tudo? Numa palavra? É o que queres saber? Um segundo
(aponta o óculo para fora [da janela], observa, baixa o óculo, volta-se para Hamm.) Mortibus.





2) Deus criou o mundo em seis dias, o mesmo tempo que demorou a destruí-lo

A narrativa de O Cavalo de Turim decorre em seis dias, ao longo dos quais cada coisa se vai apagando, numa espécie de lento e inexplicável desmaio. Todos os elementos da natureza começam a falir, um após outro, incluindo os sinais vitais dos personagens. No último plano, antes do derradeiro fade out para negro, pai e filha assemelham-se a duas estátuas de pedra, dois vestígios humanos para uma qualquer longínqua arqueologia.

O que acontece em O Cavalo de Turim é a descrição do Génesis em sentido inverso, quer dizer, do fim para o princípio.

Deus disse: “Faça-se a luz!” e a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. Deus chamou à luz Dia, e às trevas Noite. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia.
Génesis, 1.

O primeiro dia da criação corresponde, no filme de Tarr, ao sexto dia, o dia em que a luz se extingue, em que a manhã se confunde com a noite, e o mundo regressa ao princípio, ou melhor, antes do princípio, ao tempo em que “a terra estava informe e vazia” e “as trevas cobriam o abismo”.

Nietzsche declarou a morte de Deus. E Deus vingou-se no filme de Béla Tarr. Da mesma maneira que criou o dia e a noite, o céu e a terra, o homem e a mulher, também os destruiu, em seis dias.





3) Terra, água, fogo e ar

Mas não é apenas a revolta de Deus que se pressente no filme. O que vemos é a revolta da própria natureza. O primeiro indício está no título, O Cavalo de Turim, que evoca o episódio que terá precipitado o colapso nervoso de Nietzsche, e que Tarr usa como prólogo:

Em Turim, a 3 de Janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche saiu do n.º 6 da Via Carlo Alberto, talvez para dar um passeio. Ou talvez para ir aos Correios buscar a correspondência. Não muito longe dele, ou por outra, bastante longe até, um cocheiro estava a ter dificuldades com a teimosia do seu cavalo. Apesar de todos os seus esforços, o cavalo recusava-se a andar, a pontos que o carroceiro - Giuseppe? Carlo? Ettore? - perdeu a paciência e começou a vergastá-lo. Nietzsche aproximou-se do ajuntamento e pôs fim à brutal cena protagonizada pelo carroceiro, que, entretanto, espumava de raiva. Homem corpulento e de bigode farto, Nietzsche põe-se à frente da carroça e abraça-se ao pescoço do cavalo, soluçando. Um vizinho leva-o a casa. Ali permanece prostrado no divã em silêncio durante dois dias, até balbuciar as suas últimas palavras, “Mãe, sou um estúpido”, após as quais viveu mais dez anos, dócil e demente, entregue aos cuidados da mãe e das irmãs. Do cavalo… Nada sabemos.


Deus morreu e quem lhe sucede é um carroceiro impiedoso a vergastar um cavalo, que é o mesmo que dizer, um homem a violentar a natureza, na esperança de que, pela força, ela lhe obedeça. No filme, tal como o cavalo da história de Nietzsche, a natureza decide deixar de obedecer. Primeiro é a terra: em torno da casa, há apenas um terreno seco e frio, onde se vislumbra uma única árvore, despida, talvez morta. Depois, a água: no quarto dia, o poço seca. No quinto dia, apaga-se o fogo: Que escuridão é esta, pai? Os candeeiros a petróleo não acendem e as brasas extinguem-se. Por fim, extingue-se o vento. A casa e os personagens são finalmente engolidos pela escuridão e o silêncio.




4) Uma gaiola vazia

No meio da casa, suspensa do tecto, há uma gaiola. No interior da gaiola não há nada. É possível que ali tenha vivido um pássaro. Apesar disso, permanece no centro da casa, como se tivesse uma qualquer função importante. Talvez a gaiola vazia represente o primeiro sinal de extinção. Tal como os pássaros que os mineiros transportavam em gaiolas para o interior das minas e que tinham por função indicar a presença de gases tóxicos nas galerias subterrâneas. Se os pássaros desmaiassem ou morressem, os mineiros sabiam que corriam perigo de vida e que tinham que abandonar rapidamente a mina. Em O Cavalo de Turim, os personagens não têm escolha. Não há maneira de escapar.



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