segunda-feira, 21 de maio de 2018

Ideia negra



O que digo é que o «rochedo» que domina toda a parte central do quadro O Naufrágio, de Claude-Joseph Vernet, pode ser outra coisa. Uma estranha nuvem, talvez. Talvez um sonho diabólico, a verdadeira forma do medo. O que digo é que aquela terrível mancha negra não é deste mundo. É de uma substância e potência diferentes de tudo o que existe e se conhece. Qualquer coisa que surge vinda de um outro sítio, de um outro lado, e se instala, por momentos, neste mundo. Como uma aparição, uma ideia negra que ganha forma e matéria.
O que Vernet não mostra é se essa ideia negra nasce da angústia dos marinheiros ou se a sua origem é de outra natureza: o sonho de destruição de um deus funesto. O trabalho de Michael Biberstein é o de alguém que pensou obsessivamente nisto e sabe a resposta. Ou melhor, é o de alguém que sabe a pergunta certa.

De que me serve fugir
da morte, dor e perigo,
se me levo eu comigo?

Luís de Camões

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