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A mostrar mensagens com a etiqueta Sem Sol
Uma imagem para o Presidente da CIP. Vi nascer todos estes jogos no Japão. Reencontrei-os depois no mundo inteiro, com uma pequena variante: ao princípio é um jogo conhecido, uma espécie de bateria anti-ecológica onde se trata de malhar, mal ponham a cabeça de fora, em criaturas que ainda não determinei se são ratões-d’água ou bebés-foca. Agora, eis a variante japonesa: em vez dos bichos, umas cabeças vagamente humanas identificadas por uma etiqueta. No topo, o Presidente-director-geral. À sua frente, o Vice-presidente e os directores. Na primeira fila, os chefes de secção e o chefe do pessoal. O tipo que filmei, e que desancava na hierarquia com uma energia invejável, confidenciou-me que para ele o jogo não era nada alegórico, que era mesmo nos seus superiores que estava a pensar. É por isso, sem dúvida, que a marioneta do chefe do pessoal foi tantas vezes e tão fortemente martelada que está fora de serviço, e teve de ser substituída de novo por um bebé-foca.  Sem Sol, Chris Marke...

Haverá algum dia uma última carta?

Acabei de rever a tradução de Sem Soleil , de Chris Marker; agora só me falta rever outra vez.

Pobreza de meios

Nunca me pareceu que a pobreza de meios, que é (pelo menos no meu caso) mais vezes uma questão de circunstâncias do que de escolha, pudesse fundar uma estética, e já deito as histórias do Dogma pelos olhos. É mais a título de encorajamento para jovens cineastas desprovidos de recursos que menciono estes pequenos detalhes técnicos: La Jetée foi realizada com uma máquina Pentax 24x36, e a única passagem filmada em «cinema», aquela que culmina no bater de olhos, com uma câmara 35 mm Arriflex emprestada por uma hora.  Sans Soleil foi filmado na íntegra com uma câmara Beaulieu 16 mm, muda (não há um único plano síncrono em todo o filme), com bobinas de 30 metros – 2’44’’ de autonomia! – e um pequeno gravador de cassetes – nem sequer um Walkman, que ainda não existia… O único elemento sofisticado – para a época – foi o sintetizador de imagem Spectre, também emprestado por alguns dias. Tudo isto para dizer que as ferramentas de base destes dois filmes estavam literalmente ao alcance de ...

«Ser fantasma entre fantasmas»

Há um desconcerto declarado em Ossos . Não é o filme que rompe com tudo, não tem nem a aura nem a veneração de No Quarto de Vanda , mas à distância, e depois de o ver várias vezes, apercebo-me que é já aqui que Pedro Costa e o próprio cinema perdem o pé — as imagens e o som projectados na tela não são, não podem ser, o que estava planeado, é outra coisa mais desvairada. Se insistirmos um pouco, conseguimos ver todo esse descalabro a acontecer. Os actores (principalmente as mulheres que olham — como a mulher de Bissau em Sans Soleil* — e as mulheres que agem) e o próprio bairro deram cabo das intenções cinematográficas, cortaram diálogos, forçaram a escuridão e o silêncio, abandalharam a acção e criaram, elas mais do que ninguém, um objecto estranho e provocatório onde o sentido está dissociado de uma narrativa com causas e consequências — e que se aproxima de qualquer coisa primitiva, amoral e até mesmo, por vezes, infantil (isto não anda longe de uma definição básica de surrealismo)...

Real punk almost in reverse

Se fizesse um filme de ficção (autobiográfico, como convém a quem não sabe fazer filmes? ou uma historiazinha marada de Walser?). Bom, se fizesse um filme de ficção, usava as  The Shaggs  como música diegética («um filme a sério só tem música diegética»). A música seria como a película negra do Chris Marker: uma imagem de alegria sem explicação. Podíamos ver o filme de olhos fechados. Podíamos adormecer.